sábado, 16 de junho de 2018

UM PERFUME DESCONHECIDO




Entrei há dias no carro, após uma visita a um familiar, e estranhei o perfume que se fazia sentir no interior da viatura.

Olhei de soslaio para a minha mulher, tentando adivinhar que aroma tinha ela escolhido.
Revi mentalmente os perfumes que ela costumava usar. Embora eu os conhecesse todos ou quase todos, não consegui identificá-lo. De uma coisa estava eu convicto:  era uma essência floral, talvez à base de rosas, mas havia algo de muito fresco, diria mesmo, selvagem.

Empenhei-me em descobrir o que era, sem lhe perguntar nada. Às tantas, ela deu pela observação disfarçada a que estava a ser sujeita.

-Queres perguntar-me alguma coisa?

-Talvez sim ou talvez não… queria saber que perfume estás a usar…

Ela disse-me o que usava e eu fiquei ainda mais intrigado, pois o que me cheirava, nada tinha a ver com o aroma que ela anunciava. Acabei por explicar-lhe, a causa da minha estranheza.
Sorriu de modo enigmático e disse-me:

-Quando chegares a casa, é possível que descubras por ti próprio.

Já em casa, sem nada lhe perguntar, mas com a curiosidade à flor da pele, após tirar o que havia no banco traseiro, encontrei uma só haste de flor que emanava um forte cheiro a rosas, mesclado com outro aroma qualquer..

Estava descoberto o segredo: um ramo de malva- rosa, cujo aroma nos embebia numa fragrância de rosas agridoces, de notas um tanto selvagens, que nos penetrava a alma e envolvia o espírito e se espalhara no interior do automóvel. Tinha sido uma oferta da minha cunhada, que por acaso eu não vira.

Jorge C. Chora
16/6/18




quarta-feira, 13 de junho de 2018

DE MÃOS DADAS


Regado e posto ao luar,
estava à janela,
quando te trouxeram
e a meu lado te colocaram.
Somos um par de manjericos,
e desde aí nunca nos separámos,
perfumamos o dia e a noite,
damos as mãos desde
o Stº António ao S. João,
oxalá ainda cá estejamos
por alturas de S. Pedro.

Jorge C. Chora
13/6/18


terça-feira, 12 de junho de 2018

UM BEIJO NO STº ANTÓNIO



Vi um beijo às cambalhotas,
enrolado como uma bola,
perguntei-lhe por que rolava assim,
respondeu-me que era para chegar,
mais depressa ao pé de mim.
 Guardei nos meus lábios
a dádiva que me deu,
e ofereci-lhe um manjerico,
acompanhado do dobro dos beijos que me ofereceu .

Jorge C. Chora
12/6/18


domingo, 10 de junho de 2018

O TREVO DE QUATRO FOLHAS


Ninguém saía de sua casa sem ser presenteado, pelo menos com um trevo de quatro folhas. Eles enchiam parte de um canteiro, mas não tinham nascido ao acaso: tinham sido seleccionados, semeados, depois transplantados e cuidados.

A sorte ou a sua falta, não dependiam do trevo de quatro folhas, racionalmente falando, mas os visitantes adoravam recebê-lo. Veio o tempo de seca e os trevos murcharam. Ao chá príncipe aconteceu o mesmo. Ambos desapareceram.

Um belo dia, os senhores que ofertavam o trevo e serviam o chá, receberam uns amigos que ao saberem do desaparecimento daqueles produtos, se mostraram tristíssimos com o facto:

-  Já estávamos a antecipar o sabor… e a prendinha.

-Estejam descansados. A lúcia-lima não foi afectada.

Divinal foi o adjectivo atribuído pelos visitantes ao aromático e delicioso chá. À saída, olharam de relance para o canteiro onde outrora tinham existido os trevos de quatro folhas.
Os donos da casa sorriram, pararam junto ao loureiro, encheram um pequeno saco com as suas folhas e ofertaram-no aos visitantes:

-Para temperarem os vossos bifinhos…

Já a sós, os anfitriões, após um longo beijo, sussurraram:

- Para temperarmos as nossas vidas…

-Agora tempero eu a tua… -murmurou-lhe a companheira.

Jorge C. Chora
10/6/2018

terça-feira, 5 de junho de 2018

REQUIEM POR UM SERVIDOR EXEMPLAR


Morreu-me um fiel servidor. Sem erro e sem tibiezas, reconheço-lhe uma grandeza invulgar, um estatuto inigualável de trabalhador. Nunca se recusou trabalhar, fosse a que horas fosse, pelo simples prazer de o fazer, sem pensar em contrapartidas. 

Foi exímio no exercício de me fornecer, em segundos e sem reclamações, a água a uma temperatura adequada ao meu chá ou ao saco de água quente. Nunca me deu quaisquer cuidados e foi como um pajem mudo, durante 44 anos.

Morreu de pé, aceso como uma tocha, cumprindo cabalmente o serviço até ao último segundo, seguindo sempre o lema “antes quebrar do que torcer”. Acabou por dar o último suspiro nos primeiros dias de Junho, não passando assim, para meu grande pesar, a época de veraneio na nossa companhia.

Que repouse em paz. Paloma, assim se chamava o servidor, era um esquentador japonês. Só podia…

Jorge C. Chora
5/6/2018

segunda-feira, 4 de junho de 2018

AS OVELHAS DO MEU JARDIM



 Uma das coisas que mais me agradam, é sentar-me no meu micro- jardim e cuidar do meu rebanho imaginário.
Tenho pendurado numa romãzeira, um espanta-espíritos de bambu que produz quando o vento sopra, um som semelhante aos chocalhos de um pequeno rebanho quando passa.

 Uma vizinha que há uns anos regressava do seu trabalho, espreitou o meu jardim e perguntou-me onde é que eu tinha as ovelhas. Apontei-lhe a fonte do som, o espanta-espíritos de bambu. Agora, mesmo que eu não esteja visível, sabe que eu lá estou, porque ouve o rebanho.

Este rebanho imaginário só tem vantagens: para além de não me comer nada no micro- jardim, de não o sujar, também não se ouvem més nem meio més e o rasto de excrementos que denunciam a passagem dos rebanhos verdadeiros.

Para completar o bucolismo da situação, nem me falta uma bengala, devido a um problema muscular temporário, que com um pedaço de boa vontade, se pode metamorfosear em cajado e consolidar a fantasia de pastor de um rebanho imaginário, sem cheiros nem balidos, que esses deixo a quem deles gosta.

Jorge C. Chora
4/6/2018



quinta-feira, 24 de maio de 2018

OS PAUS - MANDADOS


Há datas e dias marcados,
não sabem bem para que eventos,
o que interessa é que já estão marcados,
para horas e dias aprazados,
e pronto!
Tendo dito o que lhes ordenaram,
nada mais têm a dizer,
para além dos dias e das horas
de eventos que não fazem,
nem querem saber,
a mínima ideia do que tratam.

Jorge C. Chora
24/5/2018