terça-feira, 7 de agosto de 2018

O PSICHÉ DE D. CREMILDE


                                                 
Cremilde destinava a quarta-feira, como o dia em que decidira abrir as portas de sua casa às vizinhas.
Herdara da Srª D. Virgínia um psiché, coisa rara por aquelas bandas. Servira em casa desta senhora abastada e ela deixou-lho em testamento.
No dia em que ele chegou a sua casa, gerou-se um charivari à sua porta, que impediu a apreciação cabal e a satisfação da curiosidade da preciosidade, por parte da vizinhança.
Cremilde, de modo magnânimo, decretou a terceira quarta-feira de cada mês, para visitas ao psiché, em sua casa. Só dez pessoas de cada vez eram admitidas à visita mensal.
-Para que queres um espelho tão grande ?- questionavam as amigas.
Cremilde explicava que se sentava à sua frente e se arranjava, penteava e colocava o pó-de-arroz, tal como vira a Srª D. Virgínia fazer todos os dias durante anos.
-Mas há três espelhos!
-Claro e isso é a melhor coisa deste psiché…
-Como assim?
 E D. Cremilde afivelava um sorriso maroto e convidava:
-Sentem-se e vejam que no espelho da direita é possível ver a minha cama… O meu Joaquim, como sabem, é um republicano dos quatro costados. Depois do 5 de Outubro, enche-se de certas vontades e eu daqui observo-o, vejo o que se passa, e não deixo que elas lhe desapareçam…
E na vila, sempre que alguém enriquecia, as esposas pediam que lhes comprassem um psiché.

Jorge C. Chora
7/8/2018

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

ARREDA


Nos olhos de outro 
posso ver-me,
mas não
rever-me.
Ele vê-me como quer
que eu fosse,
um simples reflexo
daquilo que ele deseja,
mas não de alguém
que se
está nas tintas,
para aquilo que ele julga ver.

Jorge C. Chora
   2/8/18



sexta-feira, 27 de julho de 2018

A MINHA AVÓ ELEONORA



A minha avó Eleonora, de seu nome completo Eleonora D ’Abreu Ramos da Silva, viveu a maior parte da sua vida na Ilha de Moçambique. Era casada com um militar, o meu avô, e tiveram seis filhos, um dos quais, era a minha saudosa e falecida mãe Regina.

Ontem,26/7/18, faleceu a sua irmã mais velha, Branca Ramos da Silva Pereira e agora só me sobeja a minha tia Odete, a quem desejo mais saúde e força .

A minha avó Eleonora era um espanto. Ficou surda muito nova, após ter contraído uma constipação de alto lá com ela. Adorava conversar e tinha imensa pena de não conseguir ouvir. Lia os lábios dos interlocutores.

Na sua ânsia de escutar, nunca recusou testar aparelhos auditivos. Quando lhe perguntavam se já estava a ouvir com o novo aparelho que estava a testar, dizia logo que sim. Os médicos, alertados para as suas competências de leitura labial, colocavam-se nas suas costas e falavam-lhe. Era o mesmo que nada. Nunca conseguiu ouvir bem. Com muita pena sua, teve sempre de ler os lábios.

Ria com facilidade e o seu humor era contagiante e notável. Um dia, em Lourenço Marques, resolvemos, eu e o meu irmão, dizer-lhe que havia um cavalheiro de idade que rondava a casa e nós julgávamos que ele estivesse interessado em conhecê-la. Acrescentámos que o senhor era um militar e suspeitávamos que fosse um general…

- Oh! Um general? Coitadinho…ainda se fosse um tenente! - e ria-se a pensar no seu falecido marido, meu avô, um tenente coronel de antanho, que a encheu de filhos e morreu cedo.

Quando lhe nascia um bisneto(a) exclamava:

-Linda(o)! Também não tinha a quem sair feio!

Eleonora era muito meiga e beijoqueira. Adorava os netos e extasiava-se com os bisnetos, embora não os visitasse com a frequência desejada, pois mal conseguia andar. Morreu como viveu: com um sorriso nos lábios, enfrentando todas as adversidades.

Jorge C. Chora

27/7/18





terça-feira, 24 de julho de 2018

O MENINO E O CARANGUEJO


Com a cacimba
por agasalho
e o luar como companhia,
uma criança
à beira-mar viu
e sorriu a um caranguejo,
que fugia de uma onda do mar
e convidou-o:
--Anda para ao pé de mim,
que não te faço mal,
tomara eu que não me façam
 o que julgas
que te farei a ti.
E ao luar ficaram,
lado a lado,
como velhos amigos,
o menino e o caranguejo,
 até ao nascer do sol.

Jorge C. Chora
     24/7/18

segunda-feira, 23 de julho de 2018

LOUISE E IVANA


                                                 

Ivana e Louise eram irmãs, sendo Louise, a minha avó e Ivana a minha tia-avó. Estavam juntas todos os dias. À hora do lanche, pelas quatro da tarde, mais pontual do que o Big-Ben, Ivana aparecia. Morava talvez a uns duzentos metros.

Nos dias de muito vento, a deslocação era problemática. A minha tia-avó era muito pequena e leve como uma pena. Cosia-se de modo estratégico aos muros existentes entre a sua vivenda e a da sua irmã. Parava quando a ventania era mais forte e avançava com precaução quando ela abrandava. O certo é que chegava sempre, sem delongas nem desculpas, às quatro em ponto.

A minha avó era mais alta do que a irmã, mas tão magra como ela, embora um tudo nada, menos leve.

Tia Ivana era um doce. Tudo estava bem para ela. Nunca me lembro de a ter visto zangada ou dizer algo mais ríspido. Contou-me o meu falecido pai, que ele e os(as) primos(as), quando eram muito jovens, adoravam estar com a tia e almoçar em sua casa.

Enquanto ela cozinhava, iam passando pela cozinha e tirando batatas fritas ou que lhes apetecia, a seu belo- prazer, sem que ela os repreendesse uma vez que fosse. À hora da refeição, vinha para a mesa exactamente o que tinha sobrado. Disciplinaram-se num ápice. Não ralhou, ameaçou ou gritou. Era assim a minha tia-avó.

A minha avó era diferente. Para ela existiam regras e irritava-se, se algo acontecia fora delas. Não havia mas nem meio mas. Ela mandava e estava tudo dito. Havia horas para tudo. O meu avô era militar e ela habituara-se a governar a casa desse modo, mesmo após o seu falecimento.

O seu ritual nocturno, antes de dormir, impressionava-me. Arranjava as suas longas tranças com todo o cuidado, como se tivesse de ir a qualquer lado. Colocava o pó de arroz e fazia o resto da toillete. A primeira vez que a vi a preparar-se assim, perguntei-lhe porque o fazia e ela respondeu-me:

-Se eu morrer, não dou trabalho a ninguém, para além de saber como vou!

Na cozinha mandava ela e muito bem. Só de pensar nos seus pitéus, cresce-me a água na boca. Havia um senão: sopapos para quem deixasse comida no prato, principalmente para quem tinha tido mais olhos do que barriga ou falasse sem autorização. Havia também, verdade se diga, distribuição de belos chocolates pelos netos, com conta peso e medida. Descobrimos o esconderijo e havia aquilo que designávamos com o assalto ao comboio: comíamos muitos mais do que aqueles que ela tencionava dar-nos. Hoje suspeito que ela sabia perfeitamente das nossas tropelias, mas fazia vista grossa.

Tempos que já lá vão, numa cidade onde a terra e as acácias eram vermelhas!

Jorge C. Chora
23/7/18




sexta-feira, 20 de julho de 2018

A MULHER QUE REBUSNAVA


                                               
 Rebusnava e banhava de perdigotos os comensais: ora era o calor, ora era o aperto ou ainda a qualidade dos que tinham a infelicidade de a suportar. Queixava-se de tudo.

Produzia esgares à mesma velocidade com que estalava a língua e “tocava a burros”. De início, os que a rodeavam, fingiram não perceber, não ouvir e nada diziam.
Com a continuação do estranho concerto, o senhor que a acompanhava, o irmão, aconselhou-a:

-Se já almoçaste, aproveita e vai cumprimentar a família real…

-E onde é que ela está?

-Na tua barriguinha, querida mana… e não lambuzes a mão à princesa que é de mau tom.

Levantou-se, fez algo que ainda hoje se está para se saber se era uma vénia ou um trejeito e recuou até à mesa seguinte, onde quase derrubou a terrina da sopa.

-Oh! obstáculos no meio do salão….

E a criadagem da taberna apressara-se a trazer uma esfregona e um balde para que ela minimizasse os danos que eventualmente provocara.

Perdeu a oportunidade de cumprimentar a família real que saiu sem dar por ela, mas não se deu por achada: no dia seguinte, à mesma hora, entrou na refrega para apanhar um lugar nas longas mesas da tasca, onde a refeição completa era a seis euros.

Jorge C. Chora
   20/12/18



domingo, 8 de julho de 2018

A OFERTA



Fazia inveja ao mais pontual dos ingleses. À mesma hora, passava à porta da loja, com o seu cão e deixava que ele fizesse as suas necessidades, num pequeno montinho de ervas. Ia-se depois embora, sem limpar o local, como se nada fosse com ele.

Naquele dia, como sempre, quando se preparava para deixar o cão aliviar o intestino, a simpática dona da loja chamou-o:

-Se não se importa, entre…deixaram aqui um presente para o senhor…

-Para mim !? -surpreendeu-se o dono do cão- Quem deixou?

-Olhe, para lhe dizer a verdade, a senhora limitou-se a entregar-me a encomenda com a especial menção de lha entregar em mão…

O senhor recebeu a encomenda, um enorme embrulho, com um laço azul Desembaraçou-se do cordel que a envolvia e abriu-a. Um cheiro nauseabundo empestou o ar.

-O que vem a ser isto?-questionou com um ar enojado o dono do cão.

-São os presentes do seu cão. São só os desta semana! Não me diga que não gosta? São do seu cão…pode levá-los à confiança…

Agora, sempre que o homem finge esquecer-se de apanhar os cócós, há sempre quem o recorde:

-Olhe a prenda…

Jorge C. Chora
   8/7/18