quarta-feira, 22 de agosto de 2018

TELEPATIA



Ao meu amor
envio beijos,
ela recebe,
e logo reenvia,
por simples telepatia,
o dobro dos que
lhe dei, a contar
com os que lhe
darei.

Jorge C. Chora

22/8/2018

domingo, 19 de agosto de 2018

A AVÓ E O DOCE DE AMORAS SILVESTRES




Um calor avelhacado reinou no princípio de agosto e infernizou a vida de toda a gente.
Até a fruta se queimou. As amoras silvestres, indispensáveis para fazer o doce aos netos, foram atingidas em cheio. Calcorreou, seca e meca, para as colher, mas elas estavam mirradas. Picou as mãos e os braços e só colheu amoras enfezadas, que só a muito custo serviriam para alguma coisa.
Para os compensar pensou em comprar um frasco num supermercado, mas desistiu da ideia. Imaginou-os, de mãos juntas postas em oração, suplicando: do supermercado não vale! Esse não é da minha avó.
De coração apertado, voltou às silvas e lá conseguiu obter uma pequena quantidade para não desiludir os pequenos e adorados lambões.
E, como por milagre, a neurose do cão do meu vizinho, que ladra por ouvir ladrar e redobra por não ouvir, acalmou-se, talvez por se aperceber que a avó tinha levado avante o que queria.

Jorge C. Chora
17.08.2018

segunda-feira, 13 de agosto de 2018


                         A PROPÓSITO DE UM PRATO DE LOUÇA DE ALCOBAÇA

Num prato de louça de Alcobaça vi escrito o poema que se segue:

Quando eu morrer
Não quero choros nem gritos
Quero uma galinha assada
E um garrafão de cinco litros

Achei graça à brejeirice e resolvi escrever algo na mesma linha, embora de cariz um tudo nada diferente:

Quando eu morrer,
acabadinho de falecer,
dêem-me champanhe a beber
para que eu possa renascer.

Se zurrapa me quiserem dar,
deixem-me ficar,
morrer duas vezes é azar,
uma fatalidade a dobrar!

Jorge C. Chora
13/8/18


TÃO INVEROSSÍMIL QUANTO UM INSECTO DE BENGALA


              


Adoro cozido à portuguesa. No distrito de Lisboa são muitos os restaurantes que fazem este prato. Havia um que era exímio na sua confecção e que, para mim, se não era o melhor, estava entre os melhores.
Há anos que que não ia lá comer e neste agosto tive a oportunidade de o fazer. Antes não o tivesse feito. O arroz estava deslavado, a couve mal cozida, o feijão branco tal e qual tinha saído da lata e a carne estava salgada. Um horror!
Sinto-me traído e também de consciência pesada:  aconselhei durante anos algo que deixara de corresponder, não só aos padrões de excelência, como também aos mínimos de qualidade.
Desconheço desde quando a confecção deste prato, neste restaurante, decaiu até este ponto, mas acredito que quem é capaz de apresentar uma refeição assim, só pode ter perdido o brio.
Penitencio-me dos meus conselhos e faço mea culpa por tê-los dado. Em minha defesa, se é que ela é possível, só posso dizer que esta situação se me afigurava tão inverossímil quanto a possibilidade de ver um tubarão de boina ou um insecto de bengala.

Jorge C. Chora
   13/8/2018

terça-feira, 7 de agosto de 2018

O PSICHÉ DE D. CREMILDE


                                                 
Cremilde destinava a quarta-feira, como o dia em que decidira abrir as portas de sua casa às vizinhas.
Herdara da Srª D. Virgínia um psiché, coisa rara por aquelas bandas. Servira em casa desta senhora abastada e ela deixou-lho em testamento.
No dia em que ele chegou a sua casa, gerou-se um charivari à sua porta, que impediu a apreciação cabal e a satisfação da curiosidade da preciosidade, por parte da vizinhança.
Cremilde, de modo magnânimo, decretou a terceira quarta-feira de cada mês, para visitas ao psiché, em sua casa. Só dez pessoas de cada vez eram admitidas à visita mensal.
-Para que queres um espelho tão grande ?- questionavam as amigas.
Cremilde explicava que se sentava à sua frente e se arranjava, penteava e colocava o pó-de-arroz, tal como vira a Srª D. Virgínia fazer todos os dias durante anos.
-Mas há três espelhos!
-Claro e isso é a melhor coisa deste psiché…
-Como assim?
 E D. Cremilde afivelava um sorriso maroto e convidava:
-Sentem-se e vejam que no espelho da direita é possível ver a minha cama… O meu Joaquim, como sabem, é um republicano dos quatro costados. Depois do 5 de Outubro, enche-se de certas vontades e eu daqui observo-o, vejo o que se passa, e não deixo que elas lhe desapareçam…
E na vila, sempre que alguém enriquecia, as esposas pediam que lhes comprassem um psiché.

Jorge C. Chora
7/8/2018

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

ARREDA


Nos olhos de outro 
posso ver-me,
mas não
rever-me.
Ele vê-me como quer
que eu fosse,
um simples reflexo
daquilo que ele deseja,
mas não de alguém
que se
está nas tintas,
para aquilo que ele julga ver.

Jorge C. Chora
   2/8/18



sexta-feira, 27 de julho de 2018

A MINHA AVÓ ELEONORA



A minha avó Eleonora, de seu nome completo Eleonora D ’Abreu Ramos da Silva, viveu a maior parte da sua vida na Ilha de Moçambique. Era casada com um militar, o meu avô, e tiveram seis filhos, um dos quais, era a minha saudosa e falecida mãe Regina.

Ontem,26/7/18, faleceu a sua irmã mais velha, Branca Ramos da Silva Pereira e agora só me sobeja a minha tia Odete, a quem desejo mais saúde e força .

A minha avó Eleonora era um espanto. Ficou surda muito nova, após ter contraído uma constipação de alto lá com ela. Adorava conversar e tinha imensa pena de não conseguir ouvir. Lia os lábios dos interlocutores.

Na sua ânsia de escutar, nunca recusou testar aparelhos auditivos. Quando lhe perguntavam se já estava a ouvir com o novo aparelho que estava a testar, dizia logo que sim. Os médicos, alertados para as suas competências de leitura labial, colocavam-se nas suas costas e falavam-lhe. Era o mesmo que nada. Nunca conseguiu ouvir bem. Com muita pena sua, teve sempre de ler os lábios.

Ria com facilidade e o seu humor era contagiante e notável. Um dia, em Lourenço Marques, resolvemos, eu e o meu irmão, dizer-lhe que havia um cavalheiro de idade que rondava a casa e nós julgávamos que ele estivesse interessado em conhecê-la. Acrescentámos que o senhor era um militar e suspeitávamos que fosse um general…

- Oh! Um general? Coitadinho…ainda se fosse um tenente! - e ria-se a pensar no seu falecido marido, meu avô, um tenente coronel de antanho, que a encheu de filhos e morreu cedo.

Quando lhe nascia um bisneto(a) exclamava:

-Linda(o)! Também não tinha a quem sair feio!

Eleonora era muito meiga e beijoqueira. Adorava os netos e extasiava-se com os bisnetos, embora não os visitasse com a frequência desejada, pois mal conseguia andar. Morreu como viveu: com um sorriso nos lábios, enfrentando todas as adversidades.

Jorge C. Chora

27/7/18