quarta-feira, 15 de julho de 2020

Ó MULHER BENDITA


Sem uma palavra dita,
sentes e entendes,
mulher bendita,
o quão querida és,
aos olhos de quem te vê sempre bonita.
Ainda que bonita não sejas,
aos olhos de quem palavras não tem
para te dizer o quanto te quer,
serás sempre bendita.

Jorge C. Chora

 15/7/2020

domingo, 12 de julho de 2020

CHOCOLATE


Tu és chocolate,       
mas dele diferes,
por bem mais doce seres.
No calor do teu abraço
na ternura do teu ser,
dás-me algo de ti,
o afago de quem me conhece,
muito para além
do simples parecer
e do chocolate só diferes,
por bem mais doce seres.

Jorge C. Chora
12/7/2020

sexta-feira, 10 de julho de 2020

OS PRATOS INVISÍVEIS


Ao sair, olhou uma última vez, de relance, para as suas taças, na sala de troféus. Ainda havia lugar para mais algumas. Assinalou, visualmente, o sítio onde à tardinha colocaria a que ia ganhar no torneio desse dia. Não colocou sequer a hipótese de não trazer nenhuma.

Encontrou-se com os compinchas de longa data, companheiros de estúrdia e de competição.
Almoçaram, depois dos respectivos aperitivos e provas de vinhos alentejanos. Comeram bem e beberam melhor, seguindo-se as aguardentes de boas proveniências.

Chegado a hora do torneio, o nosso campeão, ordenou ao homem a cujo cargo estava o lançamento dos pratos:

-Prato!

O atirador ficou à espera que o prato fosse lançado. Esperou e nada. Tornou a ordenar com voz de trovão:

-Prato!

Nada aconteceu. O prato não surgiu e o campeão não atirou. Furioso, ordenou o lançamento mais duas vezes consecutivas:

-Prato!

Não se conteve e berrou:

-Ó homem! Então os pratos? Isso é para hoje ou para amanhã?

E o senhor dos pratos, a medo, gritou:

-Já lancei quatro! Porque não disparou?

E o campeão amador disparou:

-Porque não vi ainda nenhum!

E os compinchas, que em vez de um, já viam dois pratos, confortaram-no:

-Olha, ao menos poupaste uns cartuchos!

Jorge C. Chora
10/7/2020

terça-feira, 7 de julho de 2020

O CORNETEIRO DE QUARTEIRA


Há já muitas luas, tinha o hábito de passar as férias de verão em Quarteira. Vou fala-vos de um tempo onde as gozei no parque de campismo, após as ter tido também em casa de uns grandes amigos nossos, quer em Loulé quer em Quarteira.

O parque rebentava pelas costuras. Eram inúmeros os estrangeiros que o frequentavam, principalmente jovens adultos. O tempo não era de falsos pudores. No redondel ao ar livre, muitos casais tomavam banho como tinham vindo ao mundo e ninguém abria a boca de espanto, embora alguns dos exemplares fossem de truz. Na praia do campismo a moda de Adão e Eva estava em voga.

O convívio com os nacionais e estrangeiros estabelecia-se de um modo instintivo, natural. Pela tardinha, regressados da praia, tomados os banhos e enquanto se preparava a refeição, partilhava-se uma bebida com os vizinhos, muitas vezes casais estrangeiros.

À noite conversava-se ao ar livre, até certa hora, sem incomodar.

Havia também, naquela época, um corneteiro que tocava a alvorada, todas as manhãs, sem falta. Nunca o conheci. O que é certo é que as boas-vindas ao nascer de um novo dia eram dadas com vigor e alegria. Ninguém se queixava daquela forma de acolher o nascer- do -sol ou, levava a mal aquela forma particular de comemorar o despontar do dia.

No sítio onde montava o nosso atrelado tenda, residia um inglês, dono de um barco de pesca de alto mar. Partia todos os dias, com turistas e regressava com enormes peixes azuis que amanhava à machadada. Algumas vezes eram preparados em cima do capôt do velho e ruidoso Ford 17 M, que expelia mais fumo do que uma chaminé a carvão e que só pegava de empurrão. O velho inglês era um ouvinte compulsivo de ópera em altos berros e um apreciador notável de brandis, nomeadamente do “1920”. Recebíamos a sua visita quase todos os dias e só partia quando o combustível se esgotava. Não me recordo do seu nome mas era um patusco que se recusava a viver nas casa que tinha na cidade. Era ali, no parque que adorava viver, tal como muitos outros que lá estavam, por gosto e convívio, acordados pelo corneteiro, que eu nunca conheci.

Outros tempos. Era a década de oitenta, fins da de setenta.

Jorge C. Chora
   7/7/2020

domingo, 5 de julho de 2020

MEMÓRIAS DE HÁ 60 ANOS OU O TEMPO DAS GRANDES FORMIGAS


Já lá vai o tempo de juventude e das idas matinais à” minha” praia, na cidade da Beira, no Macúti -Estoril. Bastava-me saltar o muro da minha casa, atravessar o quintal do vizinho e entrar na praia.

Depois de lautos pequenos almoços obrigatórios, alguns dos quais  verdadeiros suplícios, nomeadamente os que incluíam, após o “porridge”, gigantescas toranjas e copos de sumo, ainda tínhamos o desplante e o vício das coisas doces. Passávamos, eu e o meu irmão, pela despensa e levávamos, cada um, uma lata de leite condensado. Ela era furada em dois sítios e pelos orifícios íamos bebendo o leite.

Hoje, só de me lembrar de tal facto, o enjoo toma conta de mim. Na época, com mais olhos do que barriga, ainda conseguia, com a gula, beber quase um terço do conteúdo daquele autêntico melaço! Acho que nunca consegui chegar à praia com a lata de leite. Num terreno lateral vago, arremessava-a, ainda quase cheia.

Naquele terreno para onde arremessava o leite, abundavam formigas e que grandes elas eram! Pudera! Alimentadas a leite condensado!

Belos tempos esses onde a até as formigas eram alimentadas a leite condensado! e chegávamos à praia enjoados que nem pescadas e isso passava num ápice, com os mergulhos e cabriolices a que nos entregávamos.

As férias grandes eram do tipo “Duracel” e quanto mais duravam, mas queríamos que durassem, à torreira do sol, tostando os miolos, bebendo leite condensado e apurando o ouvido para escutar a sineta do vendedor dos gelados “Esquimó”.

Jorge C. Chora
5/7/2020

quinta-feira, 2 de julho de 2020

FILHOS DE QUEM DEUS SABE


   
Quando vejo a minha mulher sorrir enquanto investiga, fico de atalaia. Não descanso enquanto não me conta o que descobriu. Para se livrar de mim e continuar a trabalhar, apressa-se a contar.
Desta vez a história diz respeito a uma forma eufemística de nomear pais incógnitos. Nos registos de baptismo de Beringel, Beja, do séc. XVII e XVIII, localidade onde existiam, por sinal, inúmeros escravos, havia uma forma curiosa de nomear os pais desconhecidos. Esse modo era extensivo aos registos de baptismo dos escravos ou não escravos e consistia em dizer por exemplo, o nome da mãe e em relação ao pai, em vez de se dizer incógnito, diziam: e filho de quem Deus sabe.
O mais curioso é que foi a primeira vez que durante as suas investigações, a minha mulher encontrou este modo específico de designar os progenitores incógnitos.
Em conclusão, quando se aborrecer seriamente com alguém, em substituição do feio palavrão que eventualmente ele ou ela mereçam, diga: filho ou filha de quem Deus sabe…

Jorge C. Chora
2/7/2020

quarta-feira, 1 de julho de 2020

ASSIM SEJA!


Há palavras que o vento leva,
mas outras,
transporta-as e entrega-as
com agrado e certeza.
Oxalá as de amor,
bem endossadas sejam
e se não percam;
e as outras,
as imprestáveis,
leve-as o demo,
nunca se entreguem
e para sempre se percam!

JORGE C. CHORA

    1/7/2020