domingo, 4 de setembro de 2022

OS BUDAS

Se havia algo que Anselmo detestava ver, era a estatueta do Buda, colocada na estante da sala.

Um dia resolveu tirá-la do sítio e escondê-la na despensa, dentro de uma lata.

Pela tarde, um dos netos, apareceu-lhe com o Buda na mão e perguntou-lhe:

-Este não é o Buda da estante? Estava numa lata …

E Anselmo, fazendo-se surpreendido, voltou a colocá-lo no local do costume.

Não desistiu de o ver dali para fora. Um dia lembrou-se de o dar a uma quermesse, em que se tiravam rifas e se ganhavam prémios.

Quis a família ir à feira e a esposa, decidiu comprar uma rifa, tal como fazia quando era miúda.

Qual o espanto de Anselmo, ao ver a sua mulher ganhar o Buda lá de casa.

A esposa mirou e remirou o Buda e concluiu que era a sua estátua. Olhou o marido de soslaio e percebeu a marosca. Ele detestava a imagem e desfizera-se dela!

Desde esse dia, Anselmo nunca mais tocou no Buda, mas ao passar por ele evita olhá-lo, não vá o diabo tecê-las e dar-lhe de novo sumiço, para o ver, milagrosamente, regressar a casa.

Para cúmulo do azar, as amigas e amigos da família, sabendo do afeto da sua esposa pelos Budas, sempre que se lembram, oferecem-lhe diferentes Budas: uns mais pequenos, outros magros e uma coleção de anafados.

Agora a estante está toda dedicada à exposição dos Budas e o Anselmo, ao referir-se ao facto chama-lhe de modo desanimado o “ Budário”.

 

Jorge C. Chora

4/9/2022

sábado, 27 de agosto de 2022

O BEBERRÃO

Para o beberrão,

não lhe faz confusão,

zurrapa ou vinho de estalo.

À falta de melhor, vinagre é tinto

e branco azedo, bebe sem estrilo.

        Jorge C. Chora

         27/08/2022

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

O VENTO ALCOVITEIRO


Ao ritmo de uma valsa,

trauteia o vento,

 a compasso, uma canção,

em dia de boa disposição.

Em movimentos suaves,

empurra João para os braços

de Inês, pois sabe-o incapaz

de semelhante ousadia.

Inês aproveita a ajuda

e não o deixa escapar:

aperta-o em seus braços

e deixa-se resvalar,

obrigando-o a segurá-la

para logo depois o beijar.

E o vento, alcoviteiro-mor,

deixa de soprar e só trauteia,

muito baixinho, o resto da valsa,

para não desconcentrar os amores

e o sucesso da sua amiga Inês.

        Jorge C. Chora

           25/08/2022

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

O VESGO

Era vesgo e não se importava,

mesmo quando um palerma

assim o chamava, e gostava

de julgar que o achincalhava.

Mal sabia o energúmeno,

interpretar o seu sorriso,

quando assim o chamava.

 Enquanto com um olho

o observava, com o outro

deliciava-se, pois a irmã

do patarata, compensando

a estultícia do seu mano,

deixava-o ver o seu tesouro

mais escondido, de modo sorrateiro,

sem que ninguém visse ou percebesse!

 

          Jorge C. Chora

          24/08/2022

terça-feira, 23 de agosto de 2022

O SERVIÇO DA BOLT OU O AZAR DE PAGAR SEM SER SERVIDO(INICIALMENTENTE SÓ COLOQUEI NO FACEBOOK)

Resolvi hoje, dia 19/08/22, cerca das onze horas e pouco da manhã, utilizar pela primeira vez, o serviço da Bolt.

Em má hora o fiz. Pedi uma viagem a iniciar-se na Av . Miguel Bombarda, na Amadora, para o Mercado de Benfica.

Forneceram-me a informação do carro, um Renault, o nome do motorista(Krishan) e fui seguindo o trajeto até à sua chegada.

Entrámos no carro e andados cerca de 30 metros, o motorista parou e informou-nos, num português ininteligível, que o percurso estava terminado.

Por mais que explicássemos que o pedido feito à Bolt, era para o Mercado de Benfica e não para uns metros na nossa própria rua, só obtínhamos como resposta, repetida por diversas vezes: finish…finish. Mostrei-lhe o meu telemóvel com o pedido e a resposta continuou a ser : finish. Apontou-me o preço de 3 euros registado no placard.

Não nos restou outra opção, senão sair do carro e deixar que o serviço venha a ser cobrado, no banco!!!

Na avaliação que a Bolt me pediu para fazer após o fim do serviço “prestado”, avaliei como horrível o serviço fantasma e nas notas explicativas, contei o sucedido. Ninguém me contactou para me dar um esclarecimento.

Fui à net e reclamei para um endereço indicado. A mensagem não podia ser enviada, embora tivesse sido comunicado o meu número de telemóvel, pois eles queriam nem mais nem menos, do que o meu e-mail e o código de entrada no mesmo!!!

Uma coisa é certa: só me resta aconselhar aos leitores nunca se servirem do serviço da Bolt, por não merecerem confiança! A própria Bolt diz que só é responsável por colocar os passageiros em contacto com os motoristas (intermediação), fazer marcações e por pagar os serviços de transporte após o motorista confirmar. O serviço prestado.

Como é possível legalizar serviços deste tipo em Portugal? Quem é responsável pela idoneidade do motorista? Pela sua incapacidade de falar português e entender os pedidos? A Bolt continuará a dar serviços a motoristas semelhantes a este? Vai averiguar quem foi e porque se comportou assim?

 

Jorge C. Chora

19/08/2022

AZARES


Tenho um pote com sais,

não de banho, mas medicinais,

para prevenir achaques,

por azar tive alguns baques

abri o frasco e só saíram ais.

Nem sais medicinais e só ais,

é pouca sorte, azar demais.

Fiquei com as maleitas,

e ainda acrescentei os ais aos sais

e o dobro dos achaques,

por verificar a ineficácia dos sais!

 

 

    Jorge C. Chora

     23/08/2022

sábado, 20 de agosto de 2022

AGOSTO

Cidades despovoadas,

praias a abarrotar,

cães e gatos abandonados,

aves a voar atarantadas,

das gaiolas libertadas,

circulam, todos, sem rumo

e sem comida,

pelas ruas desertas,

das capitais abandonadas,

contrastando com um Algarve superlotado.

Pouco ou nada está aberto,

só os parques, onde vagueiam,

gentes de cãs brancas,

caminhando inseguros

e tendo como companhia

os cães, gatos e aves esquecidas!

      Jorge C. Chora

        20/08/2022