quinta-feira, 27 de abril de 2023

O DESAMOR

 

Por falta d’amor morre o planeta

e um pouco de nós, todos os dias,

recusando o colete de salvação

a quem o quer salvar.

O desamor é arma de morte,

poderosa e impiedosa,

implícita nas guerras,

aliada à cobiça e a tudo

o que fede e mata,

ao horror e ao pavor

de ver banalizar a falta de amor,

a insensibilidade ao próximo,

às necessidades da humanidade.

O negócio é colocado num pedestal

em vez da vida e o amor a tudo

e a todos os que nos rodeiam.

O desamor até os beijos afeta,

pois mais não serão do que

simples réplicas dos de Judas,

traiçoeiros e a troco de trinta dinheiros!

JORGE C. CHORA

   21/4/2023

terça-feira, 25 de abril de 2023

A TÍLIA , A ROSA E O CANTEIRO DE CRAVOS VERMELHOS

 

A TÍLIA, A ROSA E O CANTEIRO DE CRAVOS VERMELHOS.

Viu a ternura refletida nos negros e grandes olhos daquela mulher,

que uma súbita rajada de ventos atirou para os seus braços, e teve a certeza de que os seus também revelavam o mesmo que os dela.

Ela emanava um cheiro a rosas. Eles já se conheciam do autocarro,

já tinham reparado um no outro, mas nunca tinham chegado à fala.

Miraram-se mutuamente, deixando-se estar abraçados, até que desataram a falar, até à chegada do transporte.

Nenhum deles saiu no destino pretendido e só deram por isso no fim da linha.

Regressaram a casa de mãos dadas. No dia seguinte mudaram-se para a casa das tílias, tendo ele descoberto, que ela nem perfume usava:

simplesmente cheirava a rosas e adorava o perfume das tílias do seu jardim.

Beto pendurou nas suas árvores, três espanta-ventos, a agradecer ao vento, tê-la atirado para os seus braços, ter dado conta da ternura que os ligava e tê-la agora em sua casa.

Num canteiro à parte, cultivaram cravos vermelhos, em louvor do amor e da liberdade de se terem um ao outro, em dias de sol ou de chuva, e poderem gritar a seu belo prazer, ao ritmo dos seus espanta-ventos.

Jorge C. Chora

25/4/2023

sexta-feira, 21 de abril de 2023

A PROVA DE VIDA OU UMA CRÍTICA AO SISTEMA

 

Entrou na dependência bancária com uma dificuldade evidente: estava apoiada em duas canadianas. De provecta idade, aguardou a sua vez de ser atendida.

Não durou muito tempo a ser recebida, pese embora a casa estivesse repleta, pois teve prioridade pela sua incontestável dificuldade na locomoção, agravada pela sua corpulência.

Após se ter conseguido sentar, disse ao que vinha: fazer a prova de vida.

Apresentou o seu documento de identificação e obteve a seguinte resposta:

- Minha senhora, o documento que prova que está viva é passado pela Junta de Freguesia e depois terá de o trazer ao banco. Peço imensa desculpa.

-Mas eu estou aqui, viva, a falar consigo, com a identificação nacional a provar que eu, sou eu!

-Pois é, mas…

Nada feito. A corpulenta e idosa senhora, iniciou os seus esforços para se levantar, mas tanta força fez que deu um sonoro e fedorento flato. A multidão presente no interior da dependência, sentindo-se gaseificada, abandonou à pressa o espaço.

A velha senhora, voltando-se para o balcão, disse alto e em bom som:

- Outra prova de vida inegável!

Claro que isto do flato não se passou, mas deveria ter acontecido.  Não cabe na cabeça de um tinhoso, ter de ser só a Junta de Freguesia a passar um documento a comprovar que a senhora que está ali, presente, em carne e osso, está viva! 

 Não duvido que haja algum outro motivo para ser a Junta a atestar o facto de a pessoa estar viva, mas do que não duvido também, é de que a prova de vida podia ser aceite podendo a própria pessoa estar presente.

Com o evoluir da situação, não me surpreenderia que a pessoa tenha de ir ao médico, para de seguida, com o papel passado, ir à Junta carimbá-lo e só após ser vista pelo médico da instituição, ser aceite como pessoa viva, depois de outro papel carimbado com o timbre da instituição, assinado pelo chefe e subchefe da agência, com a impressão digital da pessoa que tem de apresentar a prova de vida, em como está viva!

Não há qualquer dúvida que só a espera pela consulta no Centro de Saúde, para comprovar que essa pessoa estaria viva, livraria o país de uma multidão de idosos: pois quando fosse chamada, poderia ser outro o documento a passar: a certidão de óbito!

Cala-te boca, não vá a ideia pegar e qualquer dia acontecer-me a mim o que não desejo aos outros.

 

Jorge C. Chora

21/4/2023

quinta-feira, 20 de abril de 2023

MENA

 

Mena tinha 25 anos e Márcio 80 e eram os melhores amigos. Perdidos e achados, estavam numa conversa pegada.

Naquele dia, Márcio achou-a triste.

- O que tens Mena?

-Um dia mais do que ontem…

-Não desconverses, diz-me lá que tens…

E Mena desfiou o rosário: Já tenho 25 anos, sou demasiado magra e ninguém me quer como companhia!

Márcio deu uma gargalhada que quase fez tremer o paredão onde estava a pescar.

-Isso nem parece teu! Uma menina que é um espanto, uma verdadeira modelo, estudos que nunca mais acabam, com uma fortuna que não sendo imensa, é mais do que suficiente para viveres bem! Não digas isso a mais ninguém!

-Isso dizes tu, que és meu amigo e me conheces desde que nasci!

-Mas tu não vês que ninguém se aproxima muito, porque não se sentem à tua altura! Diz-me, sem rodeios, de quem é que nesta vila gostas o suficiente para namorar?

Mena sorriu. Mais uma vez o seu sábio tinha razão.

- O teu futuro namorado há -de aparecer: cá de dentro ou lá de fora. Acalma-te amiga.

Dois dias após esta conversa, Mena foi ter com Márcio ao paredão, de mão dada com um rapagão de dois metros de altura.

O homenzarrão, pegou no Márcio ao colo como se ele fosse uma pena, deu-lhe dois beijos e disse:

-Sempre à pesca meu pai! Apresento-te a minha namorada que me queria apresentar a ti!

Mena ficou sem fala. Duas grossas lágrimas rolaram-lhe pela face.

Márcio, beijou-a carinhosamente e disse-lhe:

-  Até que enfim te posso chamar  filha!

Voltando-se para o filho, advertiu-o com carinho:

- Ainda agora acabaste de chegar dos Estados Unidos e já fizeste a escolha mais acertada da tua vida.

 

Jorge C. Chora

20/4/2023

terça-feira, 18 de abril de 2023

AS BOAS-VINDAS À PRIMAVERA

 Saltam-lhe as tranças,

de tanto na rua pular,

rodando as suas saias,  

de flores pintalgadas,

das acácias amarelas,

pelo vento trazidas,

quando por elas passou.

À janela, a mãe morre de medo:

- Cuidado vem aí um carro

e depois uma bicicleta…

E a garota continua a bailar,

vestida de primavera,

rodeada de andorinhas

que à janela vão poisar,

protegida pelos anjos lá no céu,

desejosos de virem à terra,

as boas-vindas à primavera desejar!

 

Jorge C. Chora

18/4/2023

domingo, 16 de abril de 2023

O SABOR DO BEIJO

 

SEI QUE O DIA DO BEIJO FOI HÁ DIAS. DEIXEI-O PASSAR PORQUE UM BEIJO PODE E DEVE DURAR DIAS, ANOS E MESMO TODA A VIDA.

 

O SABOR DO BEIJO

 

Beijo desejado

e bem dado,

é algo partilhado,

muito prazeroso

e também saboroso.

É húmido e gostoso,

um desejo de fusão,

um preludio de algo

mais húmido e profundo

do que um simples beijo.

Jorge C. Chora

  

16/4/2023

sexta-feira, 14 de abril de 2023

NEGÓCIOS DE CANGALHEIROS

 

Havia uma localidade onde o padeiro conhecia todo o mundo. Ele distribuía o pão por todos os lares, e sabia de todas as novidades, incluindo quem morrera ou estava para entregar a alma ao Criador.

Amigo do dono da funerária, por conveniência de ambos, tornaram-se sócios.

Com o crescimento da terra, surgiu outra funerária, que acabou por saber da morte do Silva (Silva Lopes), por sinal, amigo do padeiro.

Acorreu o padeiro, ao saber deste infausto acontecimento e na mira de se antecipar aos rivais, a casa do falecido

Entrou sem bater à porta, percorreu os longos corredores da habitação em direção ao quarto do falecido, quando a meio do percurso sentiu uma mão a tocar-lhe no ombro. Virou-se rapidamente e deu com o “morto”.

Caiu fulminado.

O seu sócio, a quem as ligações de amizade forte o ligavam, acabou por ter uma síncope fatal ao saber da morte do seu sócio e melhor amigo.

Aos seus funerais, organizados pelos novos cangalheiros, compareceu também, com ar pesaroso, o outro Silva, chamado Silva e Sousa que se julgava ter morrido e que recuperara da enfermidade que o afligia.

 

Jorge C. Chora

14/4/2023