sábado, 2 de julho de 2011

Receber a reforma faz mal à saúde

O frenesim das sirenes escutava-se ao longe. Segundos depois, em plena avenida, os sons estridentes rasgaram a relativa pacatez da avenida. Potentes motas, conduzidas por experientes batedores, engoliam quilómetros, precedidas por oito viaturas topo de gama.

Às vinte e três horas em ponto, os portões do nº 13 abriram-se por breves momentos. Uma chiadeira de pneus e um cheiro a borracha queimada espalharam-se pelo ambiente. As viaturas foram como que engolidas e os portões fecharam-se, impedindo qualquer visão para o interior.

A reunião estava aprazada para daí a quinze minutos. Os dirigentes tomaram assento e procedeu-se à leitura do único ponto da ordem de trabalhos:

”Em tempo de crise, como poupar dinheiro com as reformas dos velhos e quejandos?”

A discussão iniciou-se. Havia um acordo prévio quanto à premência do problema. Tratava-se agora de definir a estratégia que levasse a uma redução drástica das mesmas.

Foram várias as ideias apresentadas, todas elas já ventiladas, como sejam as de só assegurarem uma parte pelo estado e a outra pelos negócios privados, a existência de limites…enfim o “dejá vue”.

-“Adelante …Adelante… “ – comandava o dirigente-mor, ansioso para que surgisse algo de novo, tentando apressar a discussão, revelando a impaciência herdada de uma longínqua bisavó castelhana.

-Se me permitem… - iniciou um jovem dirigente – fungando e aclarando a voz.

-Permitimos tudo. Desembuche e deixe-se de salamaleques. – cortou o bisneto da espanhola.

-Então digo… a estratégia é conseguirmos convencer o “povo” de que receber uma reforma faz mal à saúde das pessoas…

-Como assim?- questionaram interessados os presentes – convencermos a população de que a atitude correcta e mais saudável é não receber nenhuma reforma?

-Exactamente isso. Divulgarmos quantos morrem logo que se reformam… iniciarmos uma campanha…

Uma ovação impediu o orador de continuar. A estratégia,”grosso modo”, estava achada. A assembleia propôs que o autor da ideia fosse louvado e premiado com três reformas vitalícias que vigorassem de imediato: A primeira ser-lhe-ia atribuída pela originalidade da ideia; a segunda pela poupança que iria desencadear; a terceira pelo fomento de uma política social saudável.

Jorge C. Chora

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Olho Vivo

A velha viatura enlameada travou no meio da praça da aldeia provocando uma grande nuvem de poeira. Do seu interior saíram quatro homens que olharam em redor, com cara de poucos amigos. Um vinha engravatado e os outros trataram-no por senhor engenheiro.
O engenheiro desatou aos berros, exigindo rapidez e mostrando pressa:

-Despachem-se…não temos o dia todo…tirem o material e vamos começar as medições…

Um saco de lona verde foi aberto e do seu interior foram retirados fios-de-prumo, um grande tripé e uma enorme régua e outros objectos. Dois dos funcionários e o chefe seguiram na direcção dos campos. O outro trabalhador, transportando um garrafão vazio de vidro transparente, encaminhou-se para a taberna local.

Ao entrar no estabelecimento cumprimentou os presentes, pediu que lhe enchessem o garrafão com vinho tinto e sentou-se a uma mesa num canto da sala. Os aldeões acorreram ao local e em minutos lotaram-no.

-Afinal que trabalhos é que vêm cá fazer?- interrogou-o um dos idosos recém-chegados.

-Vamos construir uma estrada. Ela vai atravessar a aldeia… por ali mais ou menos … -e apontava vagamente para uma grande área, onde estavam terras cultivadas - mas quem ainda vai decidir é o engenheiro…

-Mas então… vão estragar-nos as nossas propriedades… - comentaram vários dos presentes.

-Bom… o sítio por onde passa nunca é definitivo… é sempre possível influenciar a decisão…não sei se percebem. Quem, como eu, se dá bem com o chefe…pode sempre mudar alguma coisa. Tudo depende de…não sei se estão a perceber…

Eles percebiam. Um a um foram-se chegando e avançando com o dinheiro que podiam. Ninguém queria ver as suas pequenas terras retalhadas.

Quando o bolso do jaquetão já estava bem gordo, o trabalhador despediu-se:

-Bom…vou andando…vou falar ao engenheiro…

Nesse preciso momento, o taberneiro aproximou-se e disse-lhe em voz baixa:

-Antes de sair chegue aqui ao cantinho do balcão…

Curioso, acedeu ao pedido do dono da casa. Estupefacto ouviu-o ordenar-lhe:

-Deixa aí metade dessa massa que recebeste…

-A que propósito? – reagiu, indignado.

E nesse preciso momento, a mulher do taberneiro gritou-lhe,furiosa, do outro topo do balcão:

-Ó Olho Vivo, deixa-te de conversas que há aqui clientes para aviar…

Ao ouvir este nome, estremeceu, pois estava perante o mestre de que o seu chefe,”o engenheiro”, não se cansava de falar…o criador do golpe que eles queriam dar.

Jorge C. Chora

quarta-feira, 8 de junho de 2011

As ordens são para se cumprirem!

O calor era tanto que derretia o alcatrão. Sentia, à medida que circulava, os pneus da sua viatura colarem-se à estrada. Não havia vivalma e rolava de modo descontraído pela longa recta à sua frente. Ligou o rádio e sorriu ao pensar que tinha começado as suas curtas férias. Juntara, cêntimo a cêntimo, o dinheiro para aqueles dias no Algarve. O desemprego não lhe deixava margem para mais e tinha de se contentar com o que tinha.

Ocupada com os seus pensamentos, viu umas centenas de metros à sua frente, uma autoridade a fazer-lhe sinal de paragem. Olhou pelo retrovisor a ver se havia alguém que viesse atrás de si. Nada viu. Tornou a olhar e certificou-se que a ordem era para si. Um auto-stop no meio do deserto? interrogou-se.

-Bom dia senhor agente…

-Bom dia minha senhora. Faça o favor de me mostrar os documentos da viatura e os seus por favor… – e enquanto falava, perfilava-se e fazia-lhe a continência.

Verificados os documentos, aberta a bagageira, mostrado o colete e o triângulo, inspeccionados os seguros e os certificados, a condutora, à torreira do sol, completamente encharcada em suor, suspirou e disse:

-Está tudo em ordem? Posso seguir a minha viagem?

-Só depois de pagar a multa…sabe que cometeu uma infracção grave!

-Multa? Infracção grave? De que é que está a falar senhor agente? - questionou-o, espantada, a condutora.

-Sabe a que velocidade vinha senhora condutora?

-Claro! A noventa, noventa e poucos…

-Confirmo. Vinha a noventa. Sabe que está numa localidade?

-Numa localidade? Só há uma casa…!

-Pois veja o sinal que ali está. – e apontou o malfadado sinal, que mal se via mas estava de facto lá.

Pagou trezentos euros de multa, inverteu a marcha e regressou a casa, sem férias e sem dinheiro. Uma raiva surda apoderou-se de si e desejou que todo o mal do mundo acontecesse ao homem. Nesse momento um pneu da sua viatura rebentou. Logo de seguida desabou uma chuva tropical.

No seu posto de vigília, molhado até ao tutano, o guarda resmungava:

-Num sítio onde não passa ninguém, ia lá perder a oportunidade de mostrar ao chefe que até no deserto cumpro a minha função!

E ia sacudindo as pernas a ver se conseguia livrar-se do verdadeiro oceano que lhe inundava as botas.

Jorge C. Chora

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Visitas incómodas

Aos primeiros sons de passos, espreitava pelo óculo da sua casa. Caso a visita fosse indesejável, nomeadamente o senhorio, estalava os dedos e dois dos seus filhos, entre os que estivessem mais próximos, corriam à procura dos penicos e instalavam-se junto à entrada.

Ainda não tinham tocado à porta e já eles gemiam que nem uns desalmados, como se estivessem no auge do esforço requerido ao acto. Seguiam-se sons de alívio directamente proporcionais ao esforço dispendido, sincronizados com a lenta abertura da porta. Ainda esta não abrira e já cá de fora se ouviam rogos de desculpas:

-Peço mil perdões…voltarei numa outra altura…

-Se não for incómodo… - respondia sorridente o inquilino.

Passaram-se algumas semanas e a cena continuou a repetir-se. Meses depois o inquilino precisou de falar com o proprietário, devido a uma verdadeira catadupa de avarias.

Quando subia as escadas da casa do proprietário, ouviu uma verdadeira correria no interior da mesma. Ainda não tocara à campainha, quando uma onda sonora, em tudo semelhante à que os seus filhos faziam, o envolveu.
Suspendeu o gesto de tocar e preparava-se para se ir embora, quando a porta se abriu.

-Faça o favor de entrar … -convidou-o o proprietário.

-O inquilino ia morrendo com o cheiro pavoroso. De olhos arregalados, em vez de dois penicos viu dez e, contrariamente aos seus, estes transbordavam…

-Peço-lhe mil desculpas…a casa de banho da minha casa precisa de reparações, mas estou à espera que me paguem as rendas em atraso … - desculpou-se o proprietário com ar inocente.

-Escusava era de levar tão longe o ensinamento… - balbuciou o inquilino,asfixiado, apertando o nariz.

Jorge C. Chora

segunda-feira, 16 de maio de 2011

A quem o diz!

Olhou, remirou e depois afastou-se um pouco da prateleira onde estava o que queria comprar. Tornou a aproximar-se, pegou no artigo, sopesou-o, avaliando-lhe a forma, a cor, deixando de lado o sabor e o cheiro em virtude do produto ser enfrascado.

Atrás do balcão, a vendedora reparou nos gestos meticulosos da cliente. Aproximou-se, cumprimentou-a e iniciou a conversa:

-Também é do ramo?

-Nota-se à légua não é!

-É verdade, só quem ama a nossa profissão. Hoje em dia as pessoas não amam o trabalho. Gostam só do dinheiro…

-Tem toda a razão. Dinheiro, pouco trabalho, muito descanso… - assentiu a colega cliente.

-O mundo está perdido! – exclamaram em uníssono.

Conversaram mais de meia hora. Encaixavam-se uma na outra na perfeição. Se fossem gémeas não seriam tão parecidas. Concluíram que os funcionários nos primeiros vinte anos de trabalho deveriam ser pagos ao nível do salário mínimo e só depois, pequenos aumentos…caso fossem merecidos. Caíram nos braços uma da outra:

-Cara amiga, considere-se contratada!- gritaram em êxtase uma à outra, sonhando ter nas sua lojas, pelo menos uma empregada como aquela que tinham acabado de conhecer.

-Cruzes canhoto! Livra! - desabafaram surpreendidas, quando finalmente descobriram o que ambas realmente queriam uma da outra.


Jorge C. Chora

domingo, 8 de maio de 2011

Com ele virado para a Lua

Assobiava com uma alegria contagiante. Era o dia em que faria um brilharete e mataria dois coelhos de uma só cajadada. No casaco, no bolso do lado direito, trazia o tesouro que espantaria os amigos e, principalmente, a namorada. Sempre a tinha conseguido surpreender, pelo menos até agora, por poucos ou nenhuns esforços que fizesse e mais trapalhices que levasse a cabo.

Ao chegar junto ao grupo de amigos, onde se encontrava aquela que ele mais desejava agradar, juntou as mãos e, tal qual um mago, fez aparecer dois pedaços de papel que desdobrou fazendo render o peixe e prendendo a atenção do grupo:

-Quem adivinha o que trago aqui?

-Talvez mais um pouco de sorte… - arriscaram dois dos presentes, com um mau humor evidente.

Para evitar que algo de desagradável sucedesse, e as invejas despertassem , resolveu apressar a novidade:

-Tenho reservas de hotel para este fim-de-semana…

-E então onde está a novidade? - surpreenderam-se os presentes, incluindo a noiva.

-Está no preço e na qualidade do hotel… disse – mostrando as reservas e sublinhando o preço, muito baixo.

-Só quatro euros por pessoa? Hum…aí há gato… - comentaram.

Com ou sem gato, a viagem realizou-se. Chegaram ao luxuoso hotel após quatro horas de uma atribulada jornada. Ao transporem a porta de entrada, foram envolvidos num ambiente fresco e perfumado.

Dirigiram-se à recepção e apresentaram a documentação. Os funcionários olharam-nos com um misto de surpresa e curiosidade. Repararam que os recepcionistas observavam o espaço em seu redor como se eles se tivessem esquecido de ter trazido algo.
Aborrecidos com a insistência dos olhares, perguntaram-lhes o que se passava.

-É que estamos à procura dos cães…

-Dos cães? Quais cães? – surpreendeu-se o casal.

-As reservas que têm são uma promoção para animais de companhia. Estamos a inaugurar esse serviço!

-Mau… fazes tudo no ar…alguma vez tinhas de te sair mal… - balbuciou a noiva, repreendendo-o e mal querendo acreditar no que se estava a passar.

-Não foi por mal…foi com a melhor das intenções – tentou defender-se o jovem a quem a sorte abandonara.

A jovem directora, ao ver a atrapalhação do casal sorriu-lhes, piscou-lhes o olho disse-lhes:

-Mas não há problema, porque oferecemos, excepcionalmente, a estadia ao primeiro casal que passasse o fim-de-semana connosco e comprasse o novo serviço!

-Bem diz a minha mãezinha que nasci com ele virado para a lua! - concluiu o noivo aliviado.

Jorge C.Chora

domingo, 1 de maio de 2011

A revolta da catatua

A barriga tremia-lhe com os ataques de riso, empurrando a mesa e fazendo rodopiar e dançar os copos. Expelia baforadas de fumo fedorento no intervalo das risadas. O cão e a catatua, bem ao seu lado, fungavam, tentando esquivar-se às nuvens asfixiantes que lhes acertavam em cheio. O cão, zonzo, cambaleava e ficava em tal estado que mais parecia miar do que latir. A catatua, essa, tão desgraçada ficava, que emitia sons não identificados que pouco a pouco se tornavam audíveis:

-turr...truu...turr...

O dono, morto de riso, dizia aos urros:

-Ela julga que é uma rola! - e dava murros na mesa, fazendo os copos saltar como se fossem formigas.

-E se tu continuares a fumar essa cangalhada e a beberes essa zurrapa, ainda te transformas em qualquer coisa estranha… - advertiram os amigos.

-Deixem-no beber e fumar porque assim paga impostos até se fartar…quanto mais pagar melhor para nós…deixa-nos mais aliviados – concluiu um dos presentes.

- Glu,glu ….glu … A bebida sou eu que a faço no fundo do quintal…o tabaco é da candonga…. ! – desdenhou trocista.

Os amigos ao ouvirem-no rir ficaram estarrecidos. Aquele som gutural era parecido com… não sabiam bem… um bicharoco qualquer…

Um bando de gaiatos que saía da loja de doces mesmo ao lado, chamando-se uns aos outros pelas alcunhas, gritou bem junto ao portão:

-Olha Peru Velho…

Mal o grito foi proferido, o dono da catatua levanta-se instintivamente, corre para o portão, flecte as pernas e responde ao chamado:

-Glu…glu…glu…

Nesse momento o cão voltou a ladrar e a catatua começou a berrar sem cessar:

-Peru velho…peru velho…

O dono, obediente, apoiando-se ora numa perna ora na outra, ia saltitando e reagindo de pronto:

-Glu…glu…glu

Há quem jure que ouviu o cão rir-se.

Jorge C. Chora