O facto do anafado e beberrão Sileno, se ter perdido da comitiva do seu amigo Baco, o deus Baco, é de todos conhecido. O que se seguiu também é do domínio público: o rei Midas encontrou o borrachão, tratou-o às mil maravilhas e entregou-o são e salvo ao deus do vinho. Felicíssimo pelo seu amigo ter sido encontrado, Baco concedeu a Midas a concretização de um desejo: transformar em ouro tudo em que o rei tocasse. Até aqui não há novidade nenhuma.
Quando Baco concedeu ao rei Midas a concretização do seu desejo, a de transformar em ouro tudo em que tocasse, mal sonhava que um dos servos do rei estava a espreitá-los. O servo viu Baco ir à caixa do pó mágico e lançá-lo sobre Midas.
“Tudo Quer” era o nome deste servo que ficou possesso ao ver o rei tocar numa maçã e esta transformar-se em ouro. A cobiça cegou-o.
Um frenesim demoníaco tomou conta dele. Esgueirou-se porta fora e correu para o local onde estava a caixa com o pó que vira ser lançado sobre Midas. Nervoso, sôfrego, incapaz de controlar o desejo, mergulhou a mão na caixa trazendo uma enorme quantidade de pó mágico, que se apressou a atirar sobre si próprio. Sentiu o peito rebentar-lhe de felicidade. Já podia ter tudo o que quisesse. Veloz, dirigiu-se ao celeiro do palácio, lançou-se sobre um fardo de palha e abraçou-o de imediato. Qual não foi o seu espanto quando, em vez do fardo se transformar em ouro se tornou num enorme monte de esterco. Levantou-se mais rápido do que um relâmpago e atirou-se para outro fardo: apareceu um segundo monte de esterco!
Com a cabeça perdida, correu para uma sela pendurada na parede. A sela, depois de tocada, transformou-se no terceiro monte de esterco. Recusou-se a acreditar no que lhe estava a acontecer. No dia seguinte, foi com satisfação que verificou que podia tocar novamente em tudo, que nada, mesmo nada acontecia. Quando se convenceu que o sortilégio tinha deixado de existir teve a muito desagradável surpresa de verificar que no dia seguinte voltara ao mesmo: Tudo em que tocava se transformava em esterco.
Como iria reagir o seu rei ao vê-lo transformar em porcaria tudo aquilo em que tocasse?”Tudo Quer” arrependeu-se mil vezes do acto que cometera. Fugiu e só parou ao pé de um porto onde estavam ancorados alguns barcos. Pela calada da noite logrou embarcar sem que ninguém o visse. O navio partiu no dia seguinte e navegou vários dias.
Acabou por desembarcar num porto desconhecido, na cidade de Olissipo. Por lá se casou e teve numerosa prole. O único senão é que os seus descendentes herdaram o seu problema: dia sim dia não, tudo em que tocavam se transformava em mer..
Foram tão numerosos os descendentes que povoaram boa parte do território europeu e alguns partiram com Colombo para as Américas.
Muitos deles acabaram por se dedicar à política, à banca e aos negócios imobiliários…
Livra!
Jorge C. Chora
sábado, 7 de janeiro de 2012
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
O Flamejante
Chegou ao lugarejo envolto numa auréola de mistério. Ninguém fazia ideia de quem era o fulano, o que fazia, ou porque escolhera aquela terra para viver. Sentiam, no entanto, de modo vago, que havia qualquer coisa de familiar nele…
Alguns dos habitantes apressaram-se a construir-lhe uma fama de dotado, habilidoso, capaz de prodígios que eles próprios atestaram como tendo presenciado. Forjaram com o estranho uma partilha de intimidade, uma comunhão de interesses imaginária:
-Se vocês imaginassem quem ele é… claro que não sabem… - dizia um dos amigos, ficcionando uma proximidade, procurando elevar-se aos olhos dos conterrâneos.
-Claro que eles estão impossibilitados …nem sequer são seus amigos… - concluía outro dos aldeões.
Em tempo recorde, ninguém ficou excluído de pertencer ao círculo de íntimos de amigos do recém-chegado.
-Afinal como se chama o homem? - perguntou alguém.
-O que é que isso interessa? – repreenderam-no os restantes.
O tempo foi passando e os locais foram dando e reforçando as provas de apreço, ao que o estranho respondia com um breve franzir da testa. Desconhecendo o significado de tal comportamento, empenhavam-se ainda mais procurando satisfazê-lo em tudo o que estivesse ao alcance.
Ao fim de quinze dias, o forasteiro ofereceu os seus préstimos para atear a fogueira que daria início à festa da aldeia. À hora marcada, a população compareceu frente à câmara municipal e o amigo de todos também. Olhou em redor, esboçou um sorriso e pediu que segurassem uma pequena tocha, à distância de dois passos da pira de lenha. Avançou cerca de cinco metros e parou. Ficou imóvel durante um tempo, com as mãos colocadas em posição de oração.
Um silêncio pesado abateu-se sobre os presentes. O homem continuava hirto e concentrado. Quando a multidão menos esperava, levanta a perna esquerda, espera uns segundos que a flatulência faça efeito e…eis senão quando, bombardeia a tocha que lança o fogo ao madeiro. A chama era tão intensa que se propagou ao edifício camarário e ao casario em seu redor. Nada sobrou da aldeia. Foi aí que alguns dos presentes se lembraram de que num sítio próximo, um homem que ficou conhecido como o “Flamejante”, tinha feito a mesmíssima coisa.
Pior do que as chamas e as ruínas, só o fedor pavoroso, por incrível que pareça, ficou a pairar na localidade desde essa época.
O “Flamejante” continua a andar por aí.Por precaução, vá apertando o nariz…
Jorge C. Chora
Alguns dos habitantes apressaram-se a construir-lhe uma fama de dotado, habilidoso, capaz de prodígios que eles próprios atestaram como tendo presenciado. Forjaram com o estranho uma partilha de intimidade, uma comunhão de interesses imaginária:
-Se vocês imaginassem quem ele é… claro que não sabem… - dizia um dos amigos, ficcionando uma proximidade, procurando elevar-se aos olhos dos conterrâneos.
-Claro que eles estão impossibilitados …nem sequer são seus amigos… - concluía outro dos aldeões.
Em tempo recorde, ninguém ficou excluído de pertencer ao círculo de íntimos de amigos do recém-chegado.
-Afinal como se chama o homem? - perguntou alguém.
-O que é que isso interessa? – repreenderam-no os restantes.
O tempo foi passando e os locais foram dando e reforçando as provas de apreço, ao que o estranho respondia com um breve franzir da testa. Desconhecendo o significado de tal comportamento, empenhavam-se ainda mais procurando satisfazê-lo em tudo o que estivesse ao alcance.
Ao fim de quinze dias, o forasteiro ofereceu os seus préstimos para atear a fogueira que daria início à festa da aldeia. À hora marcada, a população compareceu frente à câmara municipal e o amigo de todos também. Olhou em redor, esboçou um sorriso e pediu que segurassem uma pequena tocha, à distância de dois passos da pira de lenha. Avançou cerca de cinco metros e parou. Ficou imóvel durante um tempo, com as mãos colocadas em posição de oração.
Um silêncio pesado abateu-se sobre os presentes. O homem continuava hirto e concentrado. Quando a multidão menos esperava, levanta a perna esquerda, espera uns segundos que a flatulência faça efeito e…eis senão quando, bombardeia a tocha que lança o fogo ao madeiro. A chama era tão intensa que se propagou ao edifício camarário e ao casario em seu redor. Nada sobrou da aldeia. Foi aí que alguns dos presentes se lembraram de que num sítio próximo, um homem que ficou conhecido como o “Flamejante”, tinha feito a mesmíssima coisa.
Pior do que as chamas e as ruínas, só o fedor pavoroso, por incrível que pareça, ficou a pairar na localidade desde essa época.
O “Flamejante” continua a andar por aí.Por precaução, vá apertando o nariz…
Jorge C. Chora
sábado, 10 de dezembro de 2011
A dor de dentes
Dormira mal. As olheiras bordavam-lhe os olhos, as pernas pesavam-lhe e pareciam pedir licença uma à outra antes de darem cada passo. As palavras encadeavam-se com esforço e o pensamento estava emperrado. Estava um bagaço.
Parou junto à vendedora de flores. Deu uma vista de olhos às plantas e fixou o olhar num pequeno vaso com piripiri. Absorto, deixou-se estar, olhando fixamente o dito vaso. Um bom bocado depois, a idosa vendedora decidiu intervir:
-Ora aí tem um remédio que talvez resolva o seu problema.
-Remédio… mas…
-Nem mas nem meio mas. Neste momento só aqui estamos os dois, ninguém ouve, tenho vagar…
-Muito obrigado…
-É assim... colhe dois ou três destes gindungos, lava-os, corta-lhes o pé, coloca-os num pão com uma bifana e truca…para a frente é que é o caminho.Vai ver que ganha uma alma nova…
Entretanto chegara a mulher do “paciente”, ainda a tempo de ouvir o final da “receita”. Sorriu e agradeceu o cuidado com o seu amado:
-Obrigado pela sua ajuda minha senhora…mas ele tem é dores de dentes, fortíssimas…
-Ah! Também serve minha jovem…essa também é a desculpa do meu homem …
E no dia seguinte, quando o casal passou pela vendedora, uma piscadela de olho por parte da jovem e sorridente senhora, foi o maior agradecimento que a sabida vendedora podia ter tido.
Jorge C. Chora
Parou junto à vendedora de flores. Deu uma vista de olhos às plantas e fixou o olhar num pequeno vaso com piripiri. Absorto, deixou-se estar, olhando fixamente o dito vaso. Um bom bocado depois, a idosa vendedora decidiu intervir:
-Ora aí tem um remédio que talvez resolva o seu problema.
-Remédio… mas…
-Nem mas nem meio mas. Neste momento só aqui estamos os dois, ninguém ouve, tenho vagar…
-Muito obrigado…
-É assim... colhe dois ou três destes gindungos, lava-os, corta-lhes o pé, coloca-os num pão com uma bifana e truca…para a frente é que é o caminho.Vai ver que ganha uma alma nova…
Entretanto chegara a mulher do “paciente”, ainda a tempo de ouvir o final da “receita”. Sorriu e agradeceu o cuidado com o seu amado:
-Obrigado pela sua ajuda minha senhora…mas ele tem é dores de dentes, fortíssimas…
-Ah! Também serve minha jovem…essa também é a desculpa do meu homem …
E no dia seguinte, quando o casal passou pela vendedora, uma piscadela de olho por parte da jovem e sorridente senhora, foi o maior agradecimento que a sabida vendedora podia ter tido.
Jorge C. Chora
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
Viver com o rei na barriga
Sentado à porta de casa, sacode a farta cabeleira suja e afasta as inúmeras moscas que esvoaçam em seu redor. Sorri a quem passa, mesmo aos que fingem não o ver.
-Estás à espera de quê? – interroga-o o vizinho com maus modos e sobranceria sobeja.
-De que me venham buscar o carro…
-Já perdeste a casa, agora é o carro … a seguir será…
-Aquilo que eles quiserem. Sem emprego e sem dinheiro estou sujeito…
-Pois é…quem te mandou a ti sonhar…ter casa, ter carro …onde é que já se viu? eu era o teu chefe e sempre vivi em casa alugada. Fartei-me de poupar. Até o carro era o do meu sogro… - e inchava o peito, sentenciando, de modo retorcido - vaidades que agora pagas caro!
E o da farta cabeleira suja, olhava António, que fora seu colega, bufo a tempo inteiro, chefe que lhe ia reduzindo o salário e que o despedira a mando dos verdadeiros chefes.
Ainda António não tivera tempo de se afastar dois passos, quando o carteiro o viu:
-Sr. António, tem aqui uma carta registada para si.
Abriu-a, leu-a e empalideceu.
As moscas largaram o homem da farta cabeleira e passaram a circundar o novo desempregado. O primeiro, chegou-se para o lado e criou um novo espaço.
Quem passar pelo local, vê agora dois homens que sacodem, à vez, as fartas cabeleiras sujas e que respondem, quando lhes perguntam o que estão ali a fazer:
-A ganhar calo de tanto ouvir que fomos os responsáveis pela crise!
E os que ainda não receberam a carta, seguem ufanos o seu caminho, respirando fundo e comentando com desdém:
-Pois é…viveram com o rei na barriga e agora…
Jorge C. Chora
-Estás à espera de quê? – interroga-o o vizinho com maus modos e sobranceria sobeja.
-De que me venham buscar o carro…
-Já perdeste a casa, agora é o carro … a seguir será…
-Aquilo que eles quiserem. Sem emprego e sem dinheiro estou sujeito…
-Pois é…quem te mandou a ti sonhar…ter casa, ter carro …onde é que já se viu? eu era o teu chefe e sempre vivi em casa alugada. Fartei-me de poupar. Até o carro era o do meu sogro… - e inchava o peito, sentenciando, de modo retorcido - vaidades que agora pagas caro!
E o da farta cabeleira suja, olhava António, que fora seu colega, bufo a tempo inteiro, chefe que lhe ia reduzindo o salário e que o despedira a mando dos verdadeiros chefes.
Ainda António não tivera tempo de se afastar dois passos, quando o carteiro o viu:
-Sr. António, tem aqui uma carta registada para si.
Abriu-a, leu-a e empalideceu.
As moscas largaram o homem da farta cabeleira e passaram a circundar o novo desempregado. O primeiro, chegou-se para o lado e criou um novo espaço.
Quem passar pelo local, vê agora dois homens que sacodem, à vez, as fartas cabeleiras sujas e que respondem, quando lhes perguntam o que estão ali a fazer:
-A ganhar calo de tanto ouvir que fomos os responsáveis pela crise!
E os que ainda não receberam a carta, seguem ufanos o seu caminho, respirando fundo e comentando com desdém:
-Pois é…viveram com o rei na barriga e agora…
Jorge C. Chora
sábado, 12 de novembro de 2011
Alberto e os chapéus-de-chuva
A relação de Alberto com os chapéus-de-chuva é extraordinária. Não acreditam? Pois tenham um pouco de paciência e leiam o que vos vou contar e tirem, depois, as vossas conclusões.
É raro o dia em que ele regressa a casa com o seu chapéu. Também acontece ao leitor? Ah! Leva um velho mas ao voltar, traz um novo! Bom para si, embora mau para os outros. Isso não acontece com a nossa personagem. Ele leva um novo e fica sem ele. Como assim? Umas vezes empresta-o mas a maior parte das vezes, pura e simplesmente, quando chega ao sítio onde o deixou, alguém o levou. Mas o que aconteceu ontem deixou-o meio aturdido e descrente na humanidade. Chovia a potes e o seu chefe teve de ir para casa mais cedo:
-Ó Alberto empresta-me o seu guarda-chuva?
-Claro!
- Amanhã devolvo-o. Esteja descansado.
Hoje, antes de entrarem ao serviço, foram ambos tomar café. Alberto teve de sair antes, numa altura em que chovia com intensidade. Pediu o chapéu ao chefe e este, olhando-o bem nos olhos, disse:
-Olhe que este é de estimação. Quero-o de volta… nada de esquecimentos…
Achou o nosso homem que o chefe brincava. À hora da saída, o chefe não esteve com meias medidas:
-Ó Alberto…nada de esquecimentos…onde está o meu chapéu? – e logo de seguida abalou, trauteando uma canção, bem abrigado da chuva.
Alberto, não teve outro remédio senão dar uma corrida à loja do chinês, que ficava no quarteirão ao lado. Só havia um, por sinal bem mais caro do que o habitual, por ser único e estarem esgotados. Sem alternativa, todo a pingar, comprou-o. Ao chegar à porta, tirou o celofane que o envolvia. Ainda teve tempo de ver o dono da loja, com um molho de guarda-chuvas debaixo do braço a repor a mercadoria. “Esgotados uma ova!”exclamou para si próprio.
Cabisbaixo, abriu o guarda-chuva e afastou-se. Não caiu nem mais um pingo. Apanhou o metro e descansou um pouco. Sentiu alguém a puxar o guarda-chuva, abriu os olhos e deu de caras com o seu chefe:
-Ouve lá… ó Alberto…por acaso … não fui eu que to emprestei…
E quando Alberto saiu do metro já vinha de mãos a abanar.
Digam lá meus amigos que a relação que ele tem com esse objecto não é muito especial? E o apego que alguns têm ao que é nosso… não vos faz lembrar qualquer coisa?
Jorge C. Chora
É raro o dia em que ele regressa a casa com o seu chapéu. Também acontece ao leitor? Ah! Leva um velho mas ao voltar, traz um novo! Bom para si, embora mau para os outros. Isso não acontece com a nossa personagem. Ele leva um novo e fica sem ele. Como assim? Umas vezes empresta-o mas a maior parte das vezes, pura e simplesmente, quando chega ao sítio onde o deixou, alguém o levou. Mas o que aconteceu ontem deixou-o meio aturdido e descrente na humanidade. Chovia a potes e o seu chefe teve de ir para casa mais cedo:
-Ó Alberto empresta-me o seu guarda-chuva?
-Claro!
- Amanhã devolvo-o. Esteja descansado.
Hoje, antes de entrarem ao serviço, foram ambos tomar café. Alberto teve de sair antes, numa altura em que chovia com intensidade. Pediu o chapéu ao chefe e este, olhando-o bem nos olhos, disse:
-Olhe que este é de estimação. Quero-o de volta… nada de esquecimentos…
Achou o nosso homem que o chefe brincava. À hora da saída, o chefe não esteve com meias medidas:
-Ó Alberto…nada de esquecimentos…onde está o meu chapéu? – e logo de seguida abalou, trauteando uma canção, bem abrigado da chuva.
Alberto, não teve outro remédio senão dar uma corrida à loja do chinês, que ficava no quarteirão ao lado. Só havia um, por sinal bem mais caro do que o habitual, por ser único e estarem esgotados. Sem alternativa, todo a pingar, comprou-o. Ao chegar à porta, tirou o celofane que o envolvia. Ainda teve tempo de ver o dono da loja, com um molho de guarda-chuvas debaixo do braço a repor a mercadoria. “Esgotados uma ova!”exclamou para si próprio.
Cabisbaixo, abriu o guarda-chuva e afastou-se. Não caiu nem mais um pingo. Apanhou o metro e descansou um pouco. Sentiu alguém a puxar o guarda-chuva, abriu os olhos e deu de caras com o seu chefe:
-Ouve lá… ó Alberto…por acaso … não fui eu que to emprestei…
E quando Alberto saiu do metro já vinha de mãos a abanar.
Digam lá meus amigos que a relação que ele tem com esse objecto não é muito especial? E o apego que alguns têm ao que é nosso… não vos faz lembrar qualquer coisa?
Jorge C. Chora
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
A vocação de Abraão
As bocas semi-abertas de espanto não podiam ser mais expressivas. A ninguém, mas a mesmo ninguém, passaria pela cabeça ver algum dia o sorriso aberto, feliz, luminoso e até contagiante do Abraão. Há anos que não sorria. Não tinha motivos para o fazer e anunciava aos quatro ventos essa desilusão. Estava em crise por não saber o que a vida lhe destinava.
-Abraão! Conta-nos o que se está a passar contigo! Qual é a novidade que te faz sorrir?
-Estou muito contente…julgo ter descoberto o que a vida me destina…o sentido profundo da minha existência…
-Conta-nos…partilha connosco, pobres mortais arredados há muito de motivos de satisfação… - imploraram os amigos.
-A causa é banal, está ao alcance de todos…é mesmo ridícula e inconfessável… - escusava-se Abraão.
-Vá, conta-nos, não nos faças a maldade de te calares…
-Sou capaz de ter descoberto a minha vocação. Andava sem rumo, ao Deus dará, e de repente…zás…fez-se luz …
E de novo as bocas dos ouvintes se abriram de espanto. A ansiedade começou a apoderar-se do grupo. Qual o segredo de Abraão?
Após uma semana inteira de insistência, conseguiram levantar uma pontinha do véu: Abraão tinha-se dedicado a praticar o bem. E mais não se disse.
Foi por mero acaso que se veio a saber que Abraão oferecera os seus préstimos a uma casa de diversão nocturna, onde ajudava as artistas a despirem-se, antes de entrarem em cena.
-Mas isso é que é o teu trabalho caritativo?
-Só vos contaram metade. Também as ajudo a vestirem-se…ah! E trabalho à borla!
Desde esse dia, acrescentaram-lhe um “ c” antes do nome e não há amigo que não queira ajudá-lo na sua missão caritativa.
Jorge C. Chora
-Abraão! Conta-nos o que se está a passar contigo! Qual é a novidade que te faz sorrir?
-Estou muito contente…julgo ter descoberto o que a vida me destina…o sentido profundo da minha existência…
-Conta-nos…partilha connosco, pobres mortais arredados há muito de motivos de satisfação… - imploraram os amigos.
-A causa é banal, está ao alcance de todos…é mesmo ridícula e inconfessável… - escusava-se Abraão.
-Vá, conta-nos, não nos faças a maldade de te calares…
-Sou capaz de ter descoberto a minha vocação. Andava sem rumo, ao Deus dará, e de repente…zás…fez-se luz …
E de novo as bocas dos ouvintes se abriram de espanto. A ansiedade começou a apoderar-se do grupo. Qual o segredo de Abraão?
Após uma semana inteira de insistência, conseguiram levantar uma pontinha do véu: Abraão tinha-se dedicado a praticar o bem. E mais não se disse.
Foi por mero acaso que se veio a saber que Abraão oferecera os seus préstimos a uma casa de diversão nocturna, onde ajudava as artistas a despirem-se, antes de entrarem em cena.
-Mas isso é que é o teu trabalho caritativo?
-Só vos contaram metade. Também as ajudo a vestirem-se…ah! E trabalho à borla!
Desde esse dia, acrescentaram-lhe um “ c” antes do nome e não há amigo que não queira ajudá-lo na sua missão caritativa.
Jorge C. Chora
sábado, 5 de novembro de 2011
D.Galo
Sacudiu a crista e enfureceu-se com o descaramento e a falsidade dos colegas galináceos. Começaram por lhe dizer que era velho e não tinha as mesmas necessidades do que os outros. Deu-lhes uma bicada, cacarejou forte e feio. Foi pior a emenda do que o soneto. Uniram-se todos, reduziram-lhe a ração e acabaram por expulsá-lo. O tempo era de crise, não havia para todos, tivesse paciência.
-O que vou fazer agora? – perguntou.
-Tivesses pensado nisso antes! Já viveste o suficiente. Há que dar lugar aos outros! – gritaram-lhe os que ficaram no galinheiro, incluindo alguns bem mais velhos do que ele, que lhe deviam avultados favores, sendo os que mais incitavam a turba ululante.
Cacarejou em vão o brioso e velho galo:
-Se vocês estão assim, fortes e decididos, também a mim o devem!
E não teve outra solução senão a de se afastar e definhar à vista de todos, sem o auxílio de ninguém.
-Chega-te para lá. Dá lugar aos novos. Para que nós vivamos melhor, precisamos que desapareças.
-Morre depressa velho estupor. Só o simples facto de te vermos já nos faz mal ao espírito!
Desterraram-no para um sítio longínquo, fora da vista de todos. Dia sim, dia não, era destacado um dos mais novos para o cumprimento de uma missão: verificar se o velho ainda vivia.
À mesma hora, ecoava pelos montes a mesma notícia:
-Ainda vive!
- Oh! Não é possível… - resmungavam os jovens galos.
O tempo foi passando e os chefes do galinheiro foram reduzindo os grãos atribuídos à população, pese embora as reclamações veementes dos habitantes.
As expulsões foram-se sucedendo a um ritmo alucinante e as mortes dos galos mais novos foram acontecendo em catadupa.
Esqueceram-se do velho galo até que um dia, alguém se lembrou dele e mandou averiguar o que se passava.
-Ainda vive!
-Oh! Não é possível! – admiraram-se os sobreviventes.
-Qual será o segredo? – questionaram-se, cheios de curiosidade.
Decidiram enviar uma representação, com o objectivo de obter, a bem ou a mal, a solução para os seus problemas. Primeiro que escolhessem quem faria parte da embaixada, sucederam-se as discussões, os melindres e as rejeições. As escolhas foram feitas e refeitas inúmeras vezes.
Constituída finalmente a comitiva, quando lá chegaram, depararam-se com um velho, gordo e formoso galo, imóvel, deitado numa fofa cama.
Em silêncio aguardaram que o galo lhes dirigisse a palavra. Após longas horas de respeitosa espera, aproximaram-se, pé ante pé, chamaram-no e tornaram a chamá-lo.
Tinha acabado de morrer o raio do galo velho!
Jorge C. Chora
-O que vou fazer agora? – perguntou.
-Tivesses pensado nisso antes! Já viveste o suficiente. Há que dar lugar aos outros! – gritaram-lhe os que ficaram no galinheiro, incluindo alguns bem mais velhos do que ele, que lhe deviam avultados favores, sendo os que mais incitavam a turba ululante.
Cacarejou em vão o brioso e velho galo:
-Se vocês estão assim, fortes e decididos, também a mim o devem!
E não teve outra solução senão a de se afastar e definhar à vista de todos, sem o auxílio de ninguém.
-Chega-te para lá. Dá lugar aos novos. Para que nós vivamos melhor, precisamos que desapareças.
-Morre depressa velho estupor. Só o simples facto de te vermos já nos faz mal ao espírito!
Desterraram-no para um sítio longínquo, fora da vista de todos. Dia sim, dia não, era destacado um dos mais novos para o cumprimento de uma missão: verificar se o velho ainda vivia.
À mesma hora, ecoava pelos montes a mesma notícia:
-Ainda vive!
- Oh! Não é possível… - resmungavam os jovens galos.
O tempo foi passando e os chefes do galinheiro foram reduzindo os grãos atribuídos à população, pese embora as reclamações veementes dos habitantes.
As expulsões foram-se sucedendo a um ritmo alucinante e as mortes dos galos mais novos foram acontecendo em catadupa.
Esqueceram-se do velho galo até que um dia, alguém se lembrou dele e mandou averiguar o que se passava.
-Ainda vive!
-Oh! Não é possível! – admiraram-se os sobreviventes.
-Qual será o segredo? – questionaram-se, cheios de curiosidade.
Decidiram enviar uma representação, com o objectivo de obter, a bem ou a mal, a solução para os seus problemas. Primeiro que escolhessem quem faria parte da embaixada, sucederam-se as discussões, os melindres e as rejeições. As escolhas foram feitas e refeitas inúmeras vezes.
Constituída finalmente a comitiva, quando lá chegaram, depararam-se com um velho, gordo e formoso galo, imóvel, deitado numa fofa cama.
Em silêncio aguardaram que o galo lhes dirigisse a palavra. Após longas horas de respeitosa espera, aproximaram-se, pé ante pé, chamaram-no e tornaram a chamá-lo.
Tinha acabado de morrer o raio do galo velho!
Jorge C. Chora
Subscrever:
Mensagens (Atom)
