Os sons produzidos pela senhora irritavam-no até ao tutano. Chupava os dentes e os buracos das cáries, fazendo lembrar o assobio do vento, em dias de tempestade. De seguida, sorvia o café e degustava os alimentos recuperados, sugando-os como fazem os esgotos pluviais da rua, em dias de chuva. Um horror. O pior é que a dama se julgava um modelo de etiqueta.Preste a ter um ataque de fúria, saiu do café.
À porta, cruzou-se com um amigo que notou a sua indisposição e a quem teve de contar os motivos causadores do seu estado de espírito. No dia seguinte, o mesmo amigo, entrou no estabelecimento de gravador em punho, sentou-se à sua mesa, olhou em redor e perguntou-lhe:
-A senhora está cá?
-Ainda não…mas logo que entrar vai sentar-se na mesa ao meu lado…aposto…
Dito e feito. Mal acabara de falar, a produtora de sons execráveis entrou e sentou-se ao seu lado. O seu amigo iniciou a gravação. À medida que os ruídos se tornavam mais estranhos, o sorriso de satisfação do proprietário do gravador ia-se acentuando.
-Para que queres gravar isto?
-Para ver se consigo afugentar a bicharada da minha horta. Eles comem tudo…dão-me prejuízos.
Tempos depois, ao passar pela dita horta, ouviu, ampliados e difundidos por um altifalante, os pavorosos sons que ele tanto detestava. Os melros, ao fugirem apressados, batiam com violência nas sebes, seguidos pelos estorninhos, pardais e rolas. Em breve deixaram de se ver os bandos de pássaros. Quando o silêncio já reinava, passou a escutar-se um som estranho, uma mistura de grunhidos guturais e de um arfar asmático, intercalado com um glu…glu…profundo e semi-gritado.
Fixou o olhar num pássaro grande que sobrevoava a horta. Era um enorme grifo que se aproximou do altifalante e lhe começou a dar pequenas e suaves bicadas. Reparou melhor e verificou que os bicados eram verdadeiros beijos, transbordantes de afecto.
Uma multidão passou a frequentar a horta e a ver o espectáculo do grifo apaixonado.
As sessões só deixaram de acontecer, quando as autoridades resolveram cobrar taxas aos espectadores.
Jorge C. Chora
domingo, 10 de junho de 2012
domingo, 3 de junho de 2012
As marradinhas do chibo
Todos os dias visitava o seu rebanho de cabras. Quando chegava, elas subiam o monte, rodeavam-no e recebiam em troca folhas de oliveira que comiam deliciadas. Passado um bocado sentava-se na mesa rústica que ali construíra. Um pequeno chibo aproximava-se, saltava para o tampo, fitava o dono e esperava que ele aproximasse a cabeça e dava-lhe uma marradinha suave.
Só ou acompanhado, a cena repetia-se todos os dias. Um vizinho ouviu contar o que se passava e, céptico militante, discípulo de S.Tomé, resolveu certificar-se da veracidade do caso. Pela tardinha, quando sabia que o proprietário lá não estava foi ter com a cabrada. O rebanho subiu ao seu encontro e deu-lhes umas folhinhas que trouxera. Procurou a mesa e sentou-se. Do chibo nem sinal.
Farto de esperar, quando fez menção de se levantar, viu o chibinho subir numa correria o monte na sua direcção. “Agora é que vou ver se é ou não verdade o que me dizem”, resmungou de mau humor, o homem que duvidava de tudo e de todos. Viu-o trepar para a mesa. Fechou os olhos e aproximou a testa do cabritinho.
Mal acabara de os fechar, um enorme bode surgiu de trás de uma moita, saltou para cima da mesa, empurrou o cabritinho e deu-lhe uma cornada tal, que ainda hoje está para saber o que se passou.
O efeito da marrada foi tão devastador, que o homem ainda hoje julga que é “Inginheiro” . Diz disparates com um à vontade de meter dó e estende o barrigão, dizendo, de modo convicto, a tudo o que ouve:
- Hum ..hum… não é bem assim…
Nos tempos que correm, há quem suspeite que tenham sido muitas as pessoas, com responsabilidades e sem elas, que visitaram, à sorrelfa, a quinta e tiveram um mau encontro com o sabido do bode, aliás, um verdadeiro cabrão (pelo tamanho e feitio).
Jorge C. Chora
Só ou acompanhado, a cena repetia-se todos os dias. Um vizinho ouviu contar o que se passava e, céptico militante, discípulo de S.Tomé, resolveu certificar-se da veracidade do caso. Pela tardinha, quando sabia que o proprietário lá não estava foi ter com a cabrada. O rebanho subiu ao seu encontro e deu-lhes umas folhinhas que trouxera. Procurou a mesa e sentou-se. Do chibo nem sinal.
Farto de esperar, quando fez menção de se levantar, viu o chibinho subir numa correria o monte na sua direcção. “Agora é que vou ver se é ou não verdade o que me dizem”, resmungou de mau humor, o homem que duvidava de tudo e de todos. Viu-o trepar para a mesa. Fechou os olhos e aproximou a testa do cabritinho.
Mal acabara de os fechar, um enorme bode surgiu de trás de uma moita, saltou para cima da mesa, empurrou o cabritinho e deu-lhe uma cornada tal, que ainda hoje está para saber o que se passou.
O efeito da marrada foi tão devastador, que o homem ainda hoje julga que é “Inginheiro” . Diz disparates com um à vontade de meter dó e estende o barrigão, dizendo, de modo convicto, a tudo o que ouve:
- Hum ..hum… não é bem assim…
Nos tempos que correm, há quem suspeite que tenham sido muitas as pessoas, com responsabilidades e sem elas, que visitaram, à sorrelfa, a quinta e tiveram um mau encontro com o sabido do bode, aliás, um verdadeiro cabrão (pelo tamanho e feitio).
Jorge C. Chora
sexta-feira, 1 de junho de 2012
O dia do gato
Tenho uma gata cor- de- laranja chamada Bli. Bli? Mas que nome tão estranho, dirão os que estão a ler este texto. Bem, parece mas não é. Vou explicar-vos a razão de ser deste nome. Já ouviram falar de Blimunda, uma mulher com poderes mágicos, apaixonada por Baltazar- Sete-Sóis? Talvez não, mas falem disso aos vossos pais e peçam-lhes que lhes contem a sua história. Caso seja um leitor adulto, não perca tempo e leia o livro o mais rápido possível! Pois bem, Bli é o diminutivo de Blimunda.
O que tem a minha gata em comum com a Blimunda? Boa pergunta! Vou tentar responder-lhes à questão. Ambas têm poderes mágicos. A mulher, desde que estivesse em jejum podia ler as pessoas por dentro, saber quem elas eram, o que pensavam, conhecê-las…saber dos seus desejos. A minha gata, fixa os seus olhos em mim e transmite-me o que quer. Mia durante o tempo que for necessário, sem parar, até que eu lhe satisfaça os desejos. Quando acha que estou a demorar mais do que é normal, tira as garras, espeta-me o focinho na barriga e ruge. Os seus olhos verdes são como esmeraldas que nos fitam e embrulham as suas ordens.
Neste momento aproximam-se os três primos, o Francisco o Rafael e a Matilde. É dia 1 de Junho. Eles já receberam presentes mas dirigem-se, apressados, na sua direcção. A Bli olha, aflita, para mim e emite um pedido de socorro:
-Dia da criança uma ova! Também não há dia do gato!
E parte numa correria para cima de um armário, longe do alcance dos pequenos que a chamam:
-Be-li…ande cá… - diz com voz melada o meu neto Francisco, soletrando-lhe o nome de modo meigo.
-Be-li…be-li… - reforçam, em coro, a Matilde e o Rafael.
A Bli olha-os e ignora-os, resmungando:
-Enquanto não houver dia do gato, bem podem chamar-me!
Jorge C.Chora
O que tem a minha gata em comum com a Blimunda? Boa pergunta! Vou tentar responder-lhes à questão. Ambas têm poderes mágicos. A mulher, desde que estivesse em jejum podia ler as pessoas por dentro, saber quem elas eram, o que pensavam, conhecê-las…saber dos seus desejos. A minha gata, fixa os seus olhos em mim e transmite-me o que quer. Mia durante o tempo que for necessário, sem parar, até que eu lhe satisfaça os desejos. Quando acha que estou a demorar mais do que é normal, tira as garras, espeta-me o focinho na barriga e ruge. Os seus olhos verdes são como esmeraldas que nos fitam e embrulham as suas ordens.
Neste momento aproximam-se os três primos, o Francisco o Rafael e a Matilde. É dia 1 de Junho. Eles já receberam presentes mas dirigem-se, apressados, na sua direcção. A Bli olha, aflita, para mim e emite um pedido de socorro:
-Dia da criança uma ova! Também não há dia do gato!
E parte numa correria para cima de um armário, longe do alcance dos pequenos que a chamam:
-Be-li…ande cá… - diz com voz melada o meu neto Francisco, soletrando-lhe o nome de modo meigo.
-Be-li…be-li… - reforçam, em coro, a Matilde e o Rafael.
A Bli olha-os e ignora-os, resmungando:
-Enquanto não houver dia do gato, bem podem chamar-me!
Jorge C.Chora
segunda-feira, 14 de maio de 2012
Mariana"A Grande"
Mariana ascendera de modo meteórico na escala social. Fizera-o à custa de amantes bem posicionados. Entre eles, diziam os seus detractores, contavam-se quase todos os poderosos e ricos da cidade, incluindo os mais insuspeitos.
Já entrada em anos, mas ainda com queda para o amor, continuou a oferecer o acesso ao sétimo céu aos mais idosos e bem sucedidos concidadãos, com a arte e sabedoria necessária e adequada ao escalão etário dos seus admiradores.
Mariana acumulou vasto património e grandes influências, de que se serviu para deixar à sua descendência uma vida económica sólida, reforçada pelos casamentos e alicerçada em alianças que soube gizar.
Quando entregou a alma ao criador, não houve entre a nata da sociedade quem não tivesse sentido saudades de Mariana. A sua memória perdurou.
Passados uns anos, uma das netas, desconhecendo a história da sua antepassada, convenceu-se de que terem-na chamado de, “A grande”, envolvia notáveis feitos por ela praticados. Laura, assim se chamava esta descendente, empenhou-se em querer homenagear a sua avó e procurou apoio junto ao pároco da sua freguesia, até porque ela sabia que Mariana fizera inúmeras doações para aquela igreja.
Esforçou-se o bom homem por descobrir o que lhe tinha sido pedido. Nas diligências efectuadas, soube através de um idoso benemérito, a verdadeira razão de ser da grandeza de Mariana. Atrapalhado com o segredo, deu voltas à imaginação para descobrir o que dizer a Laura. Resolveu ir adiando,” sine die”, a explicação.
Um belo dia Laura foi ter com ele à igreja, acompanhada do marido e dos seus filhos. O pároco, que era a primeira vez que via o marido, ficou boquiaberto, pois ele teria uns quarenta anos mais do que a mulher:
-Querida Laura, a senhora é a encarnação da sua avó Mariana! Tem de certo a grandeza que ela tinha! Herdou-a…
-Como assim reverendo padre?
-A facilidade em dar-se com os mais sábios, com os mais velhos…a paciência, a arte e o sacrifício em mantê-los felizes…
Jorge C. Chora
Já entrada em anos, mas ainda com queda para o amor, continuou a oferecer o acesso ao sétimo céu aos mais idosos e bem sucedidos concidadãos, com a arte e sabedoria necessária e adequada ao escalão etário dos seus admiradores.
Mariana acumulou vasto património e grandes influências, de que se serviu para deixar à sua descendência uma vida económica sólida, reforçada pelos casamentos e alicerçada em alianças que soube gizar.
Quando entregou a alma ao criador, não houve entre a nata da sociedade quem não tivesse sentido saudades de Mariana. A sua memória perdurou.
Passados uns anos, uma das netas, desconhecendo a história da sua antepassada, convenceu-se de que terem-na chamado de, “A grande”, envolvia notáveis feitos por ela praticados. Laura, assim se chamava esta descendente, empenhou-se em querer homenagear a sua avó e procurou apoio junto ao pároco da sua freguesia, até porque ela sabia que Mariana fizera inúmeras doações para aquela igreja.
Esforçou-se o bom homem por descobrir o que lhe tinha sido pedido. Nas diligências efectuadas, soube através de um idoso benemérito, a verdadeira razão de ser da grandeza de Mariana. Atrapalhado com o segredo, deu voltas à imaginação para descobrir o que dizer a Laura. Resolveu ir adiando,” sine die”, a explicação.
Um belo dia Laura foi ter com ele à igreja, acompanhada do marido e dos seus filhos. O pároco, que era a primeira vez que via o marido, ficou boquiaberto, pois ele teria uns quarenta anos mais do que a mulher:
-Querida Laura, a senhora é a encarnação da sua avó Mariana! Tem de certo a grandeza que ela tinha! Herdou-a…
-Como assim reverendo padre?
-A facilidade em dar-se com os mais sábios, com os mais velhos…a paciência, a arte e o sacrifício em mantê-los felizes…
Jorge C. Chora
terça-feira, 1 de maio de 2012
Vai um cafezito?
Durante três dias consecutivos, na hora de pagar o café da manhã, o cliente estendia-lhe uma nota de cinquenta euros. O senhor do café desculpava-se:
-Ainda é muito cedo. Desculpe-me, mas não tenho troco. Paga para a próxima.
Ao quarto dia, mal o cliente acabou de tomar a bica, o proprietário esboçou um enorme sorriso e cumprimentou-o:
- Bom dia! Hoje já posso servi-lo. Tive o cuidado de ter o troco para a sua nota…
-Oh! Muitíssimo obrigado. É uma gentileza que agradeço de todo o coração… -e, apresenta-lhe uma nota de quinhentos euros, que o força a oferecer-lhe o quarto café.
No dia seguinte, aguardou ansioso a chegada do homem das notas grandes. Tinha tido o cuidado de ter trocos para todas as situações. Ao meio-dia ainda aguardava a sua chegada. Nunca mais lá apareceu nem deu notícias.
Dois anos depois, viu-o entrar e reconheceu-o:
-Então por onde tem andado?
-A arranjar dinheiro trocado para lhe facilitar os trocos – e despeja um saco cheio de cêntimos em cima do balcão, ordenando – pague-se do que lhe devo e dê-me mais uma bica, um bolo e um maço de tabaco!
Nesse momento entraram no estabelecimento os homens da drogaria e o do talho, acompanhados pelo merceeiro que ao verem o monte de moedinhas exclamaram:
-Que jeito nos davam uns troquinhos…
-Se me ajudassem a contá-lo…tenho o café cheio – propôs o dono do café, enquanto continuava a atender.
Logo ali o talhante procedeu à divisão dos cêntimos em quatro montes, distribuindo um a cada um, incluindo o freguês a quem pertencia o saco, com uma recomendação:
-Isso bem contado!
Feitas as contagens e trocados os cêntimos por notas, o dono do café ficou de imediato com uma delas que, por mero acaso, correspondia à dívida total do forasteiro.
Em frente ao cavalheiro que trouxera os cêntimos, sobejou o seu respectivo monte, que a ninguém interessou, por já terem trocos suficientes.
Furioso e irritado com a tarefa que acabara de concluir e por ter de ficar de novo com muitas moedinhas, ainda teve de agradecer o convite que lhe foi dirigido pelo dono do café:
-Vai agora um cafezito?
Jorge C. Chora
-Ainda é muito cedo. Desculpe-me, mas não tenho troco. Paga para a próxima.
Ao quarto dia, mal o cliente acabou de tomar a bica, o proprietário esboçou um enorme sorriso e cumprimentou-o:
- Bom dia! Hoje já posso servi-lo. Tive o cuidado de ter o troco para a sua nota…
-Oh! Muitíssimo obrigado. É uma gentileza que agradeço de todo o coração… -e, apresenta-lhe uma nota de quinhentos euros, que o força a oferecer-lhe o quarto café.
No dia seguinte, aguardou ansioso a chegada do homem das notas grandes. Tinha tido o cuidado de ter trocos para todas as situações. Ao meio-dia ainda aguardava a sua chegada. Nunca mais lá apareceu nem deu notícias.
Dois anos depois, viu-o entrar e reconheceu-o:
-Então por onde tem andado?
-A arranjar dinheiro trocado para lhe facilitar os trocos – e despeja um saco cheio de cêntimos em cima do balcão, ordenando – pague-se do que lhe devo e dê-me mais uma bica, um bolo e um maço de tabaco!
Nesse momento entraram no estabelecimento os homens da drogaria e o do talho, acompanhados pelo merceeiro que ao verem o monte de moedinhas exclamaram:
-Que jeito nos davam uns troquinhos…
-Se me ajudassem a contá-lo…tenho o café cheio – propôs o dono do café, enquanto continuava a atender.
Logo ali o talhante procedeu à divisão dos cêntimos em quatro montes, distribuindo um a cada um, incluindo o freguês a quem pertencia o saco, com uma recomendação:
-Isso bem contado!
Feitas as contagens e trocados os cêntimos por notas, o dono do café ficou de imediato com uma delas que, por mero acaso, correspondia à dívida total do forasteiro.
Em frente ao cavalheiro que trouxera os cêntimos, sobejou o seu respectivo monte, que a ninguém interessou, por já terem trocos suficientes.
Furioso e irritado com a tarefa que acabara de concluir e por ter de ficar de novo com muitas moedinhas, ainda teve de agradecer o convite que lhe foi dirigido pelo dono do café:
-Vai agora um cafezito?
Jorge C. Chora
sexta-feira, 13 de abril de 2012
A Beijoqueira
Criava cobras como passatempo. Amava-as. Eram os animais com quem mais se identificava. Notou que uma delas necessitava de cuidados veterinários. Apressada, colocou-a na mala e saiu a correr. Ao dobrar a primeira esquina sentiu algo frio na sua garganta. Era um assalto e a frialdade devia-se a uma faca encostada ao seu pescoço:
-Passa para cá o dinheiro…
-Tenho-o aqui na mala…mas estou tão nervosa que não vou conseguir encontrá-lo… - e,disfarçando um sorriso, abriu o fecho, deixando-a entreaberta.
O larápio enfiou de modo violento a mão na carteira. A rapidez com que a introduziu igualou o modo como a retirou. A cobra abocanhou-lhe a mão e ficou pendurada e quanto mais ele a sacudia mais ela se firmava. A senhora advertiu-o:
-Esteja quieto senão ela não o larga. Chame-a docemente de querida e afague-lhe a cabeça …pode ser que desista…Vou telefonar para o 112 porque a “Beijoqueira” é venenosa…
Ao chegar ao hospital, o amigo do alheio, fez questão de dizer à polícia que tinha sido alvo de um atentado e, caso sobrevivesse, iria colocar um processo à agressora.
O jovem agente de serviço, desabafou, em voz baixa:
-Que Deus não o permita…
-Olhe que eu processo-o por cumplicidade… – ameaçou-o raivoso o abocanhado.
A dona da cobra, que se dirigira ao hospital para recuperar a sua “Beijoqueira”, admoestou-o com uma voz de trovão:
-Devia aproveitar o pouco tempo que lhe resta para se arrepender e pedir perdão ao Criador… e, muito à socapa, com um ar penoso, dirigindo-se ao policial – infelizmente a cobra não é venenosa…
Jorge C. Chora
-Passa para cá o dinheiro…
-Tenho-o aqui na mala…mas estou tão nervosa que não vou conseguir encontrá-lo… - e,disfarçando um sorriso, abriu o fecho, deixando-a entreaberta.
O larápio enfiou de modo violento a mão na carteira. A rapidez com que a introduziu igualou o modo como a retirou. A cobra abocanhou-lhe a mão e ficou pendurada e quanto mais ele a sacudia mais ela se firmava. A senhora advertiu-o:
-Esteja quieto senão ela não o larga. Chame-a docemente de querida e afague-lhe a cabeça …pode ser que desista…Vou telefonar para o 112 porque a “Beijoqueira” é venenosa…
Ao chegar ao hospital, o amigo do alheio, fez questão de dizer à polícia que tinha sido alvo de um atentado e, caso sobrevivesse, iria colocar um processo à agressora.
O jovem agente de serviço, desabafou, em voz baixa:
-Que Deus não o permita…
-Olhe que eu processo-o por cumplicidade… – ameaçou-o raivoso o abocanhado.
A dona da cobra, que se dirigira ao hospital para recuperar a sua “Beijoqueira”, admoestou-o com uma voz de trovão:
-Devia aproveitar o pouco tempo que lhe resta para se arrepender e pedir perdão ao Criador… e, muito à socapa, com um ar penoso, dirigindo-se ao policial – infelizmente a cobra não é venenosa…
Jorge C. Chora
quarta-feira, 4 de abril de 2012
A fila prioritária
Fez as compras que tinha a fazer e dirigiu-se à caixa para as pagar. Quando se preparava para as colocar no pequeno balcão, ouviu atrás de si uma voz rouca:
-Peço-lhe perdão mas, se me deixasse passar à sua frente, ficava-lhe muito agradecida.
Olhou e viu uma idosa apoiada numa canadiana. Sorriu, ajudou-a a colocar os produtos e inclusive a colocá-los nos sacos. Mal acabara de praticar a sua acção cívica quando surgiu uma senhora grávida. Cedeu de imediato a passagem.
Sentiu-se ainda obrigada a ceder a primazia a mais duas pessoas: uma que transportava uma criança ao colo e a outra que trazia uma bebé no carrinho que dormia o sono dos justos.
Quando, por fim, julgou chegado o momento de ser atendida, apareceu-lhe, afogueada, uma jovem e elegante senhora que anunciou, plena de requebros
snobs:
-Estou grávida de um mês…
Ao ouvir esta declaração deu uma gargalhada sonora e disse:
-Minha querida, acabei mesmo há bocado de fazer amor e estou mesmo convicta, de que engravidei. Terá de esperar pela sua vez. Ah! Antes que me esqueça…Parabéns!
Nesse preciso momento a funcionária da caixa levanta-se, deixando ver uma barriga que denotava estar no fim do tempo e, muito aflita, interrompe o diálogo:
-Mil perdões mas tenho de ir já para a maternidade…
Jorge C. Chora
-Peço-lhe perdão mas, se me deixasse passar à sua frente, ficava-lhe muito agradecida.
Olhou e viu uma idosa apoiada numa canadiana. Sorriu, ajudou-a a colocar os produtos e inclusive a colocá-los nos sacos. Mal acabara de praticar a sua acção cívica quando surgiu uma senhora grávida. Cedeu de imediato a passagem.
Sentiu-se ainda obrigada a ceder a primazia a mais duas pessoas: uma que transportava uma criança ao colo e a outra que trazia uma bebé no carrinho que dormia o sono dos justos.
Quando, por fim, julgou chegado o momento de ser atendida, apareceu-lhe, afogueada, uma jovem e elegante senhora que anunciou, plena de requebros
snobs:
-Estou grávida de um mês…
Ao ouvir esta declaração deu uma gargalhada sonora e disse:
-Minha querida, acabei mesmo há bocado de fazer amor e estou mesmo convicta, de que engravidei. Terá de esperar pela sua vez. Ah! Antes que me esqueça…Parabéns!
Nesse preciso momento a funcionária da caixa levanta-se, deixando ver uma barriga que denotava estar no fim do tempo e, muito aflita, interrompe o diálogo:
-Mil perdões mas tenho de ir já para a maternidade…
Jorge C. Chora
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