O pequeno Francisco olhou e não acreditou. Olhou de novo e ali estava, em cima de uma pedra o estranho bicho. Media um palmo e meio se tanto. Um palmo dos do Francisco.
-O que é isto?- exclamou sem se conter.
Por alguma razão não teve medo. Observou-o com muita atenção. Tinha na cabeça uns corninhos pequenos e uns olhos vermelhos, muito vivos. Tirava constantemente a língua comprida, que enrolava na ponta. Do nariz, dois pequenos orifícios, saíam pequenas faíscas cuja direcção mudava de acordo com o movimento da cabeça. As costas tinham uma espécie de pequenas pedrinhas até à cauda, que terminavam numa seta carnuda e verde. De lado viam-se duas asas, cobertas com uma espécie de escamas multicolores.
-Quem és afinal? Consegues falar? Tens nome…? - perguntou o Francisco.
-Calma, tem calma…uma pergunta de cada vez… - respondeu-lhe com uma voz pausada, forte e segura.
-Começa por dizer-me quem és…
-Esqueceste-te de pedir-me por favor…
-Desculpa-me, esqueci-me…por favor – emendou de imediato o Francisco.
-Sou o Hip… foram os meus pais que assim me chamaram porque, quando era pequeno estava sempre com soluços…
-Com soluços?
-Sim… - e pôs-se a imitar - hip…hip….hip…
-Então és pequenino…
-Sim e não… – disse-lhe o Hip.
-Não entendo…
-Eu explico. Sou pequeno de tamanho mas grande de idade.
-Agora é que não entendo mesmo nada…
-Tens de ter calma. Dá-me tempo para te contar e vais ver que me entendes. Tudo tem o seu tempo.
-Bem…estou curioso… conta-me.
- Vi pela primeira vez a luz do dia há muito, mas mesmo muito tempo, ainda os avós dos teus avós não tinham nascido, nem sonhavam nascer.
-Mas então, se tens tanta idade, como é que ainda tens esse tamanho?
-Antes de mais preciso de saber o teu nome…
-Sou o Francisco…
-Tenho muito gosto em conhecer-te. Olha, voltando à nossa conversa… tenho este tamanho porque sou anão…
-Anão? Mas és assim de nascença?
-Sim, tal como os meus antepassados, desde que eu me conheço… e conseguimos sobreviver até aos dias de hoje porque fomos diminuindo de tamanho…
-E há outros como tu?
-Que eu saiba não….Minto, tenho uma prima…mas não vive por estas bandas…
-E as pessoas deixam-te em paz? O que é que elas dizem quando te vêem? Nunca te quiseram fazer mal? E…
-Lá estás tu a querer fazer-me mil perguntas ao mesmo tempo. Assim deixas-me nervoso e começo a deitar mais chamas…posso queimar-te sem querer! – e, logo de seguida, lançou uma labareda em direcção ao céu que chamuscou o rabo da velha gaivota que por ali passava e assim reagiu:
-Quem ousa chegar-me fogo ao rabo? Onde estão os malvados que me querem mal?
-Perdão D.ª Gaivota, foi sem intenção. A culpa é minha… irritei o Hip sem querer…
-desculpou-se Francisco.
-Logo vi que isto era coisa do Hip, esse velho e irritadiço dragão, com idade para ter juízo, mas sem melhoras nenhumas…
-Conhece o Hip?
-Todos o conhecem por estes lados. Tem o hábito de repreender as pessoas que não se portam bem, aquecendo-lhes as faces com algum calor. Castiga os que fazem alguma coisa que não devem: ficam com a cara encarnada. É por acção do Hip.
-E as pessoas aceitam? Não o perseguem? – espantou-se Francisco.
-Como, se não o vêem?
-Diga? O Hip é invisível?
-Claro !- exclamou a velha gaivota – se o vissem já tinham acabado com ele.
-Então como é que eu o vejo?- surpreendeu-se Francisco.
-Porque ele está bem disposto e simpatizou contigo!- disse-lhe a gaivota- além de que deve querer dizer-te alguma coisa importante.
-É verdade Hip?- perguntou Francisco.
-Se a minha amiga gaivota te disse é porque sabe! – respondeu-lhe mal humorado Hip.
-Todas as crianças contam com a protecção do Hip. Ele não perdoa é aos meninos ou aos que já deixaram de o ser, maldades, mentiras … acções que prejudicam os outros…
-Quando as pessoas sentem a cara a arder…. É porque … - tentou concluir Francisco.
-É porque o Hip está próximo e a asneira aconteceu ou estava para acontecer! – interrompeu a gaivota.
-Então o Hip…
Mais uma vez a gaivota lhe cortou a palavra e o raciocínio:
-Está cansado de trabalhar, descansa pouco ou nada, e ninguém ou quase ninguém sabe que ele existe.
Se alguém ainda não sabe porque razão às vezes fica roborizado, sabe agora qual o motivo. Também nunca viu o Hip ou estou enganado?
Jorge.C.Chora
quinta-feira, 29 de julho de 2010
terça-feira, 13 de julho de 2010
O Sargento Sábio
No tempo da guerra colonial, um jovem estudante de medicina, com a cabeça repleta de heroicidades, comunica à mãe que vai oferecer-se como voluntário para o exército.
A mãe deita as mãos à cabeça, não sabendo bem o que dera ao seu rebento, e o que fazer ao seu súbito apetite: se resolvia o caso com uma chapada, à antiga portuguesa, ou com uma descompostura quilométrica. Optou pela segunda hipótese, mas sem qualquer sucesso. O moço fez-se de surdo.
Logo que pôde dirigiu-se ao centro de recrutamento. Questionado pelo sargento de serviço sobre o que desejava, todo afoito disse ao que vinha:
-Quero oferecer-me como voluntário.
-Muito bem… - e o sargento encaminhou-se para a máquina de escrever, senta-se e dispara – nome e idade…
Em voz grossa, de peito inchado, despejou o nome, como se fosse um escultor a trabalhar a pedra.
O sargento martelou o nome e a máquina resistiu à investida de forma heróica.
Grafado o nome e a idade, voltou à carga:
-Profissão?
-Estudante do primeiro ano de medicina.
O sargento suspendeu a escrita. Sem sequer voltar a olhar para o mancebo, tirou o papel da máquina e disparou:
-Nós precisamos é de médicos. Vá acabar o curso e depois volte.
Sem esperar a resposta do mancebo, voltou-lhe as costas, não sem que antes lhe tenha desejado um bom-dia.
O país ganhou um bom cirurgião e, pelo que conheço da figura, livrou-se de um militar que vou ali e já venho. Safa!
Jorge C. Chora
A mãe deita as mãos à cabeça, não sabendo bem o que dera ao seu rebento, e o que fazer ao seu súbito apetite: se resolvia o caso com uma chapada, à antiga portuguesa, ou com uma descompostura quilométrica. Optou pela segunda hipótese, mas sem qualquer sucesso. O moço fez-se de surdo.
Logo que pôde dirigiu-se ao centro de recrutamento. Questionado pelo sargento de serviço sobre o que desejava, todo afoito disse ao que vinha:
-Quero oferecer-me como voluntário.
-Muito bem… - e o sargento encaminhou-se para a máquina de escrever, senta-se e dispara – nome e idade…
Em voz grossa, de peito inchado, despejou o nome, como se fosse um escultor a trabalhar a pedra.
O sargento martelou o nome e a máquina resistiu à investida de forma heróica.
Grafado o nome e a idade, voltou à carga:
-Profissão?
-Estudante do primeiro ano de medicina.
O sargento suspendeu a escrita. Sem sequer voltar a olhar para o mancebo, tirou o papel da máquina e disparou:
-Nós precisamos é de médicos. Vá acabar o curso e depois volte.
Sem esperar a resposta do mancebo, voltou-lhe as costas, não sem que antes lhe tenha desejado um bom-dia.
O país ganhou um bom cirurgião e, pelo que conheço da figura, livrou-se de um militar que vou ali e já venho. Safa!
Jorge C. Chora
terça-feira, 6 de julho de 2010
O cheque dentário
Com uma cara de poucos amigos, entrou no café, sentou-se com as costas da cadeira viradas para a frente e ordenou:
-Uma cerveja, um pastel de nata e um rissol.
Bebeu a cerveja e ia a metade do rissol quando desatou aos ais.
-O que é que o senhor tem?-perguntaram os funcionários.
Agarrado à boca, pediu a chave para ir à casa de banho. Saiu logo depois, com um pequeno guardanapo, com uma pintinha de sangue e pediu, numa aflição, um bagaço para desinfectar a boca, pois tinha espetado um osso!
-Um osso? O mais que pode ser é um bocado de camarão! – exclamaram os empregados.
Após” bochechar“ a bagaceira, dirigiu-se ao balcão e intimou:
-Qual de vós me acompanha ao dentista?
-Acompanhar ao dentista?
-Sim…não vêem a minha dor? Chamem uma ambulância…
Os funcionários arregalaram os olhos. Eles que nunca tinham ido ao dentista, estavam a ser solicitados para acompanhar um marmanjão com um dói dói…
-Mas que idade tem o senhor!
Nisto, saí da cozinha o ajudante, homem enorme que trabalhara numa clínica veterinária, cuja secreta ambição era ser dentista, com um facalhão impressionante, todo sorridente, a oferecer-se:
-Quem precisa de um dentista?
O homem, que já desandara sem pagar a conta, criou asas e ainda houve quem ouvisse pela rua fora a sua aflição:
-Olha que o cheque dentário me ia saindo caro!
Jorge C. Chora
-Uma cerveja, um pastel de nata e um rissol.
Bebeu a cerveja e ia a metade do rissol quando desatou aos ais.
-O que é que o senhor tem?-perguntaram os funcionários.
Agarrado à boca, pediu a chave para ir à casa de banho. Saiu logo depois, com um pequeno guardanapo, com uma pintinha de sangue e pediu, numa aflição, um bagaço para desinfectar a boca, pois tinha espetado um osso!
-Um osso? O mais que pode ser é um bocado de camarão! – exclamaram os empregados.
Após” bochechar“ a bagaceira, dirigiu-se ao balcão e intimou:
-Qual de vós me acompanha ao dentista?
-Acompanhar ao dentista?
-Sim…não vêem a minha dor? Chamem uma ambulância…
Os funcionários arregalaram os olhos. Eles que nunca tinham ido ao dentista, estavam a ser solicitados para acompanhar um marmanjão com um dói dói…
-Mas que idade tem o senhor!
Nisto, saí da cozinha o ajudante, homem enorme que trabalhara numa clínica veterinária, cuja secreta ambição era ser dentista, com um facalhão impressionante, todo sorridente, a oferecer-se:
-Quem precisa de um dentista?
O homem, que já desandara sem pagar a conta, criou asas e ainda houve quem ouvisse pela rua fora a sua aflição:
-Olha que o cheque dentário me ia saindo caro!
Jorge C. Chora
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Almoço para dois
Surgiu na curva aos ziguezagues. Os pneus da viatura chiaram e o condutor, num frenesim, sacudia-se e agitava o pano de pó. Conseguira escapar, até ao momento, de uma ferroada do besouro. Pelo zumbido, era dos grandes. Pior do que isso, mostrava uma tenacidade sarnenta e feroz nos ataques que proferia.
Mal acabara de descrever a curva é mandado parar. Era uma operação stop. O agente aproxima-se. Faz uma continência a preceito, batendo em simultâneo os calcanhares:
-Sr. Condutor, identifique-se e mostre-me os documentos da viatura, por favor….
Enquanto o automobilista cumpria a ordem o agente não se conteve:
-Aos ziguezagues depois do almoço…
-Sabe Sr. Agente… o besouro…
-O besouro? Vamos ver que história vai contar quando soprar o balão… -disse o polícia olhando-o de soslaio.
As palavras ainda não tinham sido ditas quando o polícia lança aos quatro ventos um grito de dor: levara uma valente ferroada no pescoço.
-Pelo visto almoçou o mesmo do que eu… - comentou o motorista.
-O mesmo não digo eu… o Sr. ficou-se pelo aperitivo e eu pelo prato principal…. – concluiu.
JorgeC.Chora
Mal acabara de descrever a curva é mandado parar. Era uma operação stop. O agente aproxima-se. Faz uma continência a preceito, batendo em simultâneo os calcanhares:
-Sr. Condutor, identifique-se e mostre-me os documentos da viatura, por favor….
Enquanto o automobilista cumpria a ordem o agente não se conteve:
-Aos ziguezagues depois do almoço…
-Sabe Sr. Agente… o besouro…
-O besouro? Vamos ver que história vai contar quando soprar o balão… -disse o polícia olhando-o de soslaio.
As palavras ainda não tinham sido ditas quando o polícia lança aos quatro ventos um grito de dor: levara uma valente ferroada no pescoço.
-Pelo visto almoçou o mesmo do que eu… - comentou o motorista.
-O mesmo não digo eu… o Sr. ficou-se pelo aperitivo e eu pelo prato principal…. – concluiu.
JorgeC.Chora
sábado, 26 de junho de 2010
A metamorfose
Compareceu à entrevista um tanto ou quanto contrafeito. Tinha de satisfazer um pedido irrecusável de um familiar. Tinha um amigo, a quem muito estimava, que necessitava de um gestor. Uma questão de negócios mal orientados, associada a gastos excessivos, por parte de um proprietário que se limitara a herdar e a delapidar…
Às nove em ponto, foi-lhe pedido que entrasse. Foi apresentado ao proprietário. Irrepreensível no seu fato Armani, sorriu-lhe, estendeu-lhe a mão e foi directo ao assunto:
-Preciso de alguém que me tire de apuros. O seu primo afiançou-me que era a pessoa indicada.
-Ele costuma ser bom avaliador…mas não há bela sem senão… - respondeu-lhe o gestor com cautela e estudando quem tinha na sua frente.
-Bom não percamos tempo…vamos às soluções que me propõe…
-Para ser mais eficaz, preciso de saber se já tomou algumas medidas, como ter despedido funcionários…
-Mas claro, despedi metade…
-E segundo os seus cálculos foi o suficiente?
-Não sei mas posso despedir mais…
-E os salários dos que ficaram…mantiveram-se? - perguntou o gestor.
-Reduziram-se 10%...
-E a produtividade?
-Exijo a mesma de quando estavam o dobro dos trabalhadores, mas estou a pensar em duplicá-la…
-Mas então o que acha que ainda posso fazer por si? – admirou-se o gestor.
-Que convença os que ficaram que ainda devem agradecer a consideração de que estão a ser alvo…
O gestor olhou atentamente o interlocutor. Quis assegurar-se de que ele não estava a brincar e disparou:
-Quer que eu convença os que ficaram…que ainda lhe devem estar gratos…
-Perfeitamente!
O gestor demorou alguns segundos a responder mas acabou por dizer:
-Bom, safadices sei fazê-las tão bem como o amigo, mas metamorfoseá-las em actos santos, confesso que ainda está fora do meu poder e alcance…
Jorge C. Chora
Às nove em ponto, foi-lhe pedido que entrasse. Foi apresentado ao proprietário. Irrepreensível no seu fato Armani, sorriu-lhe, estendeu-lhe a mão e foi directo ao assunto:
-Preciso de alguém que me tire de apuros. O seu primo afiançou-me que era a pessoa indicada.
-Ele costuma ser bom avaliador…mas não há bela sem senão… - respondeu-lhe o gestor com cautela e estudando quem tinha na sua frente.
-Bom não percamos tempo…vamos às soluções que me propõe…
-Para ser mais eficaz, preciso de saber se já tomou algumas medidas, como ter despedido funcionários…
-Mas claro, despedi metade…
-E segundo os seus cálculos foi o suficiente?
-Não sei mas posso despedir mais…
-E os salários dos que ficaram…mantiveram-se? - perguntou o gestor.
-Reduziram-se 10%...
-E a produtividade?
-Exijo a mesma de quando estavam o dobro dos trabalhadores, mas estou a pensar em duplicá-la…
-Mas então o que acha que ainda posso fazer por si? – admirou-se o gestor.
-Que convença os que ficaram que ainda devem agradecer a consideração de que estão a ser alvo…
O gestor olhou atentamente o interlocutor. Quis assegurar-se de que ele não estava a brincar e disparou:
-Quer que eu convença os que ficaram…que ainda lhe devem estar gratos…
-Perfeitamente!
O gestor demorou alguns segundos a responder mas acabou por dizer:
-Bom, safadices sei fazê-las tão bem como o amigo, mas metamorfoseá-las em actos santos, confesso que ainda está fora do meu poder e alcance…
Jorge C. Chora
segunda-feira, 21 de junho de 2010
O encapotado que lia a necrologia
Quer chovesse quer fizesse sol, o velho funcionário afixava, sempre à mesma hora, a lista dos falecidos no quadro pendurado ao lado da taberna. Constavam da lista os naturais do concelho e também os que aí tinham entregado a alma ao Criador.
Poucos minutos após a afixação da necrologia, um corrupio de curiosos aproximava-se e ia comentando os falecimentos:
- Ai já não era sem tempo…ruim qu`ele era… já lá está…
- A vez chega a todos…
- Paz à sua alma…
-Pois é… ninguém escapa…
- Querias ficar para semente… e logo tu…
Teciam-se comentários de toda a índole, mas a má-língua era a que predominava. Quanto mais mal diziam, mais querido era o morto: pertencia ou tinha pertencido à pandilha da tasca, conheciam-lhe os podres e também as virtudes embora naquela hora, evitassem os elogios e salientassem as velhacarias, porque assim todos participavam. Era um código.
Todos os dias, quando a luz escasseava, aproximava-se, sabe-se lá vindo de onde, envolto num capote, cambaleando, um homem apoiado num cajado que ficava especado, a ler a necrologia.
Cerca de dez minutos depois, lançava um grito de alegria: Aleluia…aleluia…
Ninguém presenciava a cena, devido à hora a que acontecia. Um dia alguém viu e divulgou o que se passava.
A curiosidade levou-os a fazer-lhe uma espera e a inquirir o homem após o estranho ritual:
-Afinal o que se passa consigo? Qual a razão das aleluias?
- É que até ao momento nunca consegui ler o meu nome na lista!
-Pois se está vivo como quer aparecer nela! - espantaram-se os amigos.
-Aí é que não sei…talvez se enganem… - respondeu com uma voz cavernosa - virando-se para os presentes.
Foi quando os amigos se deram conta que dentro do capote não havia ninguém.
Tem a certeza de que não é o caro leitor(a) que está metido neste capote?
Jorge C. Chora
Poucos minutos após a afixação da necrologia, um corrupio de curiosos aproximava-se e ia comentando os falecimentos:
- Ai já não era sem tempo…ruim qu`ele era… já lá está…
- A vez chega a todos…
- Paz à sua alma…
-Pois é… ninguém escapa…
- Querias ficar para semente… e logo tu…
Teciam-se comentários de toda a índole, mas a má-língua era a que predominava. Quanto mais mal diziam, mais querido era o morto: pertencia ou tinha pertencido à pandilha da tasca, conheciam-lhe os podres e também as virtudes embora naquela hora, evitassem os elogios e salientassem as velhacarias, porque assim todos participavam. Era um código.
Todos os dias, quando a luz escasseava, aproximava-se, sabe-se lá vindo de onde, envolto num capote, cambaleando, um homem apoiado num cajado que ficava especado, a ler a necrologia.
Cerca de dez minutos depois, lançava um grito de alegria: Aleluia…aleluia…
Ninguém presenciava a cena, devido à hora a que acontecia. Um dia alguém viu e divulgou o que se passava.
A curiosidade levou-os a fazer-lhe uma espera e a inquirir o homem após o estranho ritual:
-Afinal o que se passa consigo? Qual a razão das aleluias?
- É que até ao momento nunca consegui ler o meu nome na lista!
-Pois se está vivo como quer aparecer nela! - espantaram-se os amigos.
-Aí é que não sei…talvez se enganem… - respondeu com uma voz cavernosa - virando-se para os presentes.
Foi quando os amigos se deram conta que dentro do capote não havia ninguém.
Tem a certeza de que não é o caro leitor(a) que está metido neste capote?
Jorge C. Chora
quarta-feira, 16 de junho de 2010
O Provador
Na aldeia todos tinham a sua função. A do Tomé era cobiçada: provar a carne da taberna que era servida aos visitantes e turistas estrangeiros.
Tomé era desdentado. Um desdentado como provador de carne? Onde é que isso alguma vez se tinha visto?
Visto ou não visto, o facto certo e indelével era a qualidade do serviço prestado: o que Tomé comia sem nenhum dente, podia ser comido e degustado por todos os clientes independentemente da idade, saúde física ou dentária.
Quem não gostou do sucesso do Tomé foi o jovem dentista, recentemente instalado.
A sua propaganda consistia precisamente em propalar aos sete ventos a dificuldade que os desdentados tinham em comer. Era necessário ter o maior cuidado com a dentição.
Os aldeões replicavam:
-Isso era dantes. Agora temos o Tomé e não precisamos de dentes.
O jovem viu-se em dificuldades. A clientela era tão escassa que se tornou no único habitante da aldeia que não tinha dinheiro para comer os bifes seleccionados pelo Tomé.
Conversa puxa conversa conseguiu chegar às falas com o provador. Ofereceu-lhe uma prótese de uma qualidade tal que Tomé se deixou render: Era mais fácil comer, digeria melhor os alimentos, podia comer torresmos crocantes, roer até ao osso o entrecosto e deleitar-se com os alimentos estaladiços.
Assustado, o taberneiro viu a vida a andar para trás. O que seria de si e do seu negócio? Quem lhe escolheria a carne?
Lamentou-se ao dentista e este condoeu-se da sua situação, embora não se tivesse esquecido do mau bocado que também estava a passar. Propôs ao taberneiro que falassem ao Tomé.
-Ao Tomé? Agora que ele tem dentes quer lá saber de alguma coisa! - queixou-se.
-Não será bem assim…não custa tentar… - replicou o médico.
Juntaram-se os três e dentista propôs:
-Gostaria de comer um bife com a qualidade que a carne sempre aqui teve.
-Mas esse é que é o problema…. - manifestou-se o taberneiro.
-Não. Se o amigo Tomé tirar os dentes para seleccionar a carne…
-Mau… - hesitou o Tomé, já a ver-se privado dos novos dentes….
-Quando for comer coloca-os de novo …- sugeriu o esfomeado médico.
Um sorriso radiante surgiu na face de ambos.
-Agora só falta resolver o meu problema - alertou o esfomeado - eu peço ao amigo Tomé que fale a todos os habitantes da aldeia e aos clientes da casa, da maravilha que é cuidar dos dentes e a vantagem que é tê-los … e o preço acessível que vou levar…
-Por quem é…conte comigo…
-Connosco…- rematou o taberneiro.
-Se agora pudesse ser um bifezinho … - murmurou o desfalecido arquitecto do entendimento.
-É para já.
Jorge C. Chora
Tomé era desdentado. Um desdentado como provador de carne? Onde é que isso alguma vez se tinha visto?
Visto ou não visto, o facto certo e indelével era a qualidade do serviço prestado: o que Tomé comia sem nenhum dente, podia ser comido e degustado por todos os clientes independentemente da idade, saúde física ou dentária.
Quem não gostou do sucesso do Tomé foi o jovem dentista, recentemente instalado.
A sua propaganda consistia precisamente em propalar aos sete ventos a dificuldade que os desdentados tinham em comer. Era necessário ter o maior cuidado com a dentição.
Os aldeões replicavam:
-Isso era dantes. Agora temos o Tomé e não precisamos de dentes.
O jovem viu-se em dificuldades. A clientela era tão escassa que se tornou no único habitante da aldeia que não tinha dinheiro para comer os bifes seleccionados pelo Tomé.
Conversa puxa conversa conseguiu chegar às falas com o provador. Ofereceu-lhe uma prótese de uma qualidade tal que Tomé se deixou render: Era mais fácil comer, digeria melhor os alimentos, podia comer torresmos crocantes, roer até ao osso o entrecosto e deleitar-se com os alimentos estaladiços.
Assustado, o taberneiro viu a vida a andar para trás. O que seria de si e do seu negócio? Quem lhe escolheria a carne?
Lamentou-se ao dentista e este condoeu-se da sua situação, embora não se tivesse esquecido do mau bocado que também estava a passar. Propôs ao taberneiro que falassem ao Tomé.
-Ao Tomé? Agora que ele tem dentes quer lá saber de alguma coisa! - queixou-se.
-Não será bem assim…não custa tentar… - replicou o médico.
Juntaram-se os três e dentista propôs:
-Gostaria de comer um bife com a qualidade que a carne sempre aqui teve.
-Mas esse é que é o problema…. - manifestou-se o taberneiro.
-Não. Se o amigo Tomé tirar os dentes para seleccionar a carne…
-Mau… - hesitou o Tomé, já a ver-se privado dos novos dentes….
-Quando for comer coloca-os de novo …- sugeriu o esfomeado médico.
Um sorriso radiante surgiu na face de ambos.
-Agora só falta resolver o meu problema - alertou o esfomeado - eu peço ao amigo Tomé que fale a todos os habitantes da aldeia e aos clientes da casa, da maravilha que é cuidar dos dentes e a vantagem que é tê-los … e o preço acessível que vou levar…
-Por quem é…conte comigo…
-Connosco…- rematou o taberneiro.
-Se agora pudesse ser um bifezinho … - murmurou o desfalecido arquitecto do entendimento.
-É para já.
Jorge C. Chora
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