Reuniam-se no café e o único assunto que sabiam e gostavam de discutir era em torno do dinheiro, de quem tinha mais, do que este e aqueloutro tinham ou deixavam de ter. Todas as conversas, sem excepção, se encaminhavam para o referido assunto.
Naquele fim-de-semana, para não variar, o mesmo grupo, sentado no mesmíssimo lugar, discutia o tema de sempre: o dinheiro. A única diferença, se é que isso contava, era que se discutia quem tinha as maiores propriedades no concelho. Sicrano e Beltrano vieram à liça por diversas ocasiões e pela primeira vez a opinião foi consensual: sem dúvida eram os maiores.
Sentado na mesa ao lado estava o António, tão ou mais linguarudo do que os vizinhos, mas sem cabidela nos suas conversa devido ao sua falta de estatuto económico: era muito pobre. Desejoso por participar na conversa aclarou a voz e disse:
-Peço perdão…quem sou eu para discordar de tão ilustres senhores…
Entreolharam-se os interlocutores, surpreendidos com a intromissão:
- Falaste Tónio? Queres dizer alguma coisa?
-Se me permitirem…
-Despacha-te…diz lá… - remataram os linguarudos.
-Bom…o que eu digo e repito, para quem me quiser ouvir, é que eu estou de acordo com o facto de eles serem os maiores proprietários…mas nenhum tem uma propriedade que se estenda por três concelhos!
-Por três concelhos? Não há quem esteja nessas condições!
-Há sim… - contrapôs Tónio com um ar misterioso - Querem apostar?
-Tudo o que quiseres…
-Bem, como não sou ganancioso, se perder pago-vos um uísque e se eu ganhar passam a tratar-me por” senhor dos três concelhos” e a levantarem-se para me cumprimentarem…
Desataram a rir-se com a sua proposta mas aceitaram-na, saboreando antecipadamente as bebidas, já que conheciam há muito o Tónio.
-Lembram-se da ponte dos três concelhos?
-Sim, claro!
-Pois a terrinha que está na confluência dos três concelhos é minha…
-Isso é uma terra de nada, uns metrinhos que não valem nada… - apressaram-se a concluir.
-Não tenho a menor dúvida de que assim é… mas a aposta foi outra…
Os presentes no café testemunharam a vitória de Tónio.
Ainda hoje são muitos os que se espantam quando o esfarrapado Tónio entra no estabelecimento e os poderosos da terra se levantam e o cumprimentam:
-Como vai o senhor dos três concelhos?
Jorge C. Chora
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
O segredo do senhor "von Kartoffel"
As gargalhadas sacudiam-lhe a jucunda barriga, os enormes peitos e a papada volumosa. De riso fácil e disposição alegre, o tintureiro Kartoffel fazia tudo com gosto e com uma arte e delicadeza irrepreensíveis.
A preparação dos químicos era um momento de verdadeiro espectáculo. As doses eram pesadas até ao miligrama, misturadas em frascos, provetas e vidrinhos. As preparações eram elevadas acima da cabeça e observadas à contra luz, olhadas como se quisesse vê-las à transparência. De seguida eram adicionadas nas tinas, em gestos suaves, harmoniosos, musicais. Quem via, julgava assistir a verdadeiros passos de ballet clássico, mesclado de enérgicas interferências de um bailado moderno, prenhe de inovação e colorido.
Aquelas poções, pese embora a roupagem quase mágica de que se revestiam, eram claras, matemáticas, rigorosas e tão simples que qualquer um podia copiá-las, registá-las,repeti-las.
Sempre que o tintureiro executava o seu trabalho, os proprietários da fábrica têxtil bebiam-lhe as porções, anotavam as quantidades, comparavam-nas com as anteriores.
Ágeis no cálculo, e de olho gordo nas poupanças que fariam se não tivessem de pagar o ordenado a “von Kartoffel”, despediram-no sem apelo:
-Von Kartoffel, agradecemos-lhe a sua contribuição na empresa, mas já não precisamos de si. Já sabemos todos os seus segredos e podemos poupar o seu salário.
O tintureiro sorriu e disse:
-Quando me tornarem a chamar, só aceitarei voltar com o dobro do ordenado…
Sonoras gargalhadas responderam ao desabafo do tintureiro.
-Que tonto…coitado…não tem onde cair morto… - comentaram após a saída do técnico.
Na manhã seguinte, reuniram-se os donos da fábrica. Nunca o mundo lhe sorrira como naquele momento.
Reproduzido todo o processo, sem esquecer as medidas, os pesos, as miscelâneas devidas e até os gestos, foram colhidos de surpresa: a tinta não deu os resultados esperados.
Discutindo o que podia ter corrido mal, chegaram à conclusão que não tinham mexido as tintas e os químicos com uma bengala como “von Kartoffel”costumava fazer. Utilizada a bengala de um dos sócios o resultado foi o mesmo.
Estavam as coisas neste pé, quando um dos melhores amigos do tintureiro, operário da fábrica, por ali passou e desatou a rir à gargalhada.
-De que te ris?
-É que o segredo de von Kartoffel residia na sua bengala…que era oca…
-E o que tem a ver isso com… -interrogaram-se dois dos três donos presentes.
Preparava-se para responder, quando o terceiro proprietário, caiu em si e exclamou:
-Ai que nos tramámos…a bengala tinha os químicos necessários para serem adicionados aos outros que nós conhecíamos…
Jorge C. Chora
A preparação dos químicos era um momento de verdadeiro espectáculo. As doses eram pesadas até ao miligrama, misturadas em frascos, provetas e vidrinhos. As preparações eram elevadas acima da cabeça e observadas à contra luz, olhadas como se quisesse vê-las à transparência. De seguida eram adicionadas nas tinas, em gestos suaves, harmoniosos, musicais. Quem via, julgava assistir a verdadeiros passos de ballet clássico, mesclado de enérgicas interferências de um bailado moderno, prenhe de inovação e colorido.
Aquelas poções, pese embora a roupagem quase mágica de que se revestiam, eram claras, matemáticas, rigorosas e tão simples que qualquer um podia copiá-las, registá-las,repeti-las.
Sempre que o tintureiro executava o seu trabalho, os proprietários da fábrica têxtil bebiam-lhe as porções, anotavam as quantidades, comparavam-nas com as anteriores.
Ágeis no cálculo, e de olho gordo nas poupanças que fariam se não tivessem de pagar o ordenado a “von Kartoffel”, despediram-no sem apelo:
-Von Kartoffel, agradecemos-lhe a sua contribuição na empresa, mas já não precisamos de si. Já sabemos todos os seus segredos e podemos poupar o seu salário.
O tintureiro sorriu e disse:
-Quando me tornarem a chamar, só aceitarei voltar com o dobro do ordenado…
Sonoras gargalhadas responderam ao desabafo do tintureiro.
-Que tonto…coitado…não tem onde cair morto… - comentaram após a saída do técnico.
Na manhã seguinte, reuniram-se os donos da fábrica. Nunca o mundo lhe sorrira como naquele momento.
Reproduzido todo o processo, sem esquecer as medidas, os pesos, as miscelâneas devidas e até os gestos, foram colhidos de surpresa: a tinta não deu os resultados esperados.
Discutindo o que podia ter corrido mal, chegaram à conclusão que não tinham mexido as tintas e os químicos com uma bengala como “von Kartoffel”costumava fazer. Utilizada a bengala de um dos sócios o resultado foi o mesmo.
Estavam as coisas neste pé, quando um dos melhores amigos do tintureiro, operário da fábrica, por ali passou e desatou a rir à gargalhada.
-De que te ris?
-É que o segredo de von Kartoffel residia na sua bengala…que era oca…
-E o que tem a ver isso com… -interrogaram-se dois dos três donos presentes.
Preparava-se para responder, quando o terceiro proprietário, caiu em si e exclamou:
-Ai que nos tramámos…a bengala tinha os químicos necessários para serem adicionados aos outros que nós conhecíamos…
Jorge C. Chora
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
O perfume
Colocou uma gota de perfume no seu delgado pescoço. A reacção foi imediata: a sua pituitária ofendeu-se, o nariz quase se enrugou, e os poucos pêlos que existiam no seu corpo eriçaram-se-lhe.
Arrepiada com o que lhe estava a acontecer, ainda nessa tarde se desfez do fedorento líquido, oferecendo-o a uma amiga que por acaso fazia anos nesse dia.
Mil vezes agradecida lhe ficou a amiga, seduzida pela elegante embalagem que era, só por si, uma obra de arte, algo”retro”, definitivamente muito chique.
O pior estava para vir. Ao chegar a casa, inspirou, sôfrega, o “divino” aroma. Só por milagre não morreu ali mesmo, gaseada pelo terrível perfume, servido na bela embalagem que a levara ao engano.
O desagrado foi tamanho, que ainda hoje qualquer situação profundamente desagradável, tem aquele odor.
E então o que aconteceu ao frasco? Foi pela pia abaixo, dirão os mais bem-intencionados. Nada disso… a história ainda não terminou …
Combalida com o ataque nasal a que fora submetida, logo ali decidiu reagir, e fê-lo também no dia de anos da pessoa que lhe oferecera a prenda.
A oferta era acompanhada por um bilhetinho que rezava assim: Gostei tanto do perfume que me deste que acabei por te comprar um igual.
P.S.- Adquiri-o numa promoção e por isso não aceitam devoluções. Achas que há algum problema?
O bilhete, devido à proximidade do Natal, tinha estampado um querubim.
Jorge C. Chora
Arrepiada com o que lhe estava a acontecer, ainda nessa tarde se desfez do fedorento líquido, oferecendo-o a uma amiga que por acaso fazia anos nesse dia.
Mil vezes agradecida lhe ficou a amiga, seduzida pela elegante embalagem que era, só por si, uma obra de arte, algo”retro”, definitivamente muito chique.
O pior estava para vir. Ao chegar a casa, inspirou, sôfrega, o “divino” aroma. Só por milagre não morreu ali mesmo, gaseada pelo terrível perfume, servido na bela embalagem que a levara ao engano.
O desagrado foi tamanho, que ainda hoje qualquer situação profundamente desagradável, tem aquele odor.
E então o que aconteceu ao frasco? Foi pela pia abaixo, dirão os mais bem-intencionados. Nada disso… a história ainda não terminou …
Combalida com o ataque nasal a que fora submetida, logo ali decidiu reagir, e fê-lo também no dia de anos da pessoa que lhe oferecera a prenda.
A oferta era acompanhada por um bilhetinho que rezava assim: Gostei tanto do perfume que me deste que acabei por te comprar um igual.
P.S.- Adquiri-o numa promoção e por isso não aceitam devoluções. Achas que há algum problema?
O bilhete, devido à proximidade do Natal, tinha estampado um querubim.
Jorge C. Chora
sábado, 16 de outubro de 2010
Os sócios
A moeda projectada ao ar, rodopiava e cintilava, açoitada pelos raios solares. Mal tocava a palma da mão era de novo reenviada a cerca de trinta, quarenta centímetros.
Este vai e vem contínuo de arremessos e quedas, era seguido pelo olhar do João, à porta da sua loja. Andava furibundo com o facto de há dois meses não ouvir o tilintar de nenhuma moeda na sua caixa registadora. Maldizia a vida, o negócio, os impostos, a fedorenta crise e as medidas que contra, ou a favor dela, sabia lá ele, se tomavam.
Sentia crescer em si uma raiva ao ver aquele” arrumador”, arrumador uma ova, um”carocho”, um saca - moedas, um perna ágil ao aparecer a voar junto das viaturas já estacionadas sem qualquer intervenção da sua parte “ a brincar com a moeda de dois euros. O lugar da moeda era na sua caixa registadora.
Há dois meses que gastava os seus parcos recursos bancários. As idas ao banco destinavam-se a levantar, levantar e tornar a levantar. Jurara a si próprio abolir este verbo do seu vocabulário. O problema era que mesmo que recusasse conjugá-lo, o modo imperativo se lhe impunha de tal modo que o reduzia à ínfima potência: obedecer sem alternativa.
Estava nesta irritação, o seu olhar acompanhando a trajectória da moeda, alternando com o fuzilamento do “carocho” , quando este deixou escapar a moeda e ela se enfiou entre as grades do esgoto da rua. O homem encolheu os ombros e seguiu o seu caminho.
João, abespinhado, de testa franzida, berrou-lhe:
-Brincar com o dinheiro é o que dá!
-O dinheiro é meu… -replicou um tanto surpreso o arrumador.
-O problema é mesmo esse… é ser seu…
-Ó amigo se tem tanta falta dele, podemos ser sócios…
-Sócios? Em quê? – questionou, com os sentidos alerta.
-Estes lugares à frente da sua loja… podemos reservá-los com uns caixotes seus e depois dividirmos os lucros…
João, em milésimos de segundo, visionou o movimento, fez contas, dividiu e, em simultâneo, falou com sabedoria negocial:
-Sócio, para mostrar a sua boa fé, façamos já a divisão dos lucros apurados nesta manhã. Quanto à moeda caída, não se preocupe … é só menos uma.
Jorge C. Chora
Este vai e vem contínuo de arremessos e quedas, era seguido pelo olhar do João, à porta da sua loja. Andava furibundo com o facto de há dois meses não ouvir o tilintar de nenhuma moeda na sua caixa registadora. Maldizia a vida, o negócio, os impostos, a fedorenta crise e as medidas que contra, ou a favor dela, sabia lá ele, se tomavam.
Sentia crescer em si uma raiva ao ver aquele” arrumador”, arrumador uma ova, um”carocho”, um saca - moedas, um perna ágil ao aparecer a voar junto das viaturas já estacionadas sem qualquer intervenção da sua parte “ a brincar com a moeda de dois euros. O lugar da moeda era na sua caixa registadora.
Há dois meses que gastava os seus parcos recursos bancários. As idas ao banco destinavam-se a levantar, levantar e tornar a levantar. Jurara a si próprio abolir este verbo do seu vocabulário. O problema era que mesmo que recusasse conjugá-lo, o modo imperativo se lhe impunha de tal modo que o reduzia à ínfima potência: obedecer sem alternativa.
Estava nesta irritação, o seu olhar acompanhando a trajectória da moeda, alternando com o fuzilamento do “carocho” , quando este deixou escapar a moeda e ela se enfiou entre as grades do esgoto da rua. O homem encolheu os ombros e seguiu o seu caminho.
João, abespinhado, de testa franzida, berrou-lhe:
-Brincar com o dinheiro é o que dá!
-O dinheiro é meu… -replicou um tanto surpreso o arrumador.
-O problema é mesmo esse… é ser seu…
-Ó amigo se tem tanta falta dele, podemos ser sócios…
-Sócios? Em quê? – questionou, com os sentidos alerta.
-Estes lugares à frente da sua loja… podemos reservá-los com uns caixotes seus e depois dividirmos os lucros…
João, em milésimos de segundo, visionou o movimento, fez contas, dividiu e, em simultâneo, falou com sabedoria negocial:
-Sócio, para mostrar a sua boa fé, façamos já a divisão dos lucros apurados nesta manhã. Quanto à moeda caída, não se preocupe … é só menos uma.
Jorge C. Chora
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
O "Estupor"
Entrou no jardim afivelando um sorriso cândido e carregando a máscara da simplicidade. A cabeça assemelhava-se a um cata-vento, tantos eram os cumprimentos dispensados à direita e à esquerda.
- Que encanto de homem… - comentou uma senhora ainda jovem.
- Falas de quem? - perguntaram-lhe as amigas – será do” Estupor”?
- Estão enganadas! Falo daquele homem que ali vai …
-Pois sim…é mesmo ele – reafirmaram.
Várias senhoras idosas, numa genuína aflição, rebuscavam os jardins, espreitando em todos os seus recantos, afastando as flores dos canteiros e chamando:
-Vivi…Vivi… onde te meteste …anda, vem… tenho aqui a tua capinha… - chamava a dona, em cuidados.
-Vivi…Vivi … - repetiam, como se fossem o eco, as amigas tremendo de emoção com o desaparecimento da pequena cadela.
-Quem viu a Vivizinha? Digam-me, por favor, se a viram… - pedia em pânico a velha senhora, privada da sua companhia de todas as horas.
Nisto surge um enorme cão, que mesmo sem rosnar infundia pavor, que olha sobranceiro para a multidão concentrada no jardim.
-Minhas senhoras, eu estava a evitar dar-lhes a notícia… - diz a medo o “Estupor.”
-Diga, não se acanhe… -incentivaram as senhoras.
-Está-me a custar dizer-lhes…
Depois de muito insistirem, o homem disse:
-Quando vinha a entrar, vi uma cena horrorosa…esse gigante que aqui está, engoliu um cãozinho…neste caso, uma cadelinha, como acabo de saber…
A dona da engolida, avançou de sombrinha em riste, direitinha ao monstro guloso, com uma sanha assassina.
Como um foguetão, saiu do canteiro a Vivi, que se colocou de permeio, defendendo o feríssimo gigante inocente, da fúria da sua dona.
E o grupo da jovem e das suas amigas, empunharam as suas respectivas sombrinhas e gritaram em uníssono:
-Anda cá “Estupor”…
Jorge C. Chora
- Que encanto de homem… - comentou uma senhora ainda jovem.
- Falas de quem? - perguntaram-lhe as amigas – será do” Estupor”?
- Estão enganadas! Falo daquele homem que ali vai …
-Pois sim…é mesmo ele – reafirmaram.
Várias senhoras idosas, numa genuína aflição, rebuscavam os jardins, espreitando em todos os seus recantos, afastando as flores dos canteiros e chamando:
-Vivi…Vivi… onde te meteste …anda, vem… tenho aqui a tua capinha… - chamava a dona, em cuidados.
-Vivi…Vivi … - repetiam, como se fossem o eco, as amigas tremendo de emoção com o desaparecimento da pequena cadela.
-Quem viu a Vivizinha? Digam-me, por favor, se a viram… - pedia em pânico a velha senhora, privada da sua companhia de todas as horas.
Nisto surge um enorme cão, que mesmo sem rosnar infundia pavor, que olha sobranceiro para a multidão concentrada no jardim.
-Minhas senhoras, eu estava a evitar dar-lhes a notícia… - diz a medo o “Estupor.”
-Diga, não se acanhe… -incentivaram as senhoras.
-Está-me a custar dizer-lhes…
Depois de muito insistirem, o homem disse:
-Quando vinha a entrar, vi uma cena horrorosa…esse gigante que aqui está, engoliu um cãozinho…neste caso, uma cadelinha, como acabo de saber…
A dona da engolida, avançou de sombrinha em riste, direitinha ao monstro guloso, com uma sanha assassina.
Como um foguetão, saiu do canteiro a Vivi, que se colocou de permeio, defendendo o feríssimo gigante inocente, da fúria da sua dona.
E o grupo da jovem e das suas amigas, empunharam as suas respectivas sombrinhas e gritaram em uníssono:
-Anda cá “Estupor”…
Jorge C. Chora
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
O melhor marido do mundo
Sorriso alegre, anafada e de face luzidia, olhos risonhos, de cotovelos em cima do balcão do café, lançou alto e em bom som a seguinte declaração:
-Tenho o melhor marido do mundo!
Entreolharam-se os presentes um tanto ou quanto surpreendidos. Elas mais do que eles.
-Felizarda!- comentaram as mais invejosas, cobiçando-lhe a sorte que lhes fora negada.
-Hum…hum… -pronunciaram-se as mais desconfiadas – ou ela é cega ou o marido está prestes a pregar-lhe alguma…
Outras, as melhor casadas, caíram em si, prontas a efectuarem o “mea culpa”, reconhecendo que nunca tinham tido a coragem de admitirem em público o quanto tinham sido bafejadas pela sorte dos maridos que lhes tinham cabido na rifa.
Eles, deliciados, exclamam:
-A senhora é um exemplo para as nossas mulheres!
Ia a “coisa” neste pé quando a empregada do café, lança uma sonora gargalhada e diz:
- E desde quando é que a D. Manuela é casada?
-Ó minha linda, se o fosse perdia a oportunidade de fazer estas afirmações pomposas! – e sufocava de riso com as reacções que despertara.
Ao lado, com caras de quem comeu e não gostou, vários senhores concluem:
-Azedumes de solteironas …
Jorge C. Chora
-Tenho o melhor marido do mundo!
Entreolharam-se os presentes um tanto ou quanto surpreendidos. Elas mais do que eles.
-Felizarda!- comentaram as mais invejosas, cobiçando-lhe a sorte que lhes fora negada.
-Hum…hum… -pronunciaram-se as mais desconfiadas – ou ela é cega ou o marido está prestes a pregar-lhe alguma…
Outras, as melhor casadas, caíram em si, prontas a efectuarem o “mea culpa”, reconhecendo que nunca tinham tido a coragem de admitirem em público o quanto tinham sido bafejadas pela sorte dos maridos que lhes tinham cabido na rifa.
Eles, deliciados, exclamam:
-A senhora é um exemplo para as nossas mulheres!
Ia a “coisa” neste pé quando a empregada do café, lança uma sonora gargalhada e diz:
- E desde quando é que a D. Manuela é casada?
-Ó minha linda, se o fosse perdia a oportunidade de fazer estas afirmações pomposas! – e sufocava de riso com as reacções que despertara.
Ao lado, com caras de quem comeu e não gostou, vários senhores concluem:
-Azedumes de solteironas …
Jorge C. Chora
terça-feira, 21 de setembro de 2010
O boneco zarolho
Olhavam e tornavam a olhar para o interior do “ stand”. Aproximavam-se e afastavam-se de modo rápido. Tal como abelhas, esvoaçavam em torno da colmeia, hipnotizados, encadeados, incapazes de se libertarem dos objectos do seu desejo.
A cobiça brilhava nos seus olhos miúdos, saltitando dos lápis para os blocos de papel, passando pelos pequenos bonecos e terminando sabe-se lá em quê. Os gaiatos esfregavam as mãos. Se conseguissem deitar a mão a qualquer coisa: era preciso que fosse uma coisa.
D. Manuela já os tinha topado. Topava-os à légua. Sorriu-lhes e perguntou-lhes:
-Querem escolher algum boneco?
Entreolharam-se.
-E podemos?
-Claro… - e a senhora agarrou em dois pirilampos mágicos e ofereceu-lhos.
-Mas este não tem um olho - reclamou furioso o mais velho.
-Se não tem um olho, então é zarolho… - concluiu a senhora.
-Pois é… - concordou torcendo o nariz.
-Pior era ser cego, não ter olhos … - disse o mais novo.
-Claro, por esse caminho devo estar todo contente por não ser perneta…
-Nem maneta… - tornou o mais novo.
-Bom …zarolho, perneta, maneta, cegueta…a conversa já vai longa, quero o livro de reclamações, porque com tanta deficiência, como posso ficar com ele? Quero de volta o dinheiro que dei por ele.
-Quantos olhos tenho? - perguntou cheia de paciência D. Manuela.
-Dois…
-E acham que eu sou cegueta?
-Quem sabe… - responderam com ar de gozo.
-Então se é possível ser cega com dois olhos, tanto faz ter dois olhos como um ou mesmo nenhum…
-Tem razão. Mais vale ser zarolho do que cegueta de todo. Levo o boneco. – faça-me um embrulho, se não se importa.
Jorge C. Chora
A cobiça brilhava nos seus olhos miúdos, saltitando dos lápis para os blocos de papel, passando pelos pequenos bonecos e terminando sabe-se lá em quê. Os gaiatos esfregavam as mãos. Se conseguissem deitar a mão a qualquer coisa: era preciso que fosse uma coisa.
D. Manuela já os tinha topado. Topava-os à légua. Sorriu-lhes e perguntou-lhes:
-Querem escolher algum boneco?
Entreolharam-se.
-E podemos?
-Claro… - e a senhora agarrou em dois pirilampos mágicos e ofereceu-lhos.
-Mas este não tem um olho - reclamou furioso o mais velho.
-Se não tem um olho, então é zarolho… - concluiu a senhora.
-Pois é… - concordou torcendo o nariz.
-Pior era ser cego, não ter olhos … - disse o mais novo.
-Claro, por esse caminho devo estar todo contente por não ser perneta…
-Nem maneta… - tornou o mais novo.
-Bom …zarolho, perneta, maneta, cegueta…a conversa já vai longa, quero o livro de reclamações, porque com tanta deficiência, como posso ficar com ele? Quero de volta o dinheiro que dei por ele.
-Quantos olhos tenho? - perguntou cheia de paciência D. Manuela.
-Dois…
-E acham que eu sou cegueta?
-Quem sabe… - responderam com ar de gozo.
-Então se é possível ser cega com dois olhos, tanto faz ter dois olhos como um ou mesmo nenhum…
-Tem razão. Mais vale ser zarolho do que cegueta de todo. Levo o boneco. – faça-me um embrulho, se não se importa.
Jorge C. Chora
Subscrever:
Mensagens (Atom)
