O seu pai era pianista e a mãe guitarrista. Bom, nem sempre foi assim: umas vezes trocavam e a mãe ficava ao piano e o pai à guitarra.
Filho de quem era, alcunharam-no, logo à nascença, de Manitas d`Oiro. Nem outra coisa se admitiu ou se poderia colocar como hipótese, até porque os avós de ambos os lados se dedicavam, como amadores, à música.
Credenciais com este peso poucos as podiam apresentar e vai daí a atribuição deste nome, que à partida coroaria um artista de eleição, no fim da carreira.
Manitas fez jus ao nome e às esperanças que nele depositaram? Sim e não. Mau. Parece que temos discurso político! Fez ou não fez?
Os anos correram lentos, arrastados, direi mesmo, de modo penoso:
-Manitas vai estudar… - ordenavam os pais.
-Sim …vou já… -e as horas passavam -se sem que ele se mexesse.
Alvo da chacota de colegas da mesma idade, dos mais velhos e, espantem-se, dos mais novos, torturavam -no sempre que podiam:
-Ó Manitas quando nos mostras o oiro?
-Ó Manitas dá-me o oiro…
-Ó Manitas já roubaste o oiro?
-Ó Manitas…. - e diziam-lhe o que lhes vinha à cabeça.
Manitas respondia -lhes à letra ,mas com uma bonomia tal, que quase os incentivava a continuar.
A descrença nas suas capacidades foi-se agudizando à medida que o tempo passava. Ele não tinha sucesso nos estudos ,para a música era uma negação, para o desporto nem se fala.
Passou a Coitado. O Coitado isto, aquilo e aqueloutro…
Um belo dia pediu aos pais dinheiro para se inscrever num curso. Deram-lho sem sequer perguntarem qual era.
Ia às aulas, trancava-se no quarto e estudava .Só aos pais disse que pretendia ser massagista e estes apoiaram-no.
Estabeleceu-se e a sua “arte” foi sendo elogiada e reconhecida. Hoje, os que o conhecem, recomendam-no a quem tem dores:
-Só O Manitas d`Oiro te pode livrar disso!
Caso o caro leitor estivesse à espera de um desfecho miserabilista, de acordo com os tempos que correm, desengane-se: ainda pode haver histórias de sucesso. Não acredita? Vá buscar uma lupa, muna-se de um potente foco e procure. Caso não encontre, é porque não o fez de acordo com as regras. Quais regras? Bom, aí é que a porca torce o rabo…mas que as há …
Jorge C. Chora
sexta-feira, 21 de maio de 2010
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Que azar!
A festa foi pantagruélica. Os convites foram entregues, com a devida antecedência, às figuras gradas do povoado.
A vaca era desmesurada, tenra, suculenta. O espeto em que foi assada teve de ser feito.
Prepará-la foi o cabo dos trabalhos, tendo de ser chamados especialistas para o efeito.
Durante dias banquetearam-se, até enjoarem o pitéu, e concluírem que não conseguiam comê-la toda.
Reuniram-se e decidiram que mais valia partilhar o que sobrava ou tinham de deitar fora o que ainda havia.
As portas do recinto da festa foram abertas de par em par. As pessoas acotovelavam-se, desconfiadas de que o pouco que ainda havia não dava para todos.
A desconfiança era justificada. Alguns felizardos conseguiram, com recurso a empurrões, caneladas e sopapos, afastar os famélicos concorrentes.
Uns gramas de carne e fortes dores nas glândulas salivares foram o que conseguiram.
Mal a festa acabou, os vendedores da vaca apresentaram uma conta astronómica, justificada pela qualidade da vaca, pela forma como fora alimentada, pelas mordomias que lhe tinham sido prodigalizadas: passeios, massagens à japonesa para que a carne fosse tenra, cerveja misturada nos alimentos…
Reuniram-se de novo e decidiram, devido ao preço a pagar, que por uma questão de equidade, todos os habitantes do povoado deviam participar no esforço de pagamento.
Os que nem sequer tinham cheirado a vaca rebelaram-se:
-Que história é essa?
- Vivemos em comunidade, logo temos de fazer um esforço colectivo! - gritaram exacerbadas as figuras gradas.
-Vocês comem e nós é que temos a indigestão? – escandalizaram-se os deserdados do pitéu.
O pior é que, anos a fio, a cena se repetiu e as despesas a dividir foram cada vez maiores.
Hoje, o povo apresentou na assembleia municipal uma proposta para a alteração do nome do povoado: Tresanda a vaca!
Jorge C. Chora
A vaca era desmesurada, tenra, suculenta. O espeto em que foi assada teve de ser feito.
Prepará-la foi o cabo dos trabalhos, tendo de ser chamados especialistas para o efeito.
Durante dias banquetearam-se, até enjoarem o pitéu, e concluírem que não conseguiam comê-la toda.
Reuniram-se e decidiram que mais valia partilhar o que sobrava ou tinham de deitar fora o que ainda havia.
As portas do recinto da festa foram abertas de par em par. As pessoas acotovelavam-se, desconfiadas de que o pouco que ainda havia não dava para todos.
A desconfiança era justificada. Alguns felizardos conseguiram, com recurso a empurrões, caneladas e sopapos, afastar os famélicos concorrentes.
Uns gramas de carne e fortes dores nas glândulas salivares foram o que conseguiram.
Mal a festa acabou, os vendedores da vaca apresentaram uma conta astronómica, justificada pela qualidade da vaca, pela forma como fora alimentada, pelas mordomias que lhe tinham sido prodigalizadas: passeios, massagens à japonesa para que a carne fosse tenra, cerveja misturada nos alimentos…
Reuniram-se de novo e decidiram, devido ao preço a pagar, que por uma questão de equidade, todos os habitantes do povoado deviam participar no esforço de pagamento.
Os que nem sequer tinham cheirado a vaca rebelaram-se:
-Que história é essa?
- Vivemos em comunidade, logo temos de fazer um esforço colectivo! - gritaram exacerbadas as figuras gradas.
-Vocês comem e nós é que temos a indigestão? – escandalizaram-se os deserdados do pitéu.
O pior é que, anos a fio, a cena se repetiu e as despesas a dividir foram cada vez maiores.
Hoje, o povo apresentou na assembleia municipal uma proposta para a alteração do nome do povoado: Tresanda a vaca!
Jorge C. Chora
sábado, 8 de maio de 2010
O remédio do Mindo
Mindo é homem de muitas viagens. Viajou e trabalhou a bordo dos navios nórdicos. Serviu no bar, aturou este mundo e o outro, viu e calou muita coisa. Entre Cabo Verde, os países do Norte da Europa e o resto do mundo foi ganhando calo e uma filosofia própria e adequada a cada um e às circunstâncias.
Em terra ao fim de uns anos, montou um bar. Sabe com rigor o que os clientes querem.
Atrás do balcão vê um patrício seu .Como é evidente, sabe o que ele deseja, e dá-lhe conversa:
-Está um vento que até nos põe a cabeça zonza …
-É verdade… tem aí o remédio?
-Claro - responde Mindo enquanto agarra no garrafão de grogue, que lhe escorrega da mão, mas logo consegue agarrá-lo com firmeza.
Enquanto isto se passou, a clientela repreendeu-o:
-Bô (você) tem de ter cuidado…
-Dá cá mais um antes que partas…e não fique nenhum…
Mindo volta ao ataque:
-Então e você compadre está melhor dos dentes?
-Nem por isso Mindo. Um grogue daquele para melhorar.
Dá um relance pela pequena sala. Está tudo nos conformes. Zé do gorgomilo alto,bochecha e dirige-se à porta , faz menção de deitar fora o grogue com que diz estar a desinfectar a garganta: o chão está mais seco do que o da ilha do Mindo.
No canto esquerdo da sala, está sentado oTreme-Treme,que está sempre com frio e ordena:
-Mindo, o meu copo está vazio…
-Estou a caminho…
Ao som da “sodade” de Cesária Évora, a clientela vai-se meneando e escorropichando
grogues. Exige que Mindo beba também um.
-Como não estou doente bebo à saúde e às melhoras de todos - e tira de baixo do balcão um copo,supostamente de grogue, previamente cheio de água, que bebe de um gole, e estala a língua com satisfação,enquanto diz - ah! grande remédio!
Jorge C. Chora
Em terra ao fim de uns anos, montou um bar. Sabe com rigor o que os clientes querem.
Atrás do balcão vê um patrício seu .Como é evidente, sabe o que ele deseja, e dá-lhe conversa:
-Está um vento que até nos põe a cabeça zonza …
-É verdade… tem aí o remédio?
-Claro - responde Mindo enquanto agarra no garrafão de grogue, que lhe escorrega da mão, mas logo consegue agarrá-lo com firmeza.
Enquanto isto se passou, a clientela repreendeu-o:
-Bô (você) tem de ter cuidado…
-Dá cá mais um antes que partas…e não fique nenhum…
Mindo volta ao ataque:
-Então e você compadre está melhor dos dentes?
-Nem por isso Mindo. Um grogue daquele para melhorar.
Dá um relance pela pequena sala. Está tudo nos conformes. Zé do gorgomilo alto,bochecha e dirige-se à porta , faz menção de deitar fora o grogue com que diz estar a desinfectar a garganta: o chão está mais seco do que o da ilha do Mindo.
No canto esquerdo da sala, está sentado oTreme-Treme,que está sempre com frio e ordena:
-Mindo, o meu copo está vazio…
-Estou a caminho…
Ao som da “sodade” de Cesária Évora, a clientela vai-se meneando e escorropichando
grogues. Exige que Mindo beba também um.
-Como não estou doente bebo à saúde e às melhoras de todos - e tira de baixo do balcão um copo,supostamente de grogue, previamente cheio de água, que bebe de um gole, e estala a língua com satisfação,enquanto diz - ah! grande remédio!
Jorge C. Chora
quinta-feira, 6 de maio de 2010
O Capeta envergonhado
Ninguém sabe ao certo quem o homem é. O que se sabe, e isso todos o afiançam, é que ele é como o fado: nasceu sabe-se lá onde, se em África ou no Brasil, suspeita-se também de que numa rua de Alfama, de uma mulher vivida e falada. Certeza, certezinha, é que vive cá, que aqui se fez e se faz.
Cresceu sem eira nem beira e especializou-se nas trapalhices de todo o género. Aprendeu o que não devia e irmanou-se ao desenrascanço. Não anda, desliza, ginga como um bailarino, serpenteia como uma surucucu e dá o bote quando menos se espera.
Esperam-no na feira da Ladra. Tem dívidas. Um ror delas, contraídas ao jogo, em farras e actividades pouco recomendáveis.
-As dívidas são sagradas…- ameaça de sobrolho franzido o Capeta- em representação do chefe.
- Verdade mais sólida e incontestável não há… dívidas são dívidas, são sagradas, nunca falaste tão bem… - respondeu-lhe o Maganão maneando as ancas, como um pugilista preste a atacar o adversário.
- Então vens para acertar as contas…não era sem tempo… - fungou, sobranceiro.
- Venho propor-te um jogo. Caso ganhes, fico a dever-te o dobro. Se eu ganhar, fico com a dívida paga…
- O chefe não aceita jogos…
-Mas ó chefe… neste momento o chefe és tu… estás é com medo dele … - arriscou o devedor.
- Medo? – e o Capeta, inchou o peito e concluiu - é coisa que nunca tive…
A mesa de jogo foi improvisada em cima de um caixote. Ainda o discípulo do demo não tivera tempo de piscar um olho e as cartas viciadas do Maganão ditaram-lhe não uma, nem duas, mas precisamente três derrotas.
Pediu a desforra e o Maganão, liberal, destilando mais veneno que a surucucu de quem era irmão, concedeu-lha:
-É um direito de quem perde, ter a possibilidade de desforra.
Seguiram-se mais duas derrotas do Capeta. O Maganão atirou-lhe:
-As dívidas são sagradas… tens uma semana para me pagares. Caso não me pagues, os juros serão diários…
Há quem tenha visto o Capeta a sair da igreja e tenha escutado o seu pedido ao Senhor:
- Peço-te, Senhor, que me reconduzas ao estatuto de anjinho … mais merecedor do que eu não há …
Jorge C. Chora
Cresceu sem eira nem beira e especializou-se nas trapalhices de todo o género. Aprendeu o que não devia e irmanou-se ao desenrascanço. Não anda, desliza, ginga como um bailarino, serpenteia como uma surucucu e dá o bote quando menos se espera.
Esperam-no na feira da Ladra. Tem dívidas. Um ror delas, contraídas ao jogo, em farras e actividades pouco recomendáveis.
-As dívidas são sagradas…- ameaça de sobrolho franzido o Capeta- em representação do chefe.
- Verdade mais sólida e incontestável não há… dívidas são dívidas, são sagradas, nunca falaste tão bem… - respondeu-lhe o Maganão maneando as ancas, como um pugilista preste a atacar o adversário.
- Então vens para acertar as contas…não era sem tempo… - fungou, sobranceiro.
- Venho propor-te um jogo. Caso ganhes, fico a dever-te o dobro. Se eu ganhar, fico com a dívida paga…
- O chefe não aceita jogos…
-Mas ó chefe… neste momento o chefe és tu… estás é com medo dele … - arriscou o devedor.
- Medo? – e o Capeta, inchou o peito e concluiu - é coisa que nunca tive…
A mesa de jogo foi improvisada em cima de um caixote. Ainda o discípulo do demo não tivera tempo de piscar um olho e as cartas viciadas do Maganão ditaram-lhe não uma, nem duas, mas precisamente três derrotas.
Pediu a desforra e o Maganão, liberal, destilando mais veneno que a surucucu de quem era irmão, concedeu-lha:
-É um direito de quem perde, ter a possibilidade de desforra.
Seguiram-se mais duas derrotas do Capeta. O Maganão atirou-lhe:
-As dívidas são sagradas… tens uma semana para me pagares. Caso não me pagues, os juros serão diários…
Há quem tenha visto o Capeta a sair da igreja e tenha escutado o seu pedido ao Senhor:
- Peço-te, Senhor, que me reconduzas ao estatuto de anjinho … mais merecedor do que eu não há …
Jorge C. Chora
domingo, 25 de abril de 2010
A Fotografia
O que ela tinha de belo não compensava a prepotência de que era dotada. Pior ainda, era gostar de o ser, fazer gala em sê-lo.
Resolveu tirar uma fotografia e convidou um amigo para lhe fazer esse favor. O amigo não foi escolhido ao acaso. Experiente, era também um profissional de mão cheia e, aceitou fotografá-la, porque tinha um fraquinho por ela, ou melhor, uma enorme paixão e ela sabia -o.
Durante duas horas fez orelhas moucas aos pedidos do fotógrafo:
-Eu acho que fica muito melhor assim….-e colocava-se de modo diverso ao pedido -para logo de seguida assumir outra posição que nada tinha a ver com a solicitada.
O fotógrafo sorria, mas aos poucos a dor que sentia no rosto, pelo esforço dispendido a fingir sorrisos, ameaçava transformar-se num esgar de dor.
O sol escaldava. As tonturas apossavam-se do fotógrafo e o sorriso ia-se evaporando mas ela não se dava por satisfeita:
-E agora uma assim….- e colocava a mão direita em forma de cálice, como se fosse colher néctar do céu.
-Acaba com o meu sofrimento Senhor…-pedia o fotógrafo, com a expressão de dor de quem acaba de ser vítima de alguém que por maldade lhe agrafou a face.
De repente, três gaivotas que esvoaçavam no local, encetaram um voo picado e, sem falharem o alvo encheram-lhe a mão, que imitava um cálice, cheia de cocó.
-Aí que horror…que nojo!
O amigo, olhando para o céu de forma disfarçada, murmurou:
-Obrigado!
Juram todos os que estavam presentes que ribombou um trovão e por cima dele se fez ouvir uma voz inesquecível:
-De nada meu banana…
Jorge C. Chora
Resolveu tirar uma fotografia e convidou um amigo para lhe fazer esse favor. O amigo não foi escolhido ao acaso. Experiente, era também um profissional de mão cheia e, aceitou fotografá-la, porque tinha um fraquinho por ela, ou melhor, uma enorme paixão e ela sabia -o.
Durante duas horas fez orelhas moucas aos pedidos do fotógrafo:
-Eu acho que fica muito melhor assim….-e colocava-se de modo diverso ao pedido -para logo de seguida assumir outra posição que nada tinha a ver com a solicitada.
O fotógrafo sorria, mas aos poucos a dor que sentia no rosto, pelo esforço dispendido a fingir sorrisos, ameaçava transformar-se num esgar de dor.
O sol escaldava. As tonturas apossavam-se do fotógrafo e o sorriso ia-se evaporando mas ela não se dava por satisfeita:
-E agora uma assim….- e colocava a mão direita em forma de cálice, como se fosse colher néctar do céu.
-Acaba com o meu sofrimento Senhor…-pedia o fotógrafo, com a expressão de dor de quem acaba de ser vítima de alguém que por maldade lhe agrafou a face.
De repente, três gaivotas que esvoaçavam no local, encetaram um voo picado e, sem falharem o alvo encheram-lhe a mão, que imitava um cálice, cheia de cocó.
-Aí que horror…que nojo!
O amigo, olhando para o céu de forma disfarçada, murmurou:
-Obrigado!
Juram todos os que estavam presentes que ribombou um trovão e por cima dele se fez ouvir uma voz inesquecível:
-De nada meu banana…
Jorge C. Chora
segunda-feira, 19 de abril de 2010
A Pega Rabuda
Quando o sol incidia nas suas penas pretas, elas reflectiam uma paleta de azuis, verdes e vermelhos. Os mirones andavam em redor da gaiola, buscando captar-lhe toda a beleza. A pega abria as asas, espreguiçando-se de uma forma dengosa, expondo-se o mais possível, tirando partido do espectáculo dado pelas suas reluzentes penas.
Miúdos e graúdos juntavam-se em redor da gaiola. O dono sorria, olhava para a sua lucrativa pega rabuda e fazia-lhe sinais disfarçados: levantava o polegar direito (muito bem) e pouco depois o polegar esquerdo (continua).
A pega entendia tudo e dava-se ao luxo de lhe responder:
-Tchak tchak (sim) - e deixava que mais pessoas se juntassem para a ver.
Depois lançava outro sinal sonoro:
-Choc…Tchak ( é agora)
O proprietário chegava-se e colocava um cartaz na gaiola: Dá a liberdade à pega só por dez euros.
-O que é que o senhor quer dizer?
-Quero dizer que se fizerem uma recolha entre os que aqui estão, de 10 euros, eu dou a liberdade ao pássaro.
- Dá a liberdade? - surpreenderam-se uns quantos mirones.
-Sim…abro a gaiola e deixo-o fugir.
Logo que o peditório era feito a promessa era cumprida. A gaiola era aberta e o dono despedia-se da pega:
-Adeus minha linda…
E a pega, sem qualquer demora, abria as asas e voava para longe dali. Ia direitinha para casa, ou melhor, para a gaiola onde se encontravam outras pegas, na casa do seu dono.
O negócio ia de vento em popa. A pega era bem recompensada com insectos seleccionados e o dono tinha sempre aqueles dez euros garantidos com a artimanha.
A pega tornou-se, à medida que o tempo passava, cada vez mais conversadora e vaidosa.
Um belo dia, um jovem esperou pelo abrir da gaiola e quando a pega saiu, foi atraída por uma outra pega tão bela como ela, dentro de uma gaiola com a porta aberta.
Mal entrou ,deu pelo logro: não havia nenhum pássaro, mas somente um espelho.
-Tchak…rroach…choc (estou tramada) - lamentou -se.
-E eu também! - desabafou o ex-dono.
Jorge C. Chora
Miúdos e graúdos juntavam-se em redor da gaiola. O dono sorria, olhava para a sua lucrativa pega rabuda e fazia-lhe sinais disfarçados: levantava o polegar direito (muito bem) e pouco depois o polegar esquerdo (continua).
A pega entendia tudo e dava-se ao luxo de lhe responder:
-Tchak tchak (sim) - e deixava que mais pessoas se juntassem para a ver.
Depois lançava outro sinal sonoro:
-Choc…Tchak ( é agora)
O proprietário chegava-se e colocava um cartaz na gaiola: Dá a liberdade à pega só por dez euros.
-O que é que o senhor quer dizer?
-Quero dizer que se fizerem uma recolha entre os que aqui estão, de 10 euros, eu dou a liberdade ao pássaro.
- Dá a liberdade? - surpreenderam-se uns quantos mirones.
-Sim…abro a gaiola e deixo-o fugir.
Logo que o peditório era feito a promessa era cumprida. A gaiola era aberta e o dono despedia-se da pega:
-Adeus minha linda…
E a pega, sem qualquer demora, abria as asas e voava para longe dali. Ia direitinha para casa, ou melhor, para a gaiola onde se encontravam outras pegas, na casa do seu dono.
O negócio ia de vento em popa. A pega era bem recompensada com insectos seleccionados e o dono tinha sempre aqueles dez euros garantidos com a artimanha.
A pega tornou-se, à medida que o tempo passava, cada vez mais conversadora e vaidosa.
Um belo dia, um jovem esperou pelo abrir da gaiola e quando a pega saiu, foi atraída por uma outra pega tão bela como ela, dentro de uma gaiola com a porta aberta.
Mal entrou ,deu pelo logro: não havia nenhum pássaro, mas somente um espelho.
-Tchak…rroach…choc (estou tramada) - lamentou -se.
-E eu também! - desabafou o ex-dono.
Jorge C. Chora
segunda-feira, 12 de abril de 2010
O Baile da debutante
A rapariga via as horas a passarem e mostrava-se nervosa. Olhava para o relógio, de início espaçadamente, mas agora de minuto a minuto consultava-o, embora nem visse de facto as horas. De modo inconsciente, quanto mais olhava, sabia que menos tempo faltava para a hora de saída e esta ,de certo modo, chegaria mais cedo.
Os colegas observavam-na, mas evitavam perguntar-lhe a razão do nervosismo. Sabiam por experiência própria as respostas tortas que ela dava quando se enervava, ou estava com os” azeites”, como ela dizia.
Os colegas, mesmo sem quererem, tinham os olhos presos no vai e vem rápido que ela executava, de uma ponta à outra do balcão. Por fim até dava pulinhos.
Semelhante agitação não passou despercebida ao seu chefe que parou ostensivamente de trabalhar para a fitar.
Sentindo-se observada com aquela intensidade, ficou a roer-se por dentro, contendo uma resposta menos própria.
Faltavam ainda 5 minutos para a saída. Tinha de fazer das tripas coração para não pedir para sair. Sabia que se o fizesse, perderia o tempo e o feitio, para além de inviabilizarem o pedido ainda receberia um sermão sobre as suas obrigações e, mais grave do que isso, sairia mais tarde. Alturas houve em que chegaram a dar-lhe mais trabalho…
Calada durante os segundos que faltavam, explodiu à hora exacta da saída:
-Quem advinha para onde vou?
Ninguém ousou adivinhar.
-Vá digam… eu ajudo… vou ter aulas… aulas de?
O chefe, com um sorriso velhaco, diz, fingindo muito interesse pelas actividades da gaiata de dezoito anos:
-Talvez para as aulas de catequese…
A funcionária ia morrendo com uma apoplexia. Nunca lhe passou pela cabeça responder-lhe que ia ter a sua primeira aula de condução.
Os colegas ficaram siderados. O silêncio entrecortado da respiração colectiva e ofegante dos colegas, adensou o clima de tempestade preste a explodir.
A jovem vira-se para o chefe e diz-lhe ,com a maior calma:
-Se fosse o senhor a dá-las, não faltaria por nada deste mundo… - e faz uma vénia como se estivesse num baile de debutantes.
Jorge C. Chora
Os colegas observavam-na, mas evitavam perguntar-lhe a razão do nervosismo. Sabiam por experiência própria as respostas tortas que ela dava quando se enervava, ou estava com os” azeites”, como ela dizia.
Os colegas, mesmo sem quererem, tinham os olhos presos no vai e vem rápido que ela executava, de uma ponta à outra do balcão. Por fim até dava pulinhos.
Semelhante agitação não passou despercebida ao seu chefe que parou ostensivamente de trabalhar para a fitar.
Sentindo-se observada com aquela intensidade, ficou a roer-se por dentro, contendo uma resposta menos própria.
Faltavam ainda 5 minutos para a saída. Tinha de fazer das tripas coração para não pedir para sair. Sabia que se o fizesse, perderia o tempo e o feitio, para além de inviabilizarem o pedido ainda receberia um sermão sobre as suas obrigações e, mais grave do que isso, sairia mais tarde. Alturas houve em que chegaram a dar-lhe mais trabalho…
Calada durante os segundos que faltavam, explodiu à hora exacta da saída:
-Quem advinha para onde vou?
Ninguém ousou adivinhar.
-Vá digam… eu ajudo… vou ter aulas… aulas de?
O chefe, com um sorriso velhaco, diz, fingindo muito interesse pelas actividades da gaiata de dezoito anos:
-Talvez para as aulas de catequese…
A funcionária ia morrendo com uma apoplexia. Nunca lhe passou pela cabeça responder-lhe que ia ter a sua primeira aula de condução.
Os colegas ficaram siderados. O silêncio entrecortado da respiração colectiva e ofegante dos colegas, adensou o clima de tempestade preste a explodir.
A jovem vira-se para o chefe e diz-lhe ,com a maior calma:
-Se fosse o senhor a dá-las, não faltaria por nada deste mundo… - e faz uma vénia como se estivesse num baile de debutantes.
Jorge C. Chora
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