Colocou uma gota de perfume no seu delgado pescoço. A reacção foi imediata: a sua pituitária ofendeu-se, o nariz quase se enrugou, e os poucos pêlos que existiam no seu corpo eriçaram-se-lhe.
Arrepiada com o que lhe estava a acontecer, ainda nessa tarde se desfez do fedorento líquido, oferecendo-o a uma amiga que por acaso fazia anos nesse dia.
Mil vezes agradecida lhe ficou a amiga, seduzida pela elegante embalagem que era, só por si, uma obra de arte, algo”retro”, definitivamente muito chique.
O pior estava para vir. Ao chegar a casa, inspirou, sôfrega, o “divino” aroma. Só por milagre não morreu ali mesmo, gaseada pelo terrível perfume, servido na bela embalagem que a levara ao engano.
O desagrado foi tamanho, que ainda hoje qualquer situação profundamente desagradável, tem aquele odor.
E então o que aconteceu ao frasco? Foi pela pia abaixo, dirão os mais bem-intencionados. Nada disso… a história ainda não terminou …
Combalida com o ataque nasal a que fora submetida, logo ali decidiu reagir, e fê-lo também no dia de anos da pessoa que lhe oferecera a prenda.
A oferta era acompanhada por um bilhetinho que rezava assim: Gostei tanto do perfume que me deste que acabei por te comprar um igual.
P.S.- Adquiri-o numa promoção e por isso não aceitam devoluções. Achas que há algum problema?
O bilhete, devido à proximidade do Natal, tinha estampado um querubim.
Jorge C. Chora
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
sábado, 16 de outubro de 2010
Os sócios
A moeda projectada ao ar, rodopiava e cintilava, açoitada pelos raios solares. Mal tocava a palma da mão era de novo reenviada a cerca de trinta, quarenta centímetros.
Este vai e vem contínuo de arremessos e quedas, era seguido pelo olhar do João, à porta da sua loja. Andava furibundo com o facto de há dois meses não ouvir o tilintar de nenhuma moeda na sua caixa registadora. Maldizia a vida, o negócio, os impostos, a fedorenta crise e as medidas que contra, ou a favor dela, sabia lá ele, se tomavam.
Sentia crescer em si uma raiva ao ver aquele” arrumador”, arrumador uma ova, um”carocho”, um saca - moedas, um perna ágil ao aparecer a voar junto das viaturas já estacionadas sem qualquer intervenção da sua parte “ a brincar com a moeda de dois euros. O lugar da moeda era na sua caixa registadora.
Há dois meses que gastava os seus parcos recursos bancários. As idas ao banco destinavam-se a levantar, levantar e tornar a levantar. Jurara a si próprio abolir este verbo do seu vocabulário. O problema era que mesmo que recusasse conjugá-lo, o modo imperativo se lhe impunha de tal modo que o reduzia à ínfima potência: obedecer sem alternativa.
Estava nesta irritação, o seu olhar acompanhando a trajectória da moeda, alternando com o fuzilamento do “carocho” , quando este deixou escapar a moeda e ela se enfiou entre as grades do esgoto da rua. O homem encolheu os ombros e seguiu o seu caminho.
João, abespinhado, de testa franzida, berrou-lhe:
-Brincar com o dinheiro é o que dá!
-O dinheiro é meu… -replicou um tanto surpreso o arrumador.
-O problema é mesmo esse… é ser seu…
-Ó amigo se tem tanta falta dele, podemos ser sócios…
-Sócios? Em quê? – questionou, com os sentidos alerta.
-Estes lugares à frente da sua loja… podemos reservá-los com uns caixotes seus e depois dividirmos os lucros…
João, em milésimos de segundo, visionou o movimento, fez contas, dividiu e, em simultâneo, falou com sabedoria negocial:
-Sócio, para mostrar a sua boa fé, façamos já a divisão dos lucros apurados nesta manhã. Quanto à moeda caída, não se preocupe … é só menos uma.
Jorge C. Chora
Este vai e vem contínuo de arremessos e quedas, era seguido pelo olhar do João, à porta da sua loja. Andava furibundo com o facto de há dois meses não ouvir o tilintar de nenhuma moeda na sua caixa registadora. Maldizia a vida, o negócio, os impostos, a fedorenta crise e as medidas que contra, ou a favor dela, sabia lá ele, se tomavam.
Sentia crescer em si uma raiva ao ver aquele” arrumador”, arrumador uma ova, um”carocho”, um saca - moedas, um perna ágil ao aparecer a voar junto das viaturas já estacionadas sem qualquer intervenção da sua parte “ a brincar com a moeda de dois euros. O lugar da moeda era na sua caixa registadora.
Há dois meses que gastava os seus parcos recursos bancários. As idas ao banco destinavam-se a levantar, levantar e tornar a levantar. Jurara a si próprio abolir este verbo do seu vocabulário. O problema era que mesmo que recusasse conjugá-lo, o modo imperativo se lhe impunha de tal modo que o reduzia à ínfima potência: obedecer sem alternativa.
Estava nesta irritação, o seu olhar acompanhando a trajectória da moeda, alternando com o fuzilamento do “carocho” , quando este deixou escapar a moeda e ela se enfiou entre as grades do esgoto da rua. O homem encolheu os ombros e seguiu o seu caminho.
João, abespinhado, de testa franzida, berrou-lhe:
-Brincar com o dinheiro é o que dá!
-O dinheiro é meu… -replicou um tanto surpreso o arrumador.
-O problema é mesmo esse… é ser seu…
-Ó amigo se tem tanta falta dele, podemos ser sócios…
-Sócios? Em quê? – questionou, com os sentidos alerta.
-Estes lugares à frente da sua loja… podemos reservá-los com uns caixotes seus e depois dividirmos os lucros…
João, em milésimos de segundo, visionou o movimento, fez contas, dividiu e, em simultâneo, falou com sabedoria negocial:
-Sócio, para mostrar a sua boa fé, façamos já a divisão dos lucros apurados nesta manhã. Quanto à moeda caída, não se preocupe … é só menos uma.
Jorge C. Chora
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
O "Estupor"
Entrou no jardim afivelando um sorriso cândido e carregando a máscara da simplicidade. A cabeça assemelhava-se a um cata-vento, tantos eram os cumprimentos dispensados à direita e à esquerda.
- Que encanto de homem… - comentou uma senhora ainda jovem.
- Falas de quem? - perguntaram-lhe as amigas – será do” Estupor”?
- Estão enganadas! Falo daquele homem que ali vai …
-Pois sim…é mesmo ele – reafirmaram.
Várias senhoras idosas, numa genuína aflição, rebuscavam os jardins, espreitando em todos os seus recantos, afastando as flores dos canteiros e chamando:
-Vivi…Vivi… onde te meteste …anda, vem… tenho aqui a tua capinha… - chamava a dona, em cuidados.
-Vivi…Vivi … - repetiam, como se fossem o eco, as amigas tremendo de emoção com o desaparecimento da pequena cadela.
-Quem viu a Vivizinha? Digam-me, por favor, se a viram… - pedia em pânico a velha senhora, privada da sua companhia de todas as horas.
Nisto surge um enorme cão, que mesmo sem rosnar infundia pavor, que olha sobranceiro para a multidão concentrada no jardim.
-Minhas senhoras, eu estava a evitar dar-lhes a notícia… - diz a medo o “Estupor.”
-Diga, não se acanhe… -incentivaram as senhoras.
-Está-me a custar dizer-lhes…
Depois de muito insistirem, o homem disse:
-Quando vinha a entrar, vi uma cena horrorosa…esse gigante que aqui está, engoliu um cãozinho…neste caso, uma cadelinha, como acabo de saber…
A dona da engolida, avançou de sombrinha em riste, direitinha ao monstro guloso, com uma sanha assassina.
Como um foguetão, saiu do canteiro a Vivi, que se colocou de permeio, defendendo o feríssimo gigante inocente, da fúria da sua dona.
E o grupo da jovem e das suas amigas, empunharam as suas respectivas sombrinhas e gritaram em uníssono:
-Anda cá “Estupor”…
Jorge C. Chora
- Que encanto de homem… - comentou uma senhora ainda jovem.
- Falas de quem? - perguntaram-lhe as amigas – será do” Estupor”?
- Estão enganadas! Falo daquele homem que ali vai …
-Pois sim…é mesmo ele – reafirmaram.
Várias senhoras idosas, numa genuína aflição, rebuscavam os jardins, espreitando em todos os seus recantos, afastando as flores dos canteiros e chamando:
-Vivi…Vivi… onde te meteste …anda, vem… tenho aqui a tua capinha… - chamava a dona, em cuidados.
-Vivi…Vivi … - repetiam, como se fossem o eco, as amigas tremendo de emoção com o desaparecimento da pequena cadela.
-Quem viu a Vivizinha? Digam-me, por favor, se a viram… - pedia em pânico a velha senhora, privada da sua companhia de todas as horas.
Nisto surge um enorme cão, que mesmo sem rosnar infundia pavor, que olha sobranceiro para a multidão concentrada no jardim.
-Minhas senhoras, eu estava a evitar dar-lhes a notícia… - diz a medo o “Estupor.”
-Diga, não se acanhe… -incentivaram as senhoras.
-Está-me a custar dizer-lhes…
Depois de muito insistirem, o homem disse:
-Quando vinha a entrar, vi uma cena horrorosa…esse gigante que aqui está, engoliu um cãozinho…neste caso, uma cadelinha, como acabo de saber…
A dona da engolida, avançou de sombrinha em riste, direitinha ao monstro guloso, com uma sanha assassina.
Como um foguetão, saiu do canteiro a Vivi, que se colocou de permeio, defendendo o feríssimo gigante inocente, da fúria da sua dona.
E o grupo da jovem e das suas amigas, empunharam as suas respectivas sombrinhas e gritaram em uníssono:
-Anda cá “Estupor”…
Jorge C. Chora
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
O melhor marido do mundo
Sorriso alegre, anafada e de face luzidia, olhos risonhos, de cotovelos em cima do balcão do café, lançou alto e em bom som a seguinte declaração:
-Tenho o melhor marido do mundo!
Entreolharam-se os presentes um tanto ou quanto surpreendidos. Elas mais do que eles.
-Felizarda!- comentaram as mais invejosas, cobiçando-lhe a sorte que lhes fora negada.
-Hum…hum… -pronunciaram-se as mais desconfiadas – ou ela é cega ou o marido está prestes a pregar-lhe alguma…
Outras, as melhor casadas, caíram em si, prontas a efectuarem o “mea culpa”, reconhecendo que nunca tinham tido a coragem de admitirem em público o quanto tinham sido bafejadas pela sorte dos maridos que lhes tinham cabido na rifa.
Eles, deliciados, exclamam:
-A senhora é um exemplo para as nossas mulheres!
Ia a “coisa” neste pé quando a empregada do café, lança uma sonora gargalhada e diz:
- E desde quando é que a D. Manuela é casada?
-Ó minha linda, se o fosse perdia a oportunidade de fazer estas afirmações pomposas! – e sufocava de riso com as reacções que despertara.
Ao lado, com caras de quem comeu e não gostou, vários senhores concluem:
-Azedumes de solteironas …
Jorge C. Chora
-Tenho o melhor marido do mundo!
Entreolharam-se os presentes um tanto ou quanto surpreendidos. Elas mais do que eles.
-Felizarda!- comentaram as mais invejosas, cobiçando-lhe a sorte que lhes fora negada.
-Hum…hum… -pronunciaram-se as mais desconfiadas – ou ela é cega ou o marido está prestes a pregar-lhe alguma…
Outras, as melhor casadas, caíram em si, prontas a efectuarem o “mea culpa”, reconhecendo que nunca tinham tido a coragem de admitirem em público o quanto tinham sido bafejadas pela sorte dos maridos que lhes tinham cabido na rifa.
Eles, deliciados, exclamam:
-A senhora é um exemplo para as nossas mulheres!
Ia a “coisa” neste pé quando a empregada do café, lança uma sonora gargalhada e diz:
- E desde quando é que a D. Manuela é casada?
-Ó minha linda, se o fosse perdia a oportunidade de fazer estas afirmações pomposas! – e sufocava de riso com as reacções que despertara.
Ao lado, com caras de quem comeu e não gostou, vários senhores concluem:
-Azedumes de solteironas …
Jorge C. Chora
terça-feira, 21 de setembro de 2010
O boneco zarolho
Olhavam e tornavam a olhar para o interior do “ stand”. Aproximavam-se e afastavam-se de modo rápido. Tal como abelhas, esvoaçavam em torno da colmeia, hipnotizados, encadeados, incapazes de se libertarem dos objectos do seu desejo.
A cobiça brilhava nos seus olhos miúdos, saltitando dos lápis para os blocos de papel, passando pelos pequenos bonecos e terminando sabe-se lá em quê. Os gaiatos esfregavam as mãos. Se conseguissem deitar a mão a qualquer coisa: era preciso que fosse uma coisa.
D. Manuela já os tinha topado. Topava-os à légua. Sorriu-lhes e perguntou-lhes:
-Querem escolher algum boneco?
Entreolharam-se.
-E podemos?
-Claro… - e a senhora agarrou em dois pirilampos mágicos e ofereceu-lhos.
-Mas este não tem um olho - reclamou furioso o mais velho.
-Se não tem um olho, então é zarolho… - concluiu a senhora.
-Pois é… - concordou torcendo o nariz.
-Pior era ser cego, não ter olhos … - disse o mais novo.
-Claro, por esse caminho devo estar todo contente por não ser perneta…
-Nem maneta… - tornou o mais novo.
-Bom …zarolho, perneta, maneta, cegueta…a conversa já vai longa, quero o livro de reclamações, porque com tanta deficiência, como posso ficar com ele? Quero de volta o dinheiro que dei por ele.
-Quantos olhos tenho? - perguntou cheia de paciência D. Manuela.
-Dois…
-E acham que eu sou cegueta?
-Quem sabe… - responderam com ar de gozo.
-Então se é possível ser cega com dois olhos, tanto faz ter dois olhos como um ou mesmo nenhum…
-Tem razão. Mais vale ser zarolho do que cegueta de todo. Levo o boneco. – faça-me um embrulho, se não se importa.
Jorge C. Chora
A cobiça brilhava nos seus olhos miúdos, saltitando dos lápis para os blocos de papel, passando pelos pequenos bonecos e terminando sabe-se lá em quê. Os gaiatos esfregavam as mãos. Se conseguissem deitar a mão a qualquer coisa: era preciso que fosse uma coisa.
D. Manuela já os tinha topado. Topava-os à légua. Sorriu-lhes e perguntou-lhes:
-Querem escolher algum boneco?
Entreolharam-se.
-E podemos?
-Claro… - e a senhora agarrou em dois pirilampos mágicos e ofereceu-lhos.
-Mas este não tem um olho - reclamou furioso o mais velho.
-Se não tem um olho, então é zarolho… - concluiu a senhora.
-Pois é… - concordou torcendo o nariz.
-Pior era ser cego, não ter olhos … - disse o mais novo.
-Claro, por esse caminho devo estar todo contente por não ser perneta…
-Nem maneta… - tornou o mais novo.
-Bom …zarolho, perneta, maneta, cegueta…a conversa já vai longa, quero o livro de reclamações, porque com tanta deficiência, como posso ficar com ele? Quero de volta o dinheiro que dei por ele.
-Quantos olhos tenho? - perguntou cheia de paciência D. Manuela.
-Dois…
-E acham que eu sou cegueta?
-Quem sabe… - responderam com ar de gozo.
-Então se é possível ser cega com dois olhos, tanto faz ter dois olhos como um ou mesmo nenhum…
-Tem razão. Mais vale ser zarolho do que cegueta de todo. Levo o boneco. – faça-me um embrulho, se não se importa.
Jorge C. Chora
domingo, 19 de setembro de 2010
Bonito serviço
Uma travagem brusca e uma pequena derrapagem, seguida de uma grande nuvem de poeira assinalou o fim da viagem de autocarro.
Os passageiros saíram afogueados, bufando de calor, arrependidos do meio de transporte que tinham escolhido. Para cúmulo do azar, o ar condicionado tinha-se avariado, tinham tido um furo e ainda uma pequena avaria.
Os passageiros amontoaram-se em redor da bagageira do autocarro para recolherem as respectivas bagagens. À medida que elas eram retiradas os donos iam-nas identificando e levando.
Carla foi a última a receber a mala. Achou-a suja e envelhecida para uma mala que acabara de comprar na véspera. Acabou por não dar muita atenção ao assunto.
Em casa dos familiares onde se alojou, após os cumprimentos da praxe, juntaram-se todos em redor da mala para assistir à sua abertura, à espera dos presentes do costume.
Aberta a mala, os presentes não se contiveram:
-Louvado seja Deus!
-O que é que te está a acontecer?
-Que vergonha Carla!
Por mais que a visada tentasse explicar que a mala não lhe pertencia, ninguém a ouvia e repetiam:
-Louvado seja Deus!
-Bonito serviço…
Carla desistiu de explicar o que quer que fosse. À noite dirigiu-se ao mosteiro local e perguntou se podia falar ao padre que chegara na camioneta da tarde.
Mal se viram, o padre exclamou:
-Não queira saber o que me disseram, quando viram o hábito de freira da irmã, na mala…
-Posso imaginar, senhor padre …se posso…
E logo ali decidiram, depois de trocarem as malas, rezarem uma oração pelas asneiras que não disseram, mas pensaram, face aos problemas que tiveram de enfrentar.
Jorge C. Chora
Os passageiros saíram afogueados, bufando de calor, arrependidos do meio de transporte que tinham escolhido. Para cúmulo do azar, o ar condicionado tinha-se avariado, tinham tido um furo e ainda uma pequena avaria.
Os passageiros amontoaram-se em redor da bagageira do autocarro para recolherem as respectivas bagagens. À medida que elas eram retiradas os donos iam-nas identificando e levando.
Carla foi a última a receber a mala. Achou-a suja e envelhecida para uma mala que acabara de comprar na véspera. Acabou por não dar muita atenção ao assunto.
Em casa dos familiares onde se alojou, após os cumprimentos da praxe, juntaram-se todos em redor da mala para assistir à sua abertura, à espera dos presentes do costume.
Aberta a mala, os presentes não se contiveram:
-Louvado seja Deus!
-O que é que te está a acontecer?
-Que vergonha Carla!
Por mais que a visada tentasse explicar que a mala não lhe pertencia, ninguém a ouvia e repetiam:
-Louvado seja Deus!
-Bonito serviço…
Carla desistiu de explicar o que quer que fosse. À noite dirigiu-se ao mosteiro local e perguntou se podia falar ao padre que chegara na camioneta da tarde.
Mal se viram, o padre exclamou:
-Não queira saber o que me disseram, quando viram o hábito de freira da irmã, na mala…
-Posso imaginar, senhor padre …se posso…
E logo ali decidiram, depois de trocarem as malas, rezarem uma oração pelas asneiras que não disseram, mas pensaram, face aos problemas que tiveram de enfrentar.
Jorge C. Chora
domingo, 12 de setembro de 2010
Clara e o deus dos pés feios
Clara era jovem e bela mas detestava os seus pés. Passava horas a observá-los e achava-os feios. O serem pequenos era a único aspecto que lhe agradava.
Olhava para os dedos e considerava-os ossudos, magros, esqueléticos. Apreciava, de modo crítico, o peito do pé: demasiado alto para o seu gosto. Quanto a uma pequeníssima veia azul que se podia ver do lado direito do pé esquerdo, sofria como se de um defeito imenso se tratasse.
-Que horror! – exclamava, olhando de soslaio o pequeno risco azul que se assemelhava, na sua visão, a um rio caudaloso.
Um belo dia, quando ela molhava os pés no regato do bosque, o deus dos pés feios, ao ouvir os lamentos da jovem, parou e decidiu intervir:
-Posso ajudar-te?
A menina estremeceu. Não queria acreditar no que estava a ver. Diante de si estava uma criatura tão feia, mesmo tão feia, que duvidava da sua existência: Tinha uma barbicha pontiaguda, comprida, revirada para cima, no alto da cabeça dois chifres grandes. O tronco era comprido e os pés (louvado seja Deus!) eram de um bode!
-Mas quem és tu? – e esfregava os olhos, com receio de estar a ser vítima de uma brincadeira.
-Sou o deus dos pés feios. Habito os mesmos bosques que Pã, um antepassado meu, que era o deus dos bosques e dos rebanhos.Ele morou aqui há milhares de anos.
E a menina vaidosa, confidenciou – lhe o seu problema.
-Não acredito! Os teus pés são lindos! Os mais bonitos que alguma vez vi. Quem me dera que a minha mulher tivesse uns assim! - disse-lhe o descendente de Pã .
-Pois se queres, podes trocá-los com os da tua mulher.
Ainda mal acabara a frase e a troca dos pés tinha sido efectuada. Olhou-os assustada. Eram enormes, com joanetes, com os dedos retorcidos devido às artroses, com umas unhas grossas e escuras como garras. Arrepiou-se. Se o arrependimento matasse…
-Senhor, senhor…eu estava a brincar…
-Com isso não se brinca…quem dá e tira vai para o inferno…recuso-me a trocar a única coisa que a minha mulher tem agora de belo…
-Mas eu… - tentou defender-se, sem sucesso, a jovem.
-Não posso aceitar a única coisa que a menina tem agora de feio … - replicou o deus dos pés feios.
A menina agitou-se. Uma revolta enorme começou a apoderar-se de si. Deu uma volta sobre si própria, furiosa, com uma rapidez estonteante e, quando se preparava para falar, acordou ao bater com a cabeça na cama.
Olhou receosa para os seus pés. Continuavam a ser pequenos e lindos. Sentiu um grande alívio. Fora só um sonho. Jurou a si própria deixar-se de excessos de vaidade. Nesse preciso momento, o enorme cajado que o deus dos pés feios usava, caiu com estrondo ao chão.
Olhou em seu redor mas não viu vivalma. Só o cajado lá permanecia.
Terá sido um sonho?
Certo, certo, é que ninguém mais ouviu Clara queixar-se dos seus lindos pés.
Jorge C. Chora
Olhava para os dedos e considerava-os ossudos, magros, esqueléticos. Apreciava, de modo crítico, o peito do pé: demasiado alto para o seu gosto. Quanto a uma pequeníssima veia azul que se podia ver do lado direito do pé esquerdo, sofria como se de um defeito imenso se tratasse.
-Que horror! – exclamava, olhando de soslaio o pequeno risco azul que se assemelhava, na sua visão, a um rio caudaloso.
Um belo dia, quando ela molhava os pés no regato do bosque, o deus dos pés feios, ao ouvir os lamentos da jovem, parou e decidiu intervir:
-Posso ajudar-te?
A menina estremeceu. Não queria acreditar no que estava a ver. Diante de si estava uma criatura tão feia, mesmo tão feia, que duvidava da sua existência: Tinha uma barbicha pontiaguda, comprida, revirada para cima, no alto da cabeça dois chifres grandes. O tronco era comprido e os pés (louvado seja Deus!) eram de um bode!
-Mas quem és tu? – e esfregava os olhos, com receio de estar a ser vítima de uma brincadeira.
-Sou o deus dos pés feios. Habito os mesmos bosques que Pã, um antepassado meu, que era o deus dos bosques e dos rebanhos.Ele morou aqui há milhares de anos.
E a menina vaidosa, confidenciou – lhe o seu problema.
-Não acredito! Os teus pés são lindos! Os mais bonitos que alguma vez vi. Quem me dera que a minha mulher tivesse uns assim! - disse-lhe o descendente de Pã .
-Pois se queres, podes trocá-los com os da tua mulher.
Ainda mal acabara a frase e a troca dos pés tinha sido efectuada. Olhou-os assustada. Eram enormes, com joanetes, com os dedos retorcidos devido às artroses, com umas unhas grossas e escuras como garras. Arrepiou-se. Se o arrependimento matasse…
-Senhor, senhor…eu estava a brincar…
-Com isso não se brinca…quem dá e tira vai para o inferno…recuso-me a trocar a única coisa que a minha mulher tem agora de belo…
-Mas eu… - tentou defender-se, sem sucesso, a jovem.
-Não posso aceitar a única coisa que a menina tem agora de feio … - replicou o deus dos pés feios.
A menina agitou-se. Uma revolta enorme começou a apoderar-se de si. Deu uma volta sobre si própria, furiosa, com uma rapidez estonteante e, quando se preparava para falar, acordou ao bater com a cabeça na cama.
Olhou receosa para os seus pés. Continuavam a ser pequenos e lindos. Sentiu um grande alívio. Fora só um sonho. Jurou a si própria deixar-se de excessos de vaidade. Nesse preciso momento, o enorme cajado que o deus dos pés feios usava, caiu com estrondo ao chão.
Olhou em seu redor mas não viu vivalma. Só o cajado lá permanecia.
Terá sido um sonho?
Certo, certo, é que ninguém mais ouviu Clara queixar-se dos seus lindos pés.
Jorge C. Chora
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