sexta-feira, 4 de setembro de 2015

O MERCEEIRO E O CASMURRO

                                               
Quinze minutos antes de a mercearia abrir, já o velho Maurício estava à porta. Gostava de ser o primeiro a ser atendido. Podia escolher à vontade e apalpar a fruta antes de a comprar. É certo que ouvia reprimendas, todos os dias:

- O senhor Maurício não pode mexer na fruta…

E Maurício fazia-se de surdo e murmurava:

-Querias meu patife… tu apalpavas e eu comprava… -E logo em seguida, apanhava o pano com que o merceeiro puxava o lustro à fruta, e fingia que a limpava de novo, escolhendo aquela que mais lhe convinha.

O proprietário da loja acabou por desistir dos ralhetes, deixar de limpar a fruta e atribuir essa tarefa ao Maurício que, em troca do serviço, poderia escolher a melhor para si.

Quem quer ver Maurício feliz e contente, logo pela manhã, é vê-lo a puxar o lustro aos melões e a advertir a clientela:

-Nada de tocar na fruta…para isso estou cá eu…

E quando alguém não liga ao que diz, repreende-os:

-Para surdo, basto eu!

Jorge C. Chora




quarta-feira, 2 de setembro de 2015

A MENINA DA TRISTE FIGURA

                                                                                                
 Chamou-me hoje a atenção, na Amadora, uma condutora jovem com um ar triste, numa viatura pequena e velha, parada num sinal luminoso. Quase instintivamente, sorri-lhe.

A mulher olhou-me, fez uma cara feia, largou o volante e apressou-se a trancar o carro, tudo isto numa fracção de segundos. Primeiro achei graça, pois a resposta da jovem mulher a uma mensagem que pretendia ser de simpatia e compreensão, foi absolutamente inesperada. Depois, num relance muito rápido, verifiquei que ela era pequena, não devia nada à beleza, que o ar que eu identificara como tristeza, seria o reflexo de um interior pobre, preconceituoso e triste.

Que culpa tinha ela, se a vida a tornara assim? pensei, enquanto segui o meu caminho para a mercearia, por passeios com altos e baixos.

E foi assim que hoje, dia 1 de Setembro de 2015, perdi alguns segundos, com uma menina feia, triste e convencida de que o mundo girava à sua volta.


Jorge C. Chora

domingo, 30 de agosto de 2015

A SENHORA QUE BABAVA DESDÉM

                                                                                                                      

A senhora babava desdém: à sua volta ninguém lhe merecia consideração, ou porque não vestiam marcas de referência ou pura e simplesmente por não comprarem na Av. da Liberdade. A sua exigência contemplava as refeições tomadas em restaurantes de luxo e, mesmo dentro dessa categoria, poucos a satisfaziam plenamente.

Às terças levava a sua filha mais pequena a passear. Foi numa dessas ocasiões que se cruzou com uma conhecida que lhe louvou a filha:

-Mas que linda ela é! Uma autêntica princesa…

-Muito obrigado minha senhora…- respondeu-lhe a criança.

-E o que é que ela gostava de ser? -  perguntou, dirigindo-se à mãe, enquanto acariciava a cabeça à criança.

-“Ela” gostava de ser cabeleireira… -respondeu-lhe a miúda com um sorriso malévolo.

-Disparate…que disparate Ermelinda! Cabeleireira!? …Esta minha filha é uma brincalhona… 

-Deixa-te de brincadeiras e diz lá que é médica o que queres ser….

-Sim mamã, é o que tu dizes… -concedeu Ermelinda.

-E médica de quê? - inquiriu a senhora.

-Médica de linguarudas! - respondeu de rajada a gaiata.

E eis que a mãe, descalça o sapato, e dá um grito idêntico aos que ela dava na sua juventude, no bairro onde vivia:

-Anda cá minha cabrita, que já vais ver como elas te mordem!

Jorge C. Chora




quinta-feira, 27 de agosto de 2015

O FIEL AMIGO/O RABO EM TRIÂNGULO OU EM W ?

                                                                                                       
As diferenças entre o bacalhau e outros peixes, que mesmo não o sendo, são apresentados e vendidos como tal, era o tema de conversa de dois amigos ao balcão de uma tasca.

Ambos estavam agradecidos a um inspector de pescado de uma lota, que lhes explicara como distinguir o que era considerado o verdadeiro bacalhau, caso do Gadus Morhua,(do Atlântico) e do Gadus Macrocephalus (do Pacífico),de outros peixes como Saithe, o Ling e o Zarbo.

Tinham aprendido que o verdadeiro, para além da cor palha, da pele que se soltava com mais facilidade, da ausência de manchas escuras ,  era identificado , quase de imediato, pelo rabo: o legitímo tinha a terminação do rabo quase direita, em triângulo, e o falso terminava em W.

A conversa foi interrompida pelo empregado do estabelecimento que levantou um alguidar de plástico com bacalhau de molho, com os rabos bem à mostra e disse:

-Pois é , quem não sabe é comido! Vejam o que é um bom bacalhau..  – e apontou para os rabos em “ W” que mostravam que o peixe era tudo menos o fiel amigo.

Entreolharam-se os amigos e disseram em uníssono:

-Quem sabe, sabe…

E despediram-se do homem que nascera com duas bocas e sem ouvidos, que de alguidar ao colo continuava a mostrar aos clientes um” bacalhau” de  arromba.


Jorge C.Chora

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

O PESO DO ARREPENDIMENTO

                                                                                                                  

Um velho e sabido falsário, trapaceiro quase desde o berço, foi apanhado em flagrante delito, após anos de impunidade. Identificado como o mentor de uma extensa quadrilha, foi julgado com toda a pompa e circunstância.

 Servindo-se das suas artimanhas, entrava no tribunal, caminhando como um”velhinho” trôpego, com os lábios trémulos, fazendo vénias consecutivas a todos os que lá se encontravam. Quando respondia às perguntas, era de modo vacilante e desconexo. Causava dó vê-lo e condoíam-se os presentes.

O juiz foi alertado para a marosca do cabecilha, por um funcionário da instituição que o via chegar todos os dias, longe do olhar do público, de automóvel, do qual saia de modo ágil, dirigindo-se do mesmo modo ao tribunal.

Confrontado com a situação pelo juiz, o falsário respondeu de forma compungida:

-Saiba V. Exª que eu ao entrar nesta veneranda e respeitável casa, começo a pensar no que fiz… e o peso do arrependimento apossa-se de mim. Espero que V.Exª leve em linha de conta este meu arrependimento, quando proferir a sentença… - Enquanto pensava para si próprio -  Espero que acredites, meu trouxa,  que eu tenho mais que fazer e encomendas de dólares para satisfazer…
E o juiz, com um sorriso matreiro, dizia-lhe:

-Com certeza…com certeza…tudo será levado em linha de conta…pode contar com isso…

E mais não se diz sobre este falsário, sob pena de estarmos a instruir, inadvertidamente, outros sacripantas…


Jorge C. Chora

sábado, 22 de agosto de 2015

A SAGA DA FAMÍLIA POMAR

                                                                                                         
O senhor estava reformado e era importante na aldeia. Amante do bom vinho, do assim-assim e também do mau, quando não havia outro. Tinha a particularidade de nunca andar aos ziguezagues: caminhava direito que nem um fuso, embora não evitasse os obstáculos. Gostava de ser útil e uma das tarefas de que se incumbia era a de fazer os registos de nascimento da aldeia e de os levar até à vila, pois estava-se já no tempo da república.

Por vezes ou melhor, a maior parte das vezes, preenchia a certidão ou prestava as declarações já na vila, e nem sempre os nomes coincidiam com o que lhe tinha sido dito.

Uma família, farta de ver trocados os nomes, recomendava ao escriba:

-Veja caro senhor que nós somos Laranjo de apelido. Pedimos-lhe que se recorde…

-Caros amigos, não sei eu outra coisa…é mais fácil esquecer-me do meu do que do vosso…

-Muito obrigado. Faça vossa mercê boa viagem e que Deus lhe pague…que da nossa parte também já contribuímos…

Quando a certidão regressava com os selos legais, os pais descobriram, da primeira vez, que tinham tido um Pereirinha e não um Laranjo. E durante muitos anos a cena repetiu-se do mesmo modo: da 2ª coube-lhes receber uma Figueira, depois um Pessegueiro, seguiu-se uma Nespereira e um Laranjal e por fim uma Ameixeira e um Damasqueiro.

A família bem tentou mudar os apelidos, mas quem os recebeu, após ouvir as reclamações, inchou o peito e sentenciou:

-Ou fica tudo na mesma ou ficam a chamar-se a família Pomar!

Não mudaram os nomes, mas o que é facto é quando realizavam as suas reuniões e almoços de confraternização, a vizinhança resumia o acontecimento:

-Mais uma festa da família Pomar!

Jorge C. Chora



sexta-feira, 21 de agosto de 2015

FLOR

    
Quis dar uma flor
ao meu amor,
mas o problema
foi tentar encontrar
uma à sua altura
e não conseguir achá-la.
Depois de muito pensar,
com celofane envolvi
o meu amor,
pois flor como ela, outra não há.


Jorge C. Chora