sábado, 3 de setembro de 2016

O NOVE DEDOS



O “Nove Dedos” era um homem de baixa estatura, mas encorpado, com cara de limão, de acordo com Luciano Rolão, que o viu inúmeras vezes e lhe conhecia a fama de malquisto.
Trazia sempre uma chibata numa mão e na outra um livro para passar multas. Utilizava-o de modo intenso e diário e não cedia a rogos nem choradeiras: confiscava a mercadoria às vendedeiras e de seguida multava-as sem dó nem piedade, a bem da nação e da ordem pública. Era o terror das vendedeiras clandestinas que exerciam a profissão fora do mercado da 24 de Julho, nomeadamente na Rua da Ribeira Nova ao Cais do Sodré, em Lisboa.

O homem de que Luciano fala era um polícia ou melhor, um comissário, que se deslocava num jipe,  idêntico aos que se utilizavam na 2ª Guerra Mundial, com capota de lona. Para além do condutor, era sempre acompanhado por um guarda.

Um belo dia, no exercício da sua actividade fiscalizadora e confiscadora, uma vendedeira com pêlo na venta, engalfinhou-se com o comissário, deu-lhe uma tal dentada, cuja consequência  foi o homem passar a contar com menos um dedo e daí em diante  ser conhecido como o “Nove Dedos”.

As dentadas e o puxar de cabelos, faziam parte do arsenal de algumas varinas e vendedeiras na década de cinquenta e sessenta. Diz-nos Luciano, que as suspeitas e ciúmes que elas tinham em relação aos maridos e às outras mulheres, eram o rastilho mais habitual das zaragatas.

Seja como for, o ”Nove Dedos” não deixou de continuar a ser uma dor de cabeça para os comerciantes, clandestinos ou não. Serafim Milho também se lembra da fama deste comissário e de na Rua General Taborda, logo que algum comerciante o via, telefonava aos outros para fecharem as portas.


Jorge C. Chora

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

O PEIXE FRESCO DO CAIS DA RIBEIRA E A CHICOTADA QUE LUCIANO LEVOU A PROPÓSITO DAS HORTALIÇAS DO MERCADO DA 24 DE JULHO


Nasceu na Madragoa, na Rua das Trinas, na freguesia da Lapa e foi baptizado na Basílica da Estrela com o nome de Luciano. Era neto e sobrinho de residentes locais.

Entre os dez e os treze anos sempre teve acesso gratuito ao peixe fresco de 1ª qualidade (sardinha e carapau…). As cestas de verga redondas, repletas de peixe, eram lançadas das traineiras para o cais da Ribeira que ficava acima do nível a que o barco estava. Havia peixe que caía e o Luciano, o irmão e a rapaziada do bairro eram lestos a apanhá-lo. Isto passava-se da parte da manhã.

À tarde, quando os carroceiros transportavam as hortaliças para o mercado da 24 de Julho, vá de deitar-lhes as mãos entre os tapumes das carroças e conseguir um acompanhamento adequado ao peixe fresco matinal.

Um belo dia o carroceiro foi mais rápido do que o Luciano e ferrou-lhe uma tal chicotada na face que o deixou cheio de dores e sem apetite por verduras, pelo menos por algum tempo…

Em breve as “pescarias” terminaram pois Luciano e os outros tiveram de começar a trabalhar.
Era assim a vida de alguns jovens de Lisboa na década de cinquenta …


Jorge C. Chora

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

MEMÓRIA DE DOIS MOMENTOS COM O CERAMISTA JOSÉ FRANCO


Ia amiúde ao Sobreiro e sempre que me apetecia pão com chouriço, dava um pulo à aldeia do José Franco.

Conversava diversas vezes com o ceramista, que se encontrava quase sempre a trabalhar, instalado na sua pequena oficina, logo à entrada do edifício, onde ainda hoje se vendem os artigos de cerâmica.
Numa dessas ocasiões, ao ver o artista a criar, verifiquei que a figura em barro que moldava, tal como as outras que produzia, não só se encontravam descalças como apresentavam também um pormenor interessante: tinham o dedo grande do pé esquerdo levantado.

José Franco sorriu e disse-me que os homens do povo andavam a maioria das vezes descalços e que, quando estavam na taberna e bebiam um copo de vinho, mostravam inconscientemente a sua satisfação, levantando o grande dedo do pé.

Noutra ocasião, acompanhado pela minha mulher, comprámos um postal onde estava representado o artista com uma das suas obras. Pedimos-lhe que o rubricasse e ele não se fez rogado: pediu que o segurássemos e, com o polegar sujo do barro, imprimiu a sua impressão digital.

“Estou a utilizar o meu instrumento de trabalho”, referiu com a maior simplicidade, convidando-nos a beber a tradicional canequinha de vinho na sala seguinte, caso nos apetecesse.


Jorge C. Chora

terça-feira, 16 de agosto de 2016

A NEGA DE ÉOLO

                                                           

A voz ouvia-se com enormes distorções e, caso a cantora não fosse conhecida, o recinto ficaria deserto, pela notória falta de qualidade da actuação. Ela esforçava-se, sem qualquer sucesso, pois o sistema de som, que a organização disponibilizara, era péssimo ou, na melhor das hipóteses, completamente inadequado.

A cantora dispunha de alguns trunfos: era relativamente jovem, simpática e trajava uma minissaia que não escondia umas elegantes, compridas e belas pernas.

Um vento forte começou a fazer-se sentir. De repente, as saias da artista levantaram-se por diversas vezes e ela teve de as segurar.

O vento depressa amainou. Como que por artes mágicas, alguns espectadores chegaram-se para junto do palco e começaram, diria que por mero instinto, a soprar, levando a que outros fizessem o mesmo.

Éolo não lhes fez a vontade: a saia nunca mais se levantou, por mais que eles soprassem.

Éolo foi um desmancha prazeres. Um seminarista que se encontrava na segunda fila e que não acreditava em deuses pagãos, ainda tentou uma intercessão divina:

-Ó Deus, in adjutórium meum inténde (vinde em meu auxílio) - mas a sorte também não lhe sorriu.


Jorge C. Chora

quinta-feira, 28 de julho de 2016

ROMA NÃO PAGA A TRAIDORES OU A SAGA DE JULIA STEPANOVA

                            
Li no DN de 27 e 28 de Junho,um resumo sobre a denúncia de Julia Stepanova e do seu marido Vitaly, sobre o caso de dopagem em grande escala, no atletismo russo, levado a efeito pelas próprias autoridades desse país.

A luta que levaram até conseguirem denunciar a situação trouxe-lhes consequências, desde a perseguição no seu próprio país, até ao terem de se esconder durante anos na América do Norte.
O que Julia não esperava é que o próprio Comité Olímpico Internacional, ao arrepio do que tinha sido decidido pela Federação Internacional de Atletismo, que permitira a sua participação nos jogos como atleta neutral, colocasse a condição de só autorizar a participação de atletas russos que nunca tivessem sido castigados por doping.

O mais grave é que inúmeros atletas de outras nacionalidades, que não russas, tenham sido autorizados a competir nos jogos, depois de terem sido castigados por doping!

É caso para se dizer que Stepanova é tratada como se fosse uma traidora, é punida em público perante o mundo e que, por este andar só falta o cartaz, semelhante ao que os romanos fizeram quando os assassinos de Viriato, embora a soldo do império, pretenderam receber a recompensa prometida: foram executados e ao seu lado um cartaz anunciou  ”Roma não paga a traidores”.

Como o exemplo vem do alto, aí está o aviso: come e cala. Não há lugar para queixinhas pé de salsa… manda quem pode obedece quem deve….


Jorge C. Chora

quinta-feira, 21 de julho de 2016

O CENTRO DE CULTURA E ARTE DA BEIRA HÁ CINQUENTA ANOS

                  
Ainda era pequeno quando os meus pais decidiram colocar-nos, a mim e ao meu irmão, a aprender desenho à vista, no Centro de Cultura e Arte da Beira.

O centro funcionava num casarão, à beira do campo de golfe e se a memória não me falha, na Ponta Gêa. Para além de várias salas, era dotada de grandes varandas fechadas, com redes nas janelas. Os cavaletes eram dispostos de modo a que cada aprendiz não constituísse um obstáculo visual e eramos distribuídos pela sala e pelo dito corredor/varanda. Cheirava a tintas e a líquido fixador. No centro, um pedestal onde o professor colocava o que devíamos desenhar.

Aprendemos a tirar medidas aos objectos, fechando um olho e, com o outro, de braço estendido,com um lápis na vertical e na horizontal, apontando para o objecto, definíamos as proporções e marcávamos os contornos e desenhávamos.

As aulas eram por volta das 17h30 e acabavam cerca de hora e meia depois. Nessa altura, quer eu, quer o meu irmão, estávamos esfomeados, já que naquela época jantávamos pelas 18/18h30, o mais tardar. Desenhávamos a carvão e apagávamos os desenhos com miolo de pão. Quando completávamos a obra utilizávamos o fixador, pulverizando a obra.

E o estômago a dar horas e nós a pensar que bem nos saberia ter ali o enorme pão com “jam” que deitávamos fora à socapa, quando nos levavam o lanche à praia, duas horas após sermos obrigados a comer o colossal “mata-bicho” à moçambicana, que enfartaria um elefante e deixaria K.O. um leão!
E a fome continuava a apertar e, como quem não queria a “coisa”, íamos ao miolo de pão, abocanhávamos um pedaço que não tivéssemos usado e depois outro e ainda outro, até que marchava, por vezes, o que estava sujo de carvão. A fome era negra! E acompanhados pelas notas musicais que nos chegavam das aulas de ballet, íamos devorando o pão que nos sabia infinitamente melhor que o caranguejo, o bife, a lagosta e o camarão, a que torcíamos o nariz em casa.

Os pais, esses sábios, tinham jantares sossegados, sem lamúrias do “não me apetece” “estou satisfeito” e “não há mais nada?”…

As minhas aulas continuaram pelas férias dentro até que um dia estiveram quase a ser interrompidas. Ao chegarmos a casa, a minha mãe mostrava sempre um grande interesse pelas obras-primas dos seus “artistas”. Um dia trouxe-lhe um desenho ao qual não achou graça nenhuma: eram uns seios descomunais.

-Oh! Jorge Alberto…o que é isto? Tu deves fazer os desenhos que o professor te manda! E olhava toda triste, mas de uma forma meiga, para o seu rebento desencaminhado.

-Ó mãe, foi o professor que colocou um busto no pedestal… -respondi-lhe.

Puxou-me para si, beijou-me e disse:

-Bom, assim está bem… mas deves estar mais atento…umas maminhas assim seriam um castigo de Deus!


Jorge C. Chora

segunda-feira, 18 de julho de 2016

O JARDIM EPISCOPAL DE CASTELO BRANCO E O DEVANEIO SOBRO O GIOCHI



Em maio deste ano visitei o jardim do Paço Episcopal de Castelo Branco. Melhor dizendo, revisitei-o, pois já na adolescência por lá tinha passado com a família e há cerca de trinta anos, com a minha mulher.

A vantagem destas visitas espaçadas no tempo é a de que nos podemos maravilhar com pormenores que nos tinham escapado na altura.

Desta vez, fomos integrados num grupo (círculo cultural Artur Bual, da Amadora, presidido por Luís Teixeira Alves) e tivemos a sorte de ter como guia, em Castelo Branco, o arquitecto José Paulo Leite.
Escusado será dizer que a visita foi óptima e abarcou desde o museu Cargaleiro ao Centro Cultural, passando pela parte medieval da cidade e o Jardim Episcopal.

Imaginei os bispos no jardim deliciando-se com as vítimas do giochi à italiana (jogos de água), que surpreenderiam as convidadas, esguichando jactos de água e causando gritinhos de “ai Jesus.. ai Jesus” e suas excelências, solicitas, acorrendo com os seus lenços de seda a secar-lhes os tornozelos e convidando-as a sentarem-se nas conversadeiras. Refeitas do susto, ser-lhe-ia eventualmente proposto um passeio de batel ou de canoa, no tanque grande, que armazenava a água para a rega do jardim…

Eis que me puxam pelo braço. Os membros do círculo adiantaram-se e a minha mais que tudo repreende-me:

-Lá estás tu a pensar na morte da bezerra…acorda…não me digas que já estás a imaginar-te no lugar dos bispos!

-Que ideia a tua… -resmungo- apanhado, como sempre, por quem me conhece como às suas próprias mãos.


Jorge C. Chora