Baixou ao hospital e foi um corrupio de médicos, enfermeiros e técnicos ao seu redor. Ninguém sabia o que o homem tinha. Convocaram-se especialistas que nem ao diabo lembrava… e nada. Em desespero de causa, e à socapa das múltiplas direcções de serviço, chamaram uma bruxa, amiga da empregada da limpeza.
-Não consigo descobrir nada! Vejo tudo turvo…ele sabe o que tem e cala-se…coisa boa não é… - e convocou uma assembleia de amigas e colegas para a auxiliarem.
Calado que nem um rato, o homem não dizia, não disse nem diria o que se passara: simplesmente mordera a sua própria língua, que era tão peçonhenta ou tão pouco, que o envenenara de modo brutal e incompreensível para a comunidade médica.
Aflitos com a evolução dos sintomas contraditórios que apresentava, que apareciam e desapareciam num abrir e fechar de olhos, acharam por bem chamar algum familiar ou conhecido que pudesse dar pormenores, sintetizar a história clínica, dizer algo que os ajudasse a diagnosticá-lo e consequentemente a tratá-lo.
Já conformados com a impossibilidade de o curarem, levantaram as mãos ao céu, quando o maqueiro entrou e exclamou:
-Olha o Peçonha! O que é que te aconteceu ó má-língua do diabo? Não me digas que mordeste a tua língua venenosa…
O especialista em venenos exclamou:
- Eureka! É mesmo isso, o homem está envenenado! Quase que se ouve o som da cascavel …
O maqueiro, que conhecia o Peçonha de ginjeira, acalmou os presentes e disse:
-É fácil tratá-lo… é só fazerem-lhe umas perguntas…
-Perguntas? Mas que perguntas? - Interrogaram-se os presentes.
-Quaisquer…desde que ele liberte o veneno…
E os presentes cada vez mais desconfiados, cruzaram os braços e esperaram pela intervenção do maqueiro que não se fez rogado:
-O que achas de Beethoven?
-O que se pode esperar de um compositor cujo nome significa “canteiro de rabanetes”?
-Canteiro de rabanetes?
-Sim…em holandês… é mesmo isso o que significa, por isso só pode ser um compositor de 2ª categoria…
-O Ferrari é um dos melhores automóveis da actualidade…
-Um carrito de trazer por casa…
E perante o espanto da assistência, o Peçonha recobrou as cores, levantou-se da cama
e saiu como se nada tivesse acontecido.
O Peçonhas anda por aí…
Jorge C. Chora
quarta-feira, 24 de março de 2010
sexta-feira, 19 de março de 2010
O Milionário
O “Milionário”cambaleava, de modo perigoso, até conseguir agarrar-se ao balcão da taberna. Ancorado, mantinha-se durante horas no seu posto. Ninguém sabia que idade tinha, ou qualquer outra informação pessoal a seu respeito. O que todos sabiam e podiam afiançar, é que ele sempre ali estivera. Talvez tivesse ali nascido, quiçá!
-O que sai hoje “Milionário? – perguntou-lhe o dono.
-O costume…
Um copo de bagaço e um croquete surgiram, como que por artes mágicas, à sua frente.
-Milionário? – Interrogou-o um recém-chegado que não era cliente da casa. – Já foi rico… empobreceu com a crise…
O visado sorriu, pigarreou, empertigou-se um pouco, endireitou a gola esfarrapada da camisa e disse:
-O que lhe posso dizer, com testemunhas, é que durmo todos os dias rodeado de tanto, mas tanto dinheiro, que acredito que V. Exa. nunca o terá, por muito rico que possa ser…
-Então é rico mas gosta de passar por pobre…com a criminalidade que existe hoje, nem é mal pensado…é uma excelente estratégia…
-Se assim fosse, eu era uma autêntica aberração…uma cavalgadura… passar por pobre, sendo rico…imaginem… - desabafou o vagabundo que dormia rodeado por uma fortuna incalculável, afastando e juntando os cotovelos ao corpo, como se fosse voar.
-Então não percebo nada! – Concluiu espantado o estranho.
-Vou explicar-lhe…não quero que fique com minhocas na cabeça… - e antecipando os segundos de fama, aclarou a voz, afectada pelas noites ao luar e pelos sonhos com as notas de euros.
Ainda não acabara a frase quando o gerente do banco ao lado da taberna, assomou à porta e disse:
-Ó Milionário, vai lá tirar o teu colchão da porta do banco porque está na hora de abrirmos…
Jorge C. Chora
-O que sai hoje “Milionário? – perguntou-lhe o dono.
-O costume…
Um copo de bagaço e um croquete surgiram, como que por artes mágicas, à sua frente.
-Milionário? – Interrogou-o um recém-chegado que não era cliente da casa. – Já foi rico… empobreceu com a crise…
O visado sorriu, pigarreou, empertigou-se um pouco, endireitou a gola esfarrapada da camisa e disse:
-O que lhe posso dizer, com testemunhas, é que durmo todos os dias rodeado de tanto, mas tanto dinheiro, que acredito que V. Exa. nunca o terá, por muito rico que possa ser…
-Então é rico mas gosta de passar por pobre…com a criminalidade que existe hoje, nem é mal pensado…é uma excelente estratégia…
-Se assim fosse, eu era uma autêntica aberração…uma cavalgadura… passar por pobre, sendo rico…imaginem… - desabafou o vagabundo que dormia rodeado por uma fortuna incalculável, afastando e juntando os cotovelos ao corpo, como se fosse voar.
-Então não percebo nada! – Concluiu espantado o estranho.
-Vou explicar-lhe…não quero que fique com minhocas na cabeça… - e antecipando os segundos de fama, aclarou a voz, afectada pelas noites ao luar e pelos sonhos com as notas de euros.
Ainda não acabara a frase quando o gerente do banco ao lado da taberna, assomou à porta e disse:
-Ó Milionário, vai lá tirar o teu colchão da porta do banco porque está na hora de abrirmos…
Jorge C. Chora
segunda-feira, 15 de março de 2010
Esta malta não toma banho!
A dor de barriga apanhou-o a descer o beco. Parou. Sabia que dificilmente poderia progredir sem haver azar. Cruzou as pernas e apertou-se o mais que pôde. Conseguiu refrear o irrefreável. “Só mais um bocado, vou conseguir chegar a um café”, pensou.
Olhou em redor. Nada de cafés. Lembrou-se de que nem dinheiro trocado tinha para encomendar uma bebida. Só tinha uma maldita nota de cem euros. De relance ainda tentou recordar-se de alguma casa de banho pública no local. Depressa lhe veio à memória a sua oposição à construção desse tipo de edificação, desperdício de dinheiros públicos, segundo a sua opinião. Se o arrependimento matasse!
Que pena não poder recuar, por artes mágicas, uns séculos atrás que era ali mesmo que se aliviaria. Era um” passar vento “! A necessidade tornou-se ainda maior e obrigou-o a desapertar o botão das calças. No princípio das escadas surgiram três transeuntes.
-Maldição! Não posso mais – murmurou, empalidecendo, numa primeira fase, para de seguida ficar esverdeado. Não se aguentou. “E agora?” Questionou-se, para de supetão desandar do local. Logo por azar não trouxera o carro.
Entrou no metro, sentou-se, apertou o nariz e, bem alto sentenciou:
-Esta malta não toma banho!
Jorge C. Chora
Olhou em redor. Nada de cafés. Lembrou-se de que nem dinheiro trocado tinha para encomendar uma bebida. Só tinha uma maldita nota de cem euros. De relance ainda tentou recordar-se de alguma casa de banho pública no local. Depressa lhe veio à memória a sua oposição à construção desse tipo de edificação, desperdício de dinheiros públicos, segundo a sua opinião. Se o arrependimento matasse!
Que pena não poder recuar, por artes mágicas, uns séculos atrás que era ali mesmo que se aliviaria. Era um” passar vento “! A necessidade tornou-se ainda maior e obrigou-o a desapertar o botão das calças. No princípio das escadas surgiram três transeuntes.
-Maldição! Não posso mais – murmurou, empalidecendo, numa primeira fase, para de seguida ficar esverdeado. Não se aguentou. “E agora?” Questionou-se, para de supetão desandar do local. Logo por azar não trouxera o carro.
Entrou no metro, sentou-se, apertou o nariz e, bem alto sentenciou:
-Esta malta não toma banho!
Jorge C. Chora
sexta-feira, 5 de março de 2010
O dia em que o rei disse não!
Ninguém no reino sabia, ou sequer imaginava, o que se ia passar nesse dia. Os magos da corte, cujo papel era adivinhar o que ia acontecer, falharam redondamente na sua missão e pagariam com língua de palmo o seu fracasso. Já verão como, se tiverem um pouco de paciência.
O rei acordara sem saber se estava ou não bem-disposto. Doía - lhe a cabeça. Um estranho silêncio rodeava-o. O rei pura e simplesmente acordara meio surdo, e não o notara, tal o sossego que habitualmente reinava na câmara.
O camareiro-mor, enrodilhado aos pés da cama do poderoso rei, mal o ouvira mexer-se, levantara-se e iniciara a preparação do vestuário que o seu senhor ia usar. As cortinas da cama foram corridas com suavidade, enquanto o reposteiro-mor ajeitava a almofada real para facilitar o apoio a sua majestade, no sentido de o ajudar a levantar-se e ajeitava o cadeirão para que ele se sentasse.
Vestido e alimentado, seguiu para uma audiência particular que lhe tinha sido pedida e agendada para esse dia.
Fuinha, um homem incrivelmente rico, conseguira o encontro com o rei, assim do pé para a mão, ninguém sabia como. Há três dias que o proprietário Fuinha não dormia, devido ao nervosismo em que se encontrava. Desejava justiça. Tinha um caso urgente a apresentar que lhe estava a causar, ou melhor dizendo, lhe viria a provocar um prejuízo económico, caso não fosse resolvido a seu contento, e isso era coisa a que não estava habituado.
O queixoso era um homem muito magro, quase só ossos, que comia desalmadamente e estava sempre esfomeado. Mexia-se muito, dava estalidos com os dedos, pigarreava enquanto ensaiava o que ia dizer a sua Majestade. Tinha quase a certeza de que conseguiria convencer o rei da justeza da sua causa.
O caso era simples: uma inquilina sua, a Joana doceira, enviuvara há quinze dias e já lhe tinha confessado não ter capacidade para lhe pagar a renda em devido tempo. Pedira-lhe um adiamento pois estava com problemas…
-Problemas… todos têm problemas - resmungou Fuinha – e eu que os resolva. Por este caminho eu é que os vou ter… menos uma renda é sempre menos uma…não me faz falta…mas é uma questão de princípio… a única saída é expulsá-la… e uma palavrinha do rei ao juiz…
A sala de audiências abriu-se e o porteiro fez lhe sinal para entrar. Sentado numa cadeira alta, colocada em cima de um estrado, estava o rei. Num plano inferior dois conselheiros: um novo, que mais parecia ter engolido um pau de vassoura, tão empertigado estava, e o outro, velhote, desgrenhado, muito encolhido, quase com vergonha de estar ali. Era um antigo hortelão que o rei tornara nobre e seu conselheiro, depois dele o ter curado de um mal de estômago.
A audiência começou.
-Sua Majestade, o marido da minha inquilina Joana morreu e eu venho pedir a Vossa Majestade que interceda… pois ele era o ganha-pão da família … e não sendo possível ressuscitá-lo…- e Fuinha, atrapalhado, foi interrompido pelo rei:
-Ó bom homem, os meus poderes não chegam a tanto…
O proprietário arregalou os olhos. Não queria acreditar no que lhe estava a acontecer. O rei não podia interceder!
-Mas… -balbuciou Fuinha.
-Tenho de dizer não ao seu pedido! Não tenho poderes para ressuscitar o marido de Joana.
Fuinha tremia da cabeça aos pés ao ver a renda fugir-lhe. Ressuscitá-lo! Por que tinha falado em… e aqui já duvidara se teria pedido isso mesmo ao rei.
-Mas a Joana…
O hortelão lembrou-se, de repente, de quem era Joana e disse ao rei:
-Sua Majestade, a Joana doceira é a que faz os doces de que tanto gosta!
-Hum...hum…. – e colocava a mão em concha no ouvido esquerdo.
O hortelão, que já percebera que o rei estava com dificuldades em ouvir, comunicou por gestos e palavras:
-A Joana - e acto contínuo, apertou a sua orelha direita com dois dedos…
-Mau … - interrompeu o rei, pensando que o seu conselheiro tivesse perdido o juízo e lhe estivesse a dizer que a Joana era bonita…
-Não…-acalmou-o o hortelão, e logo de seguida imitou o gesto de que estava a comer e a lamber-se…
-Ah! Agora percebi. A Joana faz os doces de que eu gosto!
-Isso…
-Hum… o marido morreu…está com dificuldades - condoeu-se o rei e ordenou - tragam-na para o palácio, a ela e aos seus. Que nada lhe falte. Só coloco uma condição: que me faça um doce todos os dias.
O hortelão mal ouviu a sentença, ganhou asas e desapareceu para dar a boa nova à Joana.
Enquanto o rei abandonava a sala, o jovem conselheiro espumava de raiva, receoso de que o Fuinha lhe exigisse o dinheiro que lhe dera para conseguir a audiência.
Os doces de Joana trouxeram o fim das intrigas e inimizades na corte. Os cortesãos que estivessem zangados, pura e simplesmente não tinham direito ao doce nesse dia.
O único problema que Joana teve daí para a frente era o de que os comilões lhe comessem os doces antes da hora, mas o amigo hortelão resolveu-lhe esse sarilho: arranjou-lhe uma colher de pau de meio metro com que ela defendia os doces até à hora de irem à mesa e serem degustados.
Os magos, que não tinham adivinhado a surdez do rei, que tinham fracassado no que se ia passar nas audiências, nunca tinham sonhado, mas mesmo nunca, falhar de novo redondamente na previsão de que iriam levar com a colher de pau todos os dias, quando tentassem surripiar os doces e prová-los antes de eles chegarem à mesa.
Jorge C. Chora
O rei acordara sem saber se estava ou não bem-disposto. Doía - lhe a cabeça. Um estranho silêncio rodeava-o. O rei pura e simplesmente acordara meio surdo, e não o notara, tal o sossego que habitualmente reinava na câmara.
O camareiro-mor, enrodilhado aos pés da cama do poderoso rei, mal o ouvira mexer-se, levantara-se e iniciara a preparação do vestuário que o seu senhor ia usar. As cortinas da cama foram corridas com suavidade, enquanto o reposteiro-mor ajeitava a almofada real para facilitar o apoio a sua majestade, no sentido de o ajudar a levantar-se e ajeitava o cadeirão para que ele se sentasse.
Vestido e alimentado, seguiu para uma audiência particular que lhe tinha sido pedida e agendada para esse dia.
Fuinha, um homem incrivelmente rico, conseguira o encontro com o rei, assim do pé para a mão, ninguém sabia como. Há três dias que o proprietário Fuinha não dormia, devido ao nervosismo em que se encontrava. Desejava justiça. Tinha um caso urgente a apresentar que lhe estava a causar, ou melhor dizendo, lhe viria a provocar um prejuízo económico, caso não fosse resolvido a seu contento, e isso era coisa a que não estava habituado.
O queixoso era um homem muito magro, quase só ossos, que comia desalmadamente e estava sempre esfomeado. Mexia-se muito, dava estalidos com os dedos, pigarreava enquanto ensaiava o que ia dizer a sua Majestade. Tinha quase a certeza de que conseguiria convencer o rei da justeza da sua causa.
O caso era simples: uma inquilina sua, a Joana doceira, enviuvara há quinze dias e já lhe tinha confessado não ter capacidade para lhe pagar a renda em devido tempo. Pedira-lhe um adiamento pois estava com problemas…
-Problemas… todos têm problemas - resmungou Fuinha – e eu que os resolva. Por este caminho eu é que os vou ter… menos uma renda é sempre menos uma…não me faz falta…mas é uma questão de princípio… a única saída é expulsá-la… e uma palavrinha do rei ao juiz…
A sala de audiências abriu-se e o porteiro fez lhe sinal para entrar. Sentado numa cadeira alta, colocada em cima de um estrado, estava o rei. Num plano inferior dois conselheiros: um novo, que mais parecia ter engolido um pau de vassoura, tão empertigado estava, e o outro, velhote, desgrenhado, muito encolhido, quase com vergonha de estar ali. Era um antigo hortelão que o rei tornara nobre e seu conselheiro, depois dele o ter curado de um mal de estômago.
A audiência começou.
-Sua Majestade, o marido da minha inquilina Joana morreu e eu venho pedir a Vossa Majestade que interceda… pois ele era o ganha-pão da família … e não sendo possível ressuscitá-lo…- e Fuinha, atrapalhado, foi interrompido pelo rei:
-Ó bom homem, os meus poderes não chegam a tanto…
O proprietário arregalou os olhos. Não queria acreditar no que lhe estava a acontecer. O rei não podia interceder!
-Mas… -balbuciou Fuinha.
-Tenho de dizer não ao seu pedido! Não tenho poderes para ressuscitar o marido de Joana.
Fuinha tremia da cabeça aos pés ao ver a renda fugir-lhe. Ressuscitá-lo! Por que tinha falado em… e aqui já duvidara se teria pedido isso mesmo ao rei.
-Mas a Joana…
O hortelão lembrou-se, de repente, de quem era Joana e disse ao rei:
-Sua Majestade, a Joana doceira é a que faz os doces de que tanto gosta!
-Hum...hum…. – e colocava a mão em concha no ouvido esquerdo.
O hortelão, que já percebera que o rei estava com dificuldades em ouvir, comunicou por gestos e palavras:
-A Joana - e acto contínuo, apertou a sua orelha direita com dois dedos…
-Mau … - interrompeu o rei, pensando que o seu conselheiro tivesse perdido o juízo e lhe estivesse a dizer que a Joana era bonita…
-Não…-acalmou-o o hortelão, e logo de seguida imitou o gesto de que estava a comer e a lamber-se…
-Ah! Agora percebi. A Joana faz os doces de que eu gosto!
-Isso…
-Hum… o marido morreu…está com dificuldades - condoeu-se o rei e ordenou - tragam-na para o palácio, a ela e aos seus. Que nada lhe falte. Só coloco uma condição: que me faça um doce todos os dias.
O hortelão mal ouviu a sentença, ganhou asas e desapareceu para dar a boa nova à Joana.
Enquanto o rei abandonava a sala, o jovem conselheiro espumava de raiva, receoso de que o Fuinha lhe exigisse o dinheiro que lhe dera para conseguir a audiência.
Os doces de Joana trouxeram o fim das intrigas e inimizades na corte. Os cortesãos que estivessem zangados, pura e simplesmente não tinham direito ao doce nesse dia.
O único problema que Joana teve daí para a frente era o de que os comilões lhe comessem os doces antes da hora, mas o amigo hortelão resolveu-lhe esse sarilho: arranjou-lhe uma colher de pau de meio metro com que ela defendia os doces até à hora de irem à mesa e serem degustados.
Os magos, que não tinham adivinhado a surdez do rei, que tinham fracassado no que se ia passar nas audiências, nunca tinham sonhado, mas mesmo nunca, falhar de novo redondamente na previsão de que iriam levar com a colher de pau todos os dias, quando tentassem surripiar os doces e prová-los antes de eles chegarem à mesa.
Jorge C. Chora
sábado, 27 de fevereiro de 2010
A Gata Renhau - Nhau
Vou contar-vos a história de uma gata vaidosa. Chamava-se Renhau-Nhau e descendia de uma antiga, ou melhor dizendo, antiquíssima família de felinos.
Uma sua antepassada tinha tido como dona, D. Teresa, e Tareco, o marido da referida gata, por incrível que pareça, pertencia a Egas Moniz. Quando falamos de D. Teresa, é claro que falamos da mãe do nosso primeiro rei, D. Afonso Henriques. Quanto a Egas, é evidente que, embora tenhamos duas figuras muito importantes da nossa história com esse nome, falo da primeira, do aio do nosso rei, daquele que ainda agora falámos.
A gata era muito vaidosa e passava os dias a espreguiçar-se e a ver-se ao espelho. Recusava dar-se, ou mesmo falar, com a maioria das outras gatas pois não tinham a sua dignidade:
-Que horror! Tão rafeiras que elas são… mesmo desinteressantes…
Quando passava por elas até fingia não as ver. Eram gatas rafeiras, como ela dizia, e ela, afinal, uma Renhau – Nhau, com hífen e tudo. O hífen não é só o tracinho que separa o Renhau do Nhau: este tracinho era a coisa mais importante, pois era ele que lhe atribuía raça e a separava dos rafeiros, pensava ela.
A nossa gata, comportou-se de tal modo com as suas amigas, que elas decidiram retribuir-lhe da forma como eram tratadas: deixaram de lhe falar e fingiam não a ver.
Triste e só ficou Renhau-Nhau. A cada dia que passava ela emagrecia, o pêlo caía-lhe e os olhos perdiam o brilho. A princesa tornou-se uma bruxa, daquelas antigas, mesmo muito, mas mesmo muito feia.
Tudo o que era gato ou gata fazia troça da Renhau e cantavam sempre que a viam:
Aí a Renhau que merece tau tau
Tão vaidosa qu`ela era
E feiosa qu`ela está
E a outrora bela Renhau chorava, e chorava ainda mais quando, mesmo as gatas que ela nunca tinha visto cantavam com quanta força tinham os versos que a magoavam:
Aí a Renhau que merece tau tau
Tão vaidosa qu`ela era
E feiosa qu`ela está
Foi por essa altura que ela conheceu o mais rafeiro dos gatos, o Faneca. Alegre, brincalhão e amigo de todos, tratou a Renhau-Nhau com a simplicidade e delicadeza que dispensava a todos os que o rodeavam, como um verdadeiro príncipe que era, pouco se preocupando com o facto dela parecer ou não uma bruxa.
À medida que o tempo foi passando e o contacto com o mais rafeiro dos rafeiros se foi intensificando, o comportamento da nossa gata alterou-se, começou a aprender a respeitar os que a rodeavam, recuperou a sua beleza e, espanto dos espantos, passou a gostar também dos que eram diferentes dela.
Como acabou esta história?
Renhau-Nhau agradeceu ao deus dos gatos a sorte que tinha tido, e sempre que se dirigia ao seu gato rafeiro dizia cheia de nhau…nhaus e admiração:
-Meu príncipe…
E o mais rafeiro entre os rafeiros, sempre que isto ouvia, afagava-lhe as orelhas felpudas e respondia-lhe:
-Diz princesa…
Jorge C. Chora
Uma sua antepassada tinha tido como dona, D. Teresa, e Tareco, o marido da referida gata, por incrível que pareça, pertencia a Egas Moniz. Quando falamos de D. Teresa, é claro que falamos da mãe do nosso primeiro rei, D. Afonso Henriques. Quanto a Egas, é evidente que, embora tenhamos duas figuras muito importantes da nossa história com esse nome, falo da primeira, do aio do nosso rei, daquele que ainda agora falámos.
A gata era muito vaidosa e passava os dias a espreguiçar-se e a ver-se ao espelho. Recusava dar-se, ou mesmo falar, com a maioria das outras gatas pois não tinham a sua dignidade:
-Que horror! Tão rafeiras que elas são… mesmo desinteressantes…
Quando passava por elas até fingia não as ver. Eram gatas rafeiras, como ela dizia, e ela, afinal, uma Renhau – Nhau, com hífen e tudo. O hífen não é só o tracinho que separa o Renhau do Nhau: este tracinho era a coisa mais importante, pois era ele que lhe atribuía raça e a separava dos rafeiros, pensava ela.
A nossa gata, comportou-se de tal modo com as suas amigas, que elas decidiram retribuir-lhe da forma como eram tratadas: deixaram de lhe falar e fingiam não a ver.
Triste e só ficou Renhau-Nhau. A cada dia que passava ela emagrecia, o pêlo caía-lhe e os olhos perdiam o brilho. A princesa tornou-se uma bruxa, daquelas antigas, mesmo muito, mas mesmo muito feia.
Tudo o que era gato ou gata fazia troça da Renhau e cantavam sempre que a viam:
Aí a Renhau que merece tau tau
Tão vaidosa qu`ela era
E feiosa qu`ela está
E a outrora bela Renhau chorava, e chorava ainda mais quando, mesmo as gatas que ela nunca tinha visto cantavam com quanta força tinham os versos que a magoavam:
Aí a Renhau que merece tau tau
Tão vaidosa qu`ela era
E feiosa qu`ela está
Foi por essa altura que ela conheceu o mais rafeiro dos gatos, o Faneca. Alegre, brincalhão e amigo de todos, tratou a Renhau-Nhau com a simplicidade e delicadeza que dispensava a todos os que o rodeavam, como um verdadeiro príncipe que era, pouco se preocupando com o facto dela parecer ou não uma bruxa.
À medida que o tempo foi passando e o contacto com o mais rafeiro dos rafeiros se foi intensificando, o comportamento da nossa gata alterou-se, começou a aprender a respeitar os que a rodeavam, recuperou a sua beleza e, espanto dos espantos, passou a gostar também dos que eram diferentes dela.
Como acabou esta história?
Renhau-Nhau agradeceu ao deus dos gatos a sorte que tinha tido, e sempre que se dirigia ao seu gato rafeiro dizia cheia de nhau…nhaus e admiração:
-Meu príncipe…
E o mais rafeiro entre os rafeiros, sempre que isto ouvia, afagava-lhe as orelhas felpudas e respondia-lhe:
-Diz princesa…
Jorge C. Chora
domingo, 21 de fevereiro de 2010
SÃO BORRAS SENHOR!
Um aldeão das Beiras pediu à mulher que despachasse cinco alqueires de azeite para Lisboa. O assunto seria de somenos importância e de fácil resolução, não fosse dar-se o caso de estarmos na época do racionamento em Portugal, em vigor na 2ª guerra mundial.
A mulher dirigiu-se à Vila para tratar do despacho. Como que por artes mágicas, o fiscal da comissão reguladora, sujeito gordo, bexigoso e enxertado em corno de cabra, do qual até os lobos ao pressentirem a sua presença, perdiam o pio, quer dizer, deixavam de uivar e recolhiam às tocas, veio a saber do trato. O capeta apreendeu de imediato o azeite por falta de guia, remetendo num ápice o processo para o tribunal da comarca, localizado a uns quilómetros da Vila.
Ordenou com toda a pompa, que a prova do delito fosse guardada num armazém local, do qual guardou religiosamente a chave, encafuando-a no bolso direito, maior do que os alforges da mula que o transportava. Guardada a prova a ser apresentada em tribunal, descansou o zeloso funcionário, com a consciência tranquila de ter prevenido tão horrendo crime.
De noite, com a sensação do dever cumprido, roncou tanto ou tão pouco que as mulas no andar de baixo escoicearam o curral de tal modo, que os taipais se tornaram semelhantes a um crivo.
Na presença do juiz, o fiscal parecia inchado, e os acusados, mais pequenos que um borreguito nascido na véspera do seu infortúnio.
Julgado o caso, alegaram os réus que se tratava unicamente de enviar para uma fábrica de sabão, as borras de azeite e que a prová-lo (e isto dito entre muitos ais…) podia ser verificado o que estava nas bilhas:
-São borras senhor!
O desalmado fiscal ria-se com a defesa ingénua do casal, que tremia da cabeça aos pés e se lamentava em simultâneo: ai eu…ai eu… ai eu…
Na véspera um casal amigo do peito lograra entrar no armazém e trocar o conteúdo das bilhas.
Perante semelhantes provas, qual teria sido a atitude do juiz?
O casal foi absolvido.
Jorge C. Chora
A mulher dirigiu-se à Vila para tratar do despacho. Como que por artes mágicas, o fiscal da comissão reguladora, sujeito gordo, bexigoso e enxertado em corno de cabra, do qual até os lobos ao pressentirem a sua presença, perdiam o pio, quer dizer, deixavam de uivar e recolhiam às tocas, veio a saber do trato. O capeta apreendeu de imediato o azeite por falta de guia, remetendo num ápice o processo para o tribunal da comarca, localizado a uns quilómetros da Vila.
Ordenou com toda a pompa, que a prova do delito fosse guardada num armazém local, do qual guardou religiosamente a chave, encafuando-a no bolso direito, maior do que os alforges da mula que o transportava. Guardada a prova a ser apresentada em tribunal, descansou o zeloso funcionário, com a consciência tranquila de ter prevenido tão horrendo crime.
De noite, com a sensação do dever cumprido, roncou tanto ou tão pouco que as mulas no andar de baixo escoicearam o curral de tal modo, que os taipais se tornaram semelhantes a um crivo.
Na presença do juiz, o fiscal parecia inchado, e os acusados, mais pequenos que um borreguito nascido na véspera do seu infortúnio.
Julgado o caso, alegaram os réus que se tratava unicamente de enviar para uma fábrica de sabão, as borras de azeite e que a prová-lo (e isto dito entre muitos ais…) podia ser verificado o que estava nas bilhas:
-São borras senhor!
O desalmado fiscal ria-se com a defesa ingénua do casal, que tremia da cabeça aos pés e se lamentava em simultâneo: ai eu…ai eu… ai eu…
Na véspera um casal amigo do peito lograra entrar no armazém e trocar o conteúdo das bilhas.
Perante semelhantes provas, qual teria sido a atitude do juiz?
O casal foi absolvido.
Jorge C. Chora
sábado, 20 de fevereiro de 2010
É Meu
Gotas de suor escorriam da testa de Eduarda. As suas mãos ocupavam-se a colher amoras silvestres. Era Verão, estava-se em Agosto e eram quase quatro da tarde. Ao seu lado e ocupadas na mesma tarefa encontravam-se Laura e Francisca. Eram colegas de escola, encontravam-se de férias e todas partilhavam um gosto: adoravam compota de amoras silvestres feitas pela D. Adelaide, mãe de Francisca.
A destreza de Laura não evitou que se tivesse picado num dedo e parasse a colheita para chupar o pingo de sangue. Francisca ao ver o que sucedera à amiga apressou-se a depositar as amoras que tinha, no chapéu que estava a seus pés, para a auxiliar. Ao debruçar-se sentiu um restolhar e pareceu-lhe ver umas folhas a mexerem-se no chão. Parou a observar. Eduarda e Laura imobilizaram-se.
- O que se passa Francisca?
- Silêncio, há aqui qualquer coisa… - respondeu-lhes, colocando o dedo indicador em frente aos seus lábios.
Calaram-se e colocaram-se à escuta.
- Estou a ouvir qualquer coisa… - disse Laura.
- Eu também - concordou Eduarda.
Os sons começaram a ouvir-se de forma mais nítida. Eram latidos sem margem de dúvida. Apressaram-se a afastar as folhas e surgiu uma bola de pêlo amarelo: era um cachorro.
- É meu! - bradou Eduarda.
- Eu também o quero… - reclamou Laura.
Francisca calou-se. As duas amigas continuaram a discutir e a esgrimir argumentos.Com cuidado Francisca pegou no cãozinho e quando o virou para si verificou, e as amigas também, que ele tinha um olho inchado, fechado, e o peito ensanguentado.
- Pensando melhor, a minha mãe é capaz de não achar muita graça a um cãozinho lá em casa - comentou Eduarda, disfarçando um esgar de repulsa.
- Não tinha pensado nisso. Tens toda a razão! A minha também precisa de ser poupada e evito-lhe dissabores - apressou-se Laura a dizer.
Francisca levou-o e D. Adelaide acolheu-o e ajudou a tratá-lo. Um mês depois tornou-se uma autêntica beleza canina e foi baptizado pelo trio de amigas como “Pitt”, mas depois só “Brad”, inspiradas no seu ídolo.
Eduarda e Laura não deixariam passar um dia, um único que fosse, sem que dissessem:
- Então Francisca, quem são as amigas, que te deixaram ficar com o Brad?
Jorge C. Chora
A destreza de Laura não evitou que se tivesse picado num dedo e parasse a colheita para chupar o pingo de sangue. Francisca ao ver o que sucedera à amiga apressou-se a depositar as amoras que tinha, no chapéu que estava a seus pés, para a auxiliar. Ao debruçar-se sentiu um restolhar e pareceu-lhe ver umas folhas a mexerem-se no chão. Parou a observar. Eduarda e Laura imobilizaram-se.
- O que se passa Francisca?
- Silêncio, há aqui qualquer coisa… - respondeu-lhes, colocando o dedo indicador em frente aos seus lábios.
Calaram-se e colocaram-se à escuta.
- Estou a ouvir qualquer coisa… - disse Laura.
- Eu também - concordou Eduarda.
Os sons começaram a ouvir-se de forma mais nítida. Eram latidos sem margem de dúvida. Apressaram-se a afastar as folhas e surgiu uma bola de pêlo amarelo: era um cachorro.
- É meu! - bradou Eduarda.
- Eu também o quero… - reclamou Laura.
Francisca calou-se. As duas amigas continuaram a discutir e a esgrimir argumentos.Com cuidado Francisca pegou no cãozinho e quando o virou para si verificou, e as amigas também, que ele tinha um olho inchado, fechado, e o peito ensanguentado.
- Pensando melhor, a minha mãe é capaz de não achar muita graça a um cãozinho lá em casa - comentou Eduarda, disfarçando um esgar de repulsa.
- Não tinha pensado nisso. Tens toda a razão! A minha também precisa de ser poupada e evito-lhe dissabores - apressou-se Laura a dizer.
Francisca levou-o e D. Adelaide acolheu-o e ajudou a tratá-lo. Um mês depois tornou-se uma autêntica beleza canina e foi baptizado pelo trio de amigas como “Pitt”, mas depois só “Brad”, inspiradas no seu ídolo.
Eduarda e Laura não deixariam passar um dia, um único que fosse, sem que dissessem:
- Então Francisca, quem são as amigas, que te deixaram ficar com o Brad?
Jorge C. Chora
Subscrever:
Mensagens (Atom)
